

 Herdeira misteriosa
  Mystery heiress
  Suzanne Carey
  Famlia Fortune 9

Sempre-Lendo, o melhor grupo de troca de livros da Internet!



   Jssica Holmes chegou a Minneapolis em busca de um milagre: salvar a vida de sua querida filha. Para isso, ela contava com a ajuda de um Fortune. Mas somente
o Dr. Stephen Hunter acredita que ela no  uma golpista, e se prope a ajud-la.
   Mas Stephen no imagina que, alm de ajudar Jessica, ter de lutar contra o amor que comea a sentir por ela.


   O Dirio de Kate Fortune

   Meu mundo inteiro est desabando! Justamente quando achei que as coisas iam se acalmar, a repercusso do escndalo mais destruidor. Toda nossa vida  um livro
aberto para o pblico esmiuar. Nossos segredos mais antigos, que pensvamos estar enterrados, vm  tona, um por um. Acabo de descobrir a notcia mais chocante
sobre Ben, meu querido falecido marido. Aparentemente, ele teve um caso amoroso que gerou um herdeiro ilegtimo. Tenho que acreditar que ele tenha tido um bom motivo
para o que fez. Afinal de contas, quando estava desesperada, eu mesma fiz algumas coisas desonestas...


   JESSICA HOLMES: A busca por um doador para salvar a vida de sua filha e a descoberta de sua verdadeira origem, leva Jessica  famlia Fortune e aos braos reconfortantes
de um homem que pode ajud-las.
   STEPHEN HUNTER: Mdico e piedoso, seus ombros fortes so perfeitos para amparar Jessica. Mas, ser ele capaz de deixar de lado o sofrimento de seu passado, para
iniciar nova vida com Jessica e sua filha Annie?
   MNICA MALONE: Ela estava em vias de realizar o sonho de sua vida, de destruir a famlia Fortune, at que foi misteriosamente assassinada. Seria tarde demais
para que a famlia Fortune pudesse parar a roda da vingana que Mnica j havia colocado em movimento?
   GRANT McCLURE: O amor no chega com facilidade para um vaqueiro que prefere seu rancho em Wyoming  cidade grande. Ser que algum dia ele vai encontrar uma mulher
que aceite viver no interior e se adapte a seu modo especial de amar?


   Liz Jones
   A Colunista N 1 das Celebridades

   Ilegtimo! Ora, ora, ora. O que temos aqui? Afinal de contas, parece que o Jake no  filho legtimo de Ben Fortune! Aparentemente a aristocrtica matriarca da
famlia, Kate no foi uma noiva virgem! Ela tinha um caso com outro homem e tentou passar para o mundo que o beb era de Ben. Mnica Malone era uma das poucas pessoas
que conheciam a verdade. Minhas fontes me informaram que Mnica vinha fazendo chantagem com Jake, h bastante tempo, ameaando revelar o escandaloso segredo caso
ele no lhe vendesse grandes lotes de aes da Cosmticos Fortune. Se isto no  motivo para assassinato, ento no sei o que seria! E se Jake no for culpado, ento
porque infringiu as condies de sua fiana? A famlia Fortune est a bordo de um navio que est afundando. Eu no vejo nenhuma chance de permanecer flutuando!





   Captulo 1

   Para alguns, deveria ser um dia de vero ideal, claro e com uma brisa. Perfeito para afastar preocupaes levando seu filho para visitar os lees, chipanzs e
zebras. Mas no era assim que ele se sentia. Enquanto passeava pelos caminhos do Zoolgico Como Park em St. Paul, Minnesota, Stephen Hunter, com seus 36 anos, no
tinha uma criana. Nenhum menino de oito anos, inquisitivo, destemido e afoito.
   A triste verdade  que ele no tinha David. No lugar de seu filho, de cabelos muito claros, que h trs anos sucumbira de uma rara forma de cncer sseo, havia
o sentimento de um vazio no corao.
   Hoje era o aniversrio de falecimento de David. Stephen foi atrado ao zoolgico pela solido, pelas lembranas de dias melhores e pela dor de uma perda que jamais
o deixaria.
   Mdico dedicado do Hospital Geral de Minneapolis especializado no tratamento de leucemia, de outras doenas relacionadas ao sangue e tambm conhecedor de tumores,
no foi capaz de salvar o prprio filho.
   Finalmente, a torrente de fria e impotncia que se seguiu aps o velrio de seu filho levou  separao de Stephen e de sua mulher Brenda Torgilson. Brenda acusou-o
de no estar presente para apoi-la. Aps a morte de David, fechou-se em si mesmo, vivendo somente para seu trabalho, enquanto ela despejou suas lgrimas e insultos
sobre ele.
   Apesar de Stephen, divorciado h quase um ano, lamentar a separao, percebeu que foi o melhor caminho. Suspeitava que ele e Brenda no poderiam olhar nos olhos
um do outro sem ver refletido neles a dor da perda de David.
   De alguma forma, ele precisava recomear. Adquirir controle de si mesmo. Viver de verdade outra vez.
   Ele, Brenda e David tinham vindo ao zoolgico durante a ltima e curta remisso de doena do David. As lembranas daquela tarde foram a razo de sua vinda hoje.
   Quando olhava os gorilas e orangotangos que David sempre amou, Stephen notou uma mulher esbelta e atraente, de cabelos escuros e uma menina loira, em idade de
jardim de infncia, com aparncia um tanto frgil e que juntas visitavam o zoolgico. Seu cabelo curto e naturalmente encaracolado emoldurava sua face, com pequenos
anis. Suas roupas indicavam um bom gosto clssico. No usava aliana de casada. A criana estava um pouco mais agasalhada que as outras.
   Infelizmente, para os olhos experientes de Stephen, a criana no parecia nada bem. Para comear, estava magra demais para sua altura. Seus grandes olhos inchados
- ele no podia ver sua cor devido  distncia que os separava - pareciam excessivamente grandes para sua face.
   Irnico, no ?, pensou ele, sacudindo a cabea. De todos os dias, logo hoje voc veria uma mulher que pudesse lhe interessar. Pela primeira vez desde o funeral
de David, ele imagina como seria bom ter uma famlia outra vez. Ela provavelmente era casada: uma jovem e linda dona de casa, estabelecida em Minneapolis e com um
apaixonado e bem-sucedido marido.
   Na verdade, a mulher sobre a qual ele estava especulando, Jessica Holmes, de 25 anos, uma analista de investimentos britnica, ficara viva h seis meses, durante
processo para obteno do divrcio de seu namorador e prspero marido. Ela e sua filha de cinco anos, Annabel, tinham chegado h apenas dois dias a Minneapolis e
estavam ainda se adaptando  diferena de fuso horrio. Sua visita ao zoolgico no era animada ou alegre, em parte porque Annie, recentemente diagnosticada com
leucemia, estava com o nvel de energia um tanto reduzido e Jess muito preocupada por ela.
   Talvez o zoolgico no tivesse sido boa idia. Afinal, aps o vo transatlntico e um dia agitado, em que com a filha tentava contato sem sucesso, at ento,
com pelo menos um dos membros da famlia Fortune, na Twin City, ela decidira que Annie precisava de um pouco de distrao.
   Eu tenho todo o direito de ter medo, pensou Jess. O tipo de leucemia de Annie  mortal. Ela necessita de um transplante de medula ssea, e sem demora. Se ela
no o receber, vou perd-la.
   Foi  necessidade de combinar medulas sseas que as trouxe a Minneapolis. A melhor esperana de sua filha encontrar um doador era entre seus parentes consangneos.
Infelizmente, elas j haviam esgotado todas as possibilidades dentre os membros da famlia de Jess e do seu falecido marido, um prspero mas descuidado executivo
de um banco, que morreu em um acidente de carro, juntamente com sua mais recente amante, pouco depois de Jess ter iniciado o processo de divrcio.
   Ela no ficou imobilizada pelo medo, inscreveu Annie na lista de espera por medula ssea da Inglaterra e aguardava ansiosa. Quando deparou com uma carta endereada
 sua av entre os pertences de sua recentemente falecida me.
   Escrita s pressas por mo forte e masculina, em papel liso e amarelado, a carta sugeria que Benjamin Fortune, um legendrio empreendedor americano, que havia
lutado com as foras aliadas na Frana durante a Segunda Guerra Mundial, era seu verdadeiro av materno, e no George Simpson, o marido de sua av.
   Isto explicava o motivo de os resultados de alguns dos exames de sangue entre seus familiares serem to dspares, enquanto abriam um mundo totalmente novo de
possibilidades para a salvao de Annie. No havia razo para duvidar de que a carta fosse legtima. Conseguiu uma licena do banco de investimentos em Londres e
carregou Annie para a Amrica, na esperana de que um dos descendentes de Benjamin Fortune pudesse prover a ajuda que ela to desesperadamente buscava.
   At agora, todas as portas que ela tentara abrir permaneciam fechadas.  verdade que aps vrios minutos de apaixonadas alegaes de sua parte a temvel secretria
das Indstrias Fortune, no centro da cidade de Minneapolis, com penteado e maquiagem refinados, havia concordado em entregar a Jacob Fortune, o filho mais velho
de Benjamin e presidente da companhia, quando retornasse  empresa, seu bilhete escrito  mo. Mas Jess duvidava que ele entrasse em contato com ela. Os membros
da famlia Fortune, ao longo dos anos, foram alvos de numerosos golpes que almejavam a riqueza da famlia. Jacob Fortune poderia considerar seu pleito apenas mais
um embuste.
   De alguma forma ela teria que convenc-lo do contrrio. Nenhum dos outros membros da famlia Fortune mostrou ser acessvel. Como ela temia, a maioria tinha nmeros
de telefones no listados.
   Telefonara de seu chal de campo, em Sussex, vrios dias antes de sua partida, por duas vezes conseguira contato com a secretria eletrnica de uma certa Natalie
Fortune. Todavia, no houve retorno, apesar de ter deixado uma mensagem pedindo  desconhecida Natalie que ligasse a cobrar o mais rpido possvel.
   Jess no foi a Minneapolis  toa. Se Jacob Fortune no retornasse sua ligao, acamparia na soleira de sua porta.
   - Zebras, Mame! Zebras! - exclamou ela. Enquanto Stephen Hunter olhava, Annie tropeou e caiu no asfalto, ralando levemente o joelho esquerdo.
   - Voc est bem querida? - perguntou Jess preocupada.
   - Sinto minha cabea quente, mame.
   Observando com mais ateno, o que Jess podia assegurar, os grandes olhos verdes de sua garotinha estavam excepcionalmente brilhantes, como se estivesse com febre.
Quando verificou a testa da Annie com a parte de trs de sua mo, percebeu que estava pegando fogo.
   - Precisamos levar voc de volta ao hotel, imediatamente.
   Ela no havia se dado conta da aproximao do homem alto e loiro.
   - Desculpe-me, meu nome  Stephen e sou mdico. Posso ajudar?
   Ele era alto e magro, com penetrantes olhos azuis. Seu instinto lhe dizia que ele no mentia quando dizia ser mdico.
   - Obrigada, mas no. O machucado no joelho de minha filha no  nada srio. Todavia ela parece ter adquirido um resinado. Decidi desistir do zoolgico por hoje
e retornar ao hotel.
   Seu sotaque revelava que era britnica, em frias nos Estados Unidos. Pelo seu julgamento experiente e geralmente infalvel, a filha dela contrara algo mais
srio.
   Stephen agachou-se para colocar sua mo na testa da criana e sentir seu pescoo. , sem dvida, Stephen pensou. Ela est com as glndulas inchadas e com a garganta
inflamada. Apesar de no poder ter certeza sem um termmetro, estimou a febre da menina em 39 graus.
   Aproveitou para examinar o joelho dela tambm. Tirou do bolso uma bandagem autocolante e de cor viva, que sempre levava pra atender seus pacientes mais jovens,
e antes de levantar-se aplicou-o no joelho machucado da criana.
   - Melhor? - perguntou ele.
   Distrada de sua febre e da dor de seu machucado, pela novidade da bandagem, Annie emitiu um tmido:
   - Acho que sim.
   - Obrigada - disse Jess
   - Sua filha est com as glndulas inchadas e com febre. No seria melhor lev-la a um mdico?
   - Eu a levaria, se tivssemos um aqui nos Estados Unidos. Ns acabamos de chegar da Inglaterra anteontem e o tempo est bem mais frio do que eu esperava. Receio
que o cardig de Annie no seja quente o suficiente...
   Stephen no hesitou.
   - Aqui, tome meu casaco. Voc veio de carro? Jess balanou a cabea afirmativamente.
   - Mostre-me onde est estacionado. Eu a carrego.
   Annie parecia abraar o pescoo do mdico loiro e se aninhar contra seu peito.
   O pai de Annie, Ronald Holmes, passou a maior parte de seu tempo livre, correndo atrs de outras mulheres e dirigindo carros velozes, sob a influncia de drogas.
   Ela e Annie estavam por conta prpria e, de certa forma, sempre estiveram. Graas ao fato de Ronald falecer antes de terminar o processo de divrcio, elas tinham
dinheiro mais que suficiente  disposio para pagar pelo tratamento de Annie. Se pudessem achar um doador de medula...
   Depois de pegar Annie de seus braos e a colocar no carro, Stephen trocou o casaco pelo xale de l que havia deixado no assento.
   - Obrigada por sua ajuda.
   - Onde voc est hospedada? - perguntou Stephen.
   - Estamos no Radisson Plaza no centro da cidade de Minneapolis - admitiu ela, impulsivamente.
   - Voc est perto do Hospital Geral de Minneapolis, que tem uma excelente sala de emergncia, bem como um centro peditrico de primeira linha. Se quiser, poder
levar sua filha para l. O porteiro poder orient-la. Neste meio-tempo, aspirina, muito descanso, lquido e uma toalha fria na testa.
   Jess sentiu-se tentada a perguntar o nome dele e como poderia fazer para entrar em contato. No faria isso.
   Ela agradeceu novamente, abotoou o cinto de segurana de Annie e tomou lugar na direo. Um momento depois se afastava. Parado no estacionamento, Stephen olhava,
enquanto partiam.  pouco provvel que nos encontremos outra vez em uma rea metropolitana desse tamanho, pensou ele, mesmo que permaneam algum tempo, a menos que
leve sua filha at o Hospital Geral de Minneapolis para tratamento.

   No momento em que chegaram ao hotel, Jess subiu com Annie at a sute delas. Deu-lhe uma aspirina infantil, com um pouco de suco de laranja, e colocou-a na cama
com a toalha fria na testa, conforme Stephen havia sugerido.
   - Tente tirar uma soneca.
   Inquieta, Annie agarrou-a.
   - Eu sinto falta do Herkie. Ns no podemos ir para casa?
   Herkie, era o diminutivo para Herkimer, o cachorro scottish terrier de Annie.
   - Eu sei querida, eu sinto falta de Herkie tambm. Mas voc sabe que a prima Amanda est tomando conta dele muito bem. Eu prometo que iremos embora para a Inglaterra
to logo consigamos encontrar algum para lhe dar aquele tratamento especial.
   - Ser que vai realmente me fazer melhorar? - perguntou ela.
   Jess no permitiria a si mesma considerar a possibilidade de derrota.
   - Nova em folha. Tente dormir um pouco, est bem, querida?
   Annie ainda estava acordada quando Jess foi verificar seu estado, meia hora depois. A febre havia retrocedido um pouco, mas ainda no tinha desaparecido. Para
sua surpresa, Annie estava com fome.
   - Podemos pedir cheeseburgers, mame?
   Jess no ficou surpresa quando Annie deu apenas algumas mordidas no sanduche e afastou o prato para o lado.
   Se ela se sentisse melhor pela manh, Jess planejava ir  biblioteca pblica. Na falta de nmeros de telefone, tentava localizar os endereos dos vrios integrantes
da famlia Fortune por outros meios. Beijou a filha, retornou  sala de estar, ligou a televiso e ajustou o volume a um nvel quase audvel.

   Stephen dirigia para sua residncia na costa arborizada do lago Travis, nos subrbios de Minneapolis.
   Algumas pessoas diriam que eu tenho tudo: um diploma de mdico, um carro caro, uma casa moderna com vista do lago, pensou com ironia. Naquela noite ouviu um pouco
de msica, abriu um pacote de lasanha congelada, levou-a ao forno e serviu-se de uma taa de Bardolino. Chelsea e Carter Todd, os filhos de seu vizinho, ainda brincavam
do lado de fora, sob os olhos vigilantes de sua bab sexagenria.

   Na sala de estar de sua sute no hotel do centro da cidade, Jess adormeceu. Acordou logo aps 20 horas. Annie continuava dormindo, e ela decidiu deix-la dormir.
Jess se serviu de um copo de gua mineral e voltou para a sala de estar. O noticirio local estava no ar. Algum passou uma nota para o ncora do noticirio, enquanto
ela retomava seu assento. Aumentou um pouco o som.
   - A ex-atriz principal de Hollywood e antiga residente de Minneapolis, Mnica Malone, foi encontrada morta esta noite em sua manso na Summit Avenue. Levamos
voc at Mary Ann Galvin, nossa reprter que se encontra na cena. Mary Ann...
   - Obrigada, Jay - Ela disse. - De acordo com um porta-voz do Departamento de Polcia de Minneapolis, a Srta. Malone, supostamente com sessenta e poucos anos de
idade, foi encontrada estendida em sua sala de estar, logo aps as 20 horas. Ela foi declarada morta s 20hl5, quando a polcia chegou. "Os policiais se recusaram
a comentar a causa da morte ou especular se alguma violncia havia ocorrido. Todavia, um inquilino, que no quer se identificar, de um dos vizinhos da Srta. Malone,
disse ter ouvido que ela teria sofrido um golpe na cabea..."

   Quando Jess acordou outra vez, por volta de 6:30, Annie estava pior. Sua temperatura subira para 39,5 graus. Ela estava tossindo, tremendo e choramingando. Aterrorizada,
Jess decidiu acatar o conselho do mdico alto e loiro que haviam conhecido no zoolgico e lev-la para a sala de emergncia do Hospital Geral de Minneapolis.
   Enrolou a menina em duas blusas de l e um casaco de chuva e a cobriu com uma das colchas do hotel. Um simptico mensageiro ajudou-a a carregar Annie e a chamar
um txi.
   - Mame... Mame... onde estamos indo?
   - Ns vamos ao hospital que aquele gentil mdico nos falou ontem. Voc precisa de remdios mais eficazes, querida. E tambm de cuidados mdicos para melhorar,
o mais rpido possvel.
   Antes que Jess pudesse sair do txi e pagar ao motorista, uma enfermeira e um ajudante vinham apressadamente a seu encontro.
   - Voc  a Sra. Holmes, certo? - perguntou a enfermeira. - O porteiro de seu hotel nos telefonou informando que estavam a caminho.
   Enquanto a enfermeira examinava Annie, verificando seus sinais vitais, uma das recepcionistas ajudou Jess a preencher o formulrio de admisso. A recepcionista
no pareceu nem um pouco preocupada quanto ao estado de Annie at que Jess escreveu leucemia na rea: Condio Mdica Conhecida. Seguiu-se uma reunio rpida entre
a recepcionista, a enfermeira e um mdico que estava atendendo uma vtima de acidente.
   - E melhor voc chamar a Doutora Todd - decidiu o mdico. - Ela  pediatra. Acho que a vi chegar ainda h pouco.
   Quase que imediatamente o nome da Doutora Lindsay Todd e as palavras "sala de emergncia" estavam sendo anunciados atravs do sistema interno de som do hospital.
   Com cabelos castanhos, doce semblante, com um pouco mais de 35 anos e bem feminina, apesar do jaleco branco e do estetoscpio, a Doutora. Todd era firme, mas
extraordinariamente bondosa e competente, enquanto examinava Annie detalhadamente e crivava Jess de perguntas.
   Depois do exame, a Doutora. Todd acariciou a mo da Annie e virou-se para Jess:
   - Gostaria de realizar alguns exames... contagem de clulas brancas, quantidade de clulas imaturas, esse tipo de coisa - anunciou. - Alis, gostaria que um especialista
o fizesse. Estamos com sorte, o Dr. Hunter est no prdio.
   - Est bem.
   - timo. Vocs duas agentem firme.
   A pedido da Doutora. Todd, o operador de som do hospital chamou o Dr. Hunter, que tinha sido chamado de volta ao hospital por volta das 5h, aps uma noite maldormida,
devido  piora de um paciente idoso. Seus olhos azuis estavam sombreados pelo cansao quando entrou na sala de emergncia.
   - O que posso fazer por voc, Lin? - perguntou.
   A pediatra de cabelos castanhos rapidamente informou-o do que ela sabia: sobre o estado de Annie.
   - A me disse que ela precisa de um transplante de medula ssea.
   - Vamos dar uma olhada nela.
   Um momento depois, com Lindsay Todd seguindo-o de perto, ele estava empurrando, para o lado, a cortina do cubculo da Annie.
   Os olhos de Jess arregalaram-se enquanto o olhava fixamente.
   - Voc! - exclamou, surpresa.


   Captulo 2

   Stephen ficou atnito. Deveria saber que a paciente com leucemia aguda seria a criana febril e loira que havia ralado seu joelho no zoolgico, acompanhada por
sua encantadora me de cabelos escuros. Com uma rpida olhada, examinou a ficha.
   - Ol outra vez, ah, Sra. Holmes... Annabel... - disse ele, estendendo a mo para Jess e tocando de leve o cabelo de Annie, ao assumir seu papel profissional.
Nessas circunstncias, no diria que estou contente em v-la, apesar de estar satisfeito que tenha aceitado meu conselho e vindo para c. Este  um hospital muito
bom. Conheci a Sra. Holmes e Annabel ontem no zoolgico Como Park. Vamos ver como vai esta jovem nesta manh.
   O exame, que inclua muitas perguntas e grande quantidade de apalpao e observao por parte de Stephen, demorou vrios minutos. No foi difcil para ele ver
que Annie estava realmente bastante doente. Ele poderia quase ter adivinhado qual seria a contagem de glbulos brancos. Seus mdicos ingleses tinham sido corretos
ao declarar que ela precisava de um transplante o quanto antes. Infelizmente, seria difcil, quase impossvel, achar um doador.
   - Enquanto procuram, Annabel Holmes possivelmente necessitar de alguma forma de quimioterapia, como medida paliativa. Suponho que no tiveram sorte em encontrar
um doador na Inglaterra para sua filha - perguntou a Jess.
   - Por isso viemos para os Estados Unidos.
   - Tenho que ir ao andar de cima por alguns minutos -disse ele. -Nesse meio-tempo, Sra. Holmes, gostaria que as enfermeiras registrassem sua filha como minha paciente,
com a Doutora Todd como pediatra consultora e intern-la em um quarto. Vou precisar de sua autorizao para fazer alguns exames, para que possamos determinar qual
 seu estado atual, tais como: aspirao da medula ssea e bipsia, raios X, eletrocardiograma, exames de sangue e funo pulmonar, esse tipo de coisa. Entrarei
em contato to logo os resultados dos exames estejam disponveis. Tudo bem? Ela ser inscrita em todas as listas de espera de doadores, nos Estados Unidos.
   A doena da Annie estava rapidamente atingindo ponto critico, como Jess j tinha comeado a sentir. Sua filha morreria ou, se um milagre acontecesse, ela melhoraria.
Com exceo de sua busca por um doador entre os descendentes de Benjamin Fortune, suas perspectivas no eram otimistas.
   - Eu tenho que ficar aqui? - perguntou preocupada Annie. - Eu no posso voltar para o hotel com a mame?
   - Lamento, mas voc ficar no hospital, querida, para cuidarmos melhor de voc - disse Stephen.
   - Bem, ento voc poderia me dar outra daquelas bandagens legais?
   Ele retirou uma bandagem do bolso de seu jaleco branco e fixou-a nas costas da mo dela.
   Um momento depois, aps solicitar os exames que havia descrito, juntamente com um soro e antibitico, para ajudar o sistema imunolgico comprometido de Annie
a combater sua atual infeco, ele partiu. Jess no pde evitar tremer. Lindsay descansou uma das mos em seu ombro.
   - Dr. Hunter  o melhor hematologista das redondezas, e no estou dizendo isto apenas por sermos amigos e vizinhos - afirmou ela. - Sua filha est em boas mos.

   A oeste da cidade, no elegante e suntuoso quarto onde Erica Fortune, ex-esposa de Jacob Fortune, dormia sozinha, o telefone ao lado da cama soou estridente. Eram
7h40, um pouco cedo para que Erica, de 51 anos, estivesse acordada como esposa mimada e infeliz do presidente executivo das Indstrias Fortune e que havia sucedido
sua me viva, aps seu desastre fatal com seu avio de leve porte na selva brasileira.
   Ultimamente, como uma mulher sozinha, Erica, de cabelos liso, loiro prateados, acordava cedo e se vestia para uma aula de sbado s 9h no Normandale Jnior College,
em Bloomington.
   Seus olhos verdes arregalaram-se quando a pessoa que ligava se identificou como tenente J. B. Rosczak, um detetive do Departamento de Polcia de Minneapolis.
   - E da residncia de Jacob Fortune? - perguntou ele. Ela no estava certa de como responder.
   - Sim - concordou, deixando a xcara de caf de lado. - Quero dizer, era, at alguns meses atrs. Aqui  a Senhora Fortune. Jacob Fortune e eu estamos separados.
Afinal, do que se trata?
   - Ento deduzo que ele no est, senhora? - disse ele.
   - No, ele no est - confirmou Erica.
   - Alguma idia onde podemos entrar em contato com ele?
   - Na verdade, desde nossa separao, ele est vivendo na casa que pertencia  sua finada me no lago Travis. - disse ela.
   - J procuramos l - o detetive Rosczak respondeu bruscamente. - Alguma outra idia?
   - Talvez um de nossos filhos saiba. - ela especulou. - Ou a secretria dele, nas Indstrias Fortune. Mas ela no estar no escritrio at segunda-feira. Por favor,
no poderia me dizer o que est acontecendo de errado? Apesar de estarmos separados, ainda me preocupo com ele.
   - Ele  procurado para interrogatrio no caso da morte de Mnica Malone.
   Erica engasgou.
   - Mnica, morta? - repetiu ela, surpresa. - Onde? Quando? Como isso aconteceu? Certamente no foi assassinada!
   - Talvez a senhora deva ligar no noticirio da manh, se deseja este tipo de informao, Senhora Fortune.
   Antes de se despedir, o detetive fez questo de deixar um nmero de telefone.
   - Seria melhor para ele entrar em contato conosco de modo voluntrio - avisou ele.
   Erica estava atordoada quando desligou o telefone. Seu primeiro impulso foi ligar para Natalie de 27 anos. Ela era um dos cinco filhos que teve com Jake. Natalie
vivia em uma antiga casa de campo, que havia sido convertida em um dplex, do outro lado do lago Travis, diretamente em frente  manso que havia pertencido a Ben
e Kate Fortune, e que tambm era a residncia atual de Jake. Ela e seu pai sempre foram ntimos. Talvez soubesse de algo.
   Se Jake estiver em dificuldade com a polcia talvez fosse melhor telefonar primeiro para Stering Foster, o advogado de longo tempo da famlia e respeitado consultor
jurdico, pois ele saber como resolver.
   O advogado tinha acabado de sair do chuveiro. Ainda no havia lido o jornal da manh. Ou tomado caf. Atendeu, enrolado em uma toalha, no terceiro toque.
   - Al?
   - Steriing? - disse ela. - Ol,  a Erica. Lamento incomod-lo em casa, no fim de semana. Mas acabo de receber um telefonema do detetive Rosczak da polcia de
Minneapolis. Mnica Malone morreu e a polcia quer interrogar o Jake sobre isso. Eles no conseguem ach-lo.  possvel que ele esteja em algum tipo de encrenca.
   - Parece que sim.
   - Voc tem contatos no departamento, no tem? Quero que ligue para eles e descubra o que est acontecendo. E ache Jake!
   - Est bem. Farei o que puder.
   Com uma sensao de aperto no peito, rapidamente telefonou para Natalie, para apoio emocional. De sua parte, Steriing comeou a discar para Kate, a espirituosa
matriarca da famlia e que ele sabia estar viva e bem de sade, apesar de sua famlia pensar o contrrio.
   Segundos depois, ele mudou de idia. Ao invs de telefonar, iria at seu esconderijo atual, um apartamento de cobertura no prdio LaSalle, no centro de Minneapolis,
que havia sido reformado.
   Decidiu primeiro dar uma olhada no jornal da manh. Viu que a morte da Mnica sara na parte superior da primeira pgina. Descrita como "ainda sob investigao",
era manchete. Stering ficou sabendo que Mnica fora esfaqueada no peito diversas vezes. Tambm havia sofrido um golpe na tmpora esquerda. Sinais de luta eram evidentes.
Vrios vizinhos de Mnica em Summit Avenue tinham visto um homem deixando a manso dela, logo antes de a empregada chegar e encontrar seu corpo.
   Diabos, pensou Stering, jogando o jornal para o lado. O que estaria Jake fazendo l? Seria tarefa de Sterling dar a notcia a Kate.
   Kate tinha se mudado para evitar que fosse descoberta desde que simulou sua morte. H alguns meses alugara o andar superior do LaSalle, que era dividido em dois
apartamentos de cobertura. O dela, luxuosamente decorado e acarpetado, possua vrias clarabias, uma pequena lareira e uma vista completa da parte oeste de Minneapolis
e subrbios adjacentes.
   Enquanto dava marcha a r para estacionar em uma vaga de esquina e entrava no prdio, Sterling pensava nas estranhas circunstncias que o levou, juntamente com
Kate, a concordar em deixar sua famlia pensar que ela havia morrido. Teriam feito a coisa certa? Ou eram tolos em pensar que seu esquema ajudaria a manter afastado
um possvel raptor ou assassino?
   At agora, tinha sido sem sucesso. Pela milsima vez pensou em quem poderia ter sido o raptor que se escondera clandestinamente no avio da Kate em sua viagem
solo a uma remota vila no Brasil em busca de um ingrediente para sua "Frmula Secreta da Juventude ", que estava tentando desenvolver para Cosmticos Fortune, e
apareceu no meio do vo apontando uma arma para sua cabea. O avio teria entrado em mergulho na luta que se seguiu. Por algum milagre, Kate havia sido expelida
do avio, tendo cado sobre abundante vegetao rasteira, momentos antes do choque e incndio da aeronave.
   Na opinio de Sterling, seu agressor teria sido um assassino contratado, pago por algum inimigo desconhecido. Era lgico supor que ele provavelmente jamais seria
identificado. Seus restos mortais carbonizados foram tomados como sendo de Kate pelas autoridades brasileiras. Kate sofreu uma concusso, mltiplas fraturas e vrios
cortes e ferimentos. Foi encontrada e tratada lentamente at readquirir seu estado de sade normal, por nativos de uma aldeia amaznica.
   Ciente de que algum a desejava morta e que poderia tentar outra vez se descobrisse que falhara, quando finalmente se recuperou o suficiente para viajar, disfarou-se
e com extrema cautela retornou a Minneapolis. Sterling jamais esqueceria a manh em que lhe telefonou, sua voz rouca coberta de medo e ressentimento enquanto sussurrava
ao telefone:
   - Estou viva! No diga a ningum.
   Apesar de ter uma chave, Sterling bateu na porta do apartamento de Kate, ao invs de entrar, como fazia algumas vezes.
   - Sterling, entra! Voc no vai acreditar nisto! - comandou ela, indicando uma cadeira.
   A histria que captou sua ateno foi a mesma que Jessica Holmes havia visto na noite anterior e que Sterling tinha examinado no seu jornal da manh. Contrrio
a Jess, Kate tinha um forte interesse pessoal pelo caso. Recrutada por ela h muitos anos, para agir como porta-voz da Cosmticos Fortune, Mnica pagou o favor mantendo
um caso que rompia e reatava por anos seguidos, com Ben, o marido de Kate. Ou, pelo menos, isto era o que Kate suspeitava. Alm disso, h muito sentia que Mnica
era uma adversria perigosa.
   -  Mnica Malone! Ela foi esfaqueada at a morte. Se Jake estivesse envolvido de alguma forma, ele estaria numa situao muito complicada.
   Kate ainda no havia percebido sua preocupao.
   - Ento, o que voc acha de tudo isto? - perguntou ela. - Voc sabe que eu no sou do tipo vingativa, que no desejaria mal a uma cascavel, a menos que ela estivesse
pronta para me atacar. Mas no posso evitar em pensar que o que aconteceu com a Mnica , pelo menos em parte, sua prpria culpa.
   A boca de Sterling deixou de contrair-se com sua habitual diverso com suas frases criativas.
   - Acho que Jake poder ter sido envolvido nisso de alguma forma - respondeu.
   - Mas do que voc est falando? - perguntou ela alarmada, virando-se para olh-lo fixa e atentamente com seus olhos azuis.
   To sucintamente quanto possvel, descreveu a ligao de Erica.
   - Estou apenas supondo. Mas  concebvel que Jake tenha visitado Mnica ontem  noite e que tenha sido ele que os vizinhos viram deixando a manso, um pouco antes
de o corpo haver sido descoberto. Caso contrrio, por que estaria a polcia procurando por ele?
   As unhas laqueadas e brilhosas de Kate cravaram-se no brao da sua cadeira.
   - Voc no est dizendo que ele a matou, est? - exclamou ela.
   De acordo com o relato de Sterling sobre sua conversa com Erica, Jake no passou a noite na casa do lago Travis, onde passou a residir aps sua separao. Ento,
onde est ele? Teria ele ficado ausente por algum motivo? Kate no queria acreditar. O Jake que ela conhecia no seria capaz de machucar ningum.
   - Poderia haver muitos motivos diferentes para a polcia querer falar com ele - disse, protegendo-o.
   - Me d um motivo.
   - Eu no sei, negcios recentes, talvez. Ele vendeu aquelas aes para ela, lembra-se? Deus sabe quais foram seus motivos. Sem dvida, houve reunies e telefonemas.
   Sterling sacudiu a cabea.
   - No acredito nisto. Isto me parece encrenca, e das boas.
   Kate pensava o mesmo. Seus instintos aguados, ela estava de p e andando.
   - Que aquela mulher v para o inferno, mesmo que provavelmente j esteja a caminho! - explodiu ela. - Ela cravou seu anzol no Ben por anos. Agora, como seu canto
de cisne, vai destruir meu filho mais velho.
   Da perspectiva de Sterling, era incompreensvel que Ben tenha preferido Mnica a Kate. Independente de sua origem humilde, Kate era uma puro-sangue genuna. E
ainda cheia de fogo.
   - O que voc quer que eu faa? - perguntou ele.
   Ela queria que ele protegesse Jake. Interferir junto  polcia a favor dele. Evitar que ele pudesse fazer algo errado. Apesar de amar seu filho, conhecia suas
fraquezas. Se ele souber que est sendo procurado pelas autoridades, poder entrar em pnico. Por outro lado, no poderia entrar em contato com ela em busca de apoio,
j que no sabia que ela estava viva. E ele era orgulhoso demais para Erica. Mas talvez entrasse em contato com Sterling, caso se visse numa situao difcil. Talvez
at j tenha tentado.
   - Meu querido amigo, por favor, v para casa e espere que ele ligue para voc - implorou ela. - Mantenha a linha desocupada, para o caso dele tentar ligar. Informe-me,
quando souber dele.
   Meio mal-humorado, porque havia programado tomar o caf da manh com ela, Sterling levantou-se.
   - Como sempre, estou a seu servio.
   - Se ele ligar, voc ir com ele at a polcia.
   - claro.
   Apesar de duvidar de que ela tornaria isto um hbito, Kate o surpreendeu com um repentino e espontneo abrao, antes de conduzi-lo at a porta.

   Jake acordou em um velho motel, com um gosto amargo na boca. Havia bebido excessivamente na noite anterior. Seu estmago estava pssimo e sua cabea latejando.
Gemendo, fechou os olhos enquanto os detalhes daquilo de que esteve fugindo invadiu sua memria. A discusso com Mnica. O avano dela sobre ele, com o abridor de
cartas. Ele empurrando-a para longe e sua queda contra a lareira de mrmore...
   Como um idiota desesperado, tinha ido  sua casa para confront-la, a respeito do modo como vinha fazendo chantagem com ele, ameaando revelar para o mundo que
seu pai tinha sido um pobre soldado da infantaria, que morrera na Segunda Guerra Mundial, e no o ilustre Benjamin Fortune que se fez por si mesmo e casou-se com
sua me.
   Era uma notcia que seu meio irmo Nate, sedento de poder, ficaria enaltecido ao ouvir, e Jake estava determinado, a qualquer custo, a no permitir que ele soubesse.
Ele deveria saber que Mnica recusaria vender de volta as aes que lhe havia vendido sob ameaa, ou prometer manter seu segredo e at mesmo tentar algo louco, como
mat-lo ou feri-lo.
   Devido s maquinaes invejosas e loucas de Mnica, ele quase destruiu a empresa que sua famlia levou meio sculo para construir, e perdeu grande parte do respeito
que tivera por si mesmo. Agora ela estava morta, um corpo encontrado emborcado no piso da sala de estar, de acordo com o noticirio que ouvira na noite anterior,
antes de sair de repente, ontem  noite, da casa que fora de seus pais no lago Travis.
   Eu no a matei! Eu sei que no! Ela estava viva quando sa. Ela havia recobrado a conscincia e eu a havia ajudado a ir para o sof. Suponho que deveria ter ficado
l. Telefonado pedindo ajuda e esperado at que um mdico chegasse. Mas ela no parecia ter se ferido tanto. Ela estava gritando e me xingando, ameaando vir para
cima de mim outra vez e eu queria sair de l o mais rpido possvel. Quem a matou ento? Jake no fazia idia, tampouco se algum o havia visto sair da casa. Se
a sada tivesse sido observada, ele poderia no ter sido reconhecido. Ainda assim, suas impresses digitais estaro em toda a cena. Supunha que seu sangue tambm,
pois teria pingado do ferimento no ombro. E ainda, ela o arranhara. Amostras de sua pele seriam encontradas sob suas unhas. Seu DNA estaria por toda parte. Se ele
tiver sido reconhecido por algum, a polcia estaria procurando por ele.
   Paralisado pelo medo, sentiu um bolo no estmago, como uma refeio no digerida, e levantou-se da cama, tardiamente, em direo ao banheiro. Ainda usava as roupas
que trajara na noite anterior - felizmente, eram as calas e o pulver que tinha vestido depois do banho que tomou, aps insistncia de sua filha Natalie, e no
a camisa rasgada e ensangentada e a cala manchada que enfiou num cesto do banheiro do andar superior. Infelizmente, seu hlito ainda cheirava a usque. E ele estava
sem pasta de dentes.
   Sacudiu a cabea. O que teria Natalie pensado quando atravessou o lago e o descobriu ferido, bbado e balbuciando? Agora que ele havia desaparecido, ela deveria
estar enlouquecida de tanta preocupao. De alguma forma, teria que tranqiliz-la.
   Nesse meio-tempo, precisava se concentrar em como sair da enrascada em que se metera. A primeira coisa  que no sabia exatamente onde estava. S sabia que, aps
ter descoberto a morte de Mnica, tinha sado pela estrada e dirigido por horas, parando finalmente em um velho hotel, em algum lugar no interior do norte de Wisconsin.
   Um rpido exame da ficha de controle do hotel revelava que havia passado a noite no Hearfs Desire Motel em Round Lake, perto da cidade de Hayward. Ocorreu-lhe
que sob as atuais circunstncias um vo interestadual no iria ser visto com bons olhos. Ele poderia precisar de representao jurdica.
   Apesar de parecerem anos, desde quando correu da casa de Mnica e saiu em disparada com seu carro, menos de 24 horas haviam se passado. Era sbado. No era provvel
que Sterling Forster estivesse em seu escritrio. Puxando pela memria, Jake conseguiu lembrar o nmero de sua residncia e com seus dedos trmulos discou-os.
   Sterling retornou para casa depois de deixar o apartamento de Kate... Mas no ficou l, conforme havia planejado. Ao invs disso, uma chamada preocupada de Natalie
o levou at sua residncia, em frente  Manso dos Fortune, do outro lado do lago Travis. Ela tinha coisas para revelar sobre o envolvimento de Jake com Mnica na
noite anterior - coisas que no poderiam ser ditas pelo telefone.
   Chateado por ter que se ausentar, uma vez que Kate havia pedido que ficasse em casa e disponvel para uma ligao de Jake, quando ouviu a histria de Natalie
sobre uma discusso entre Jake e Mnica possivelmente sobre chantagem, a queda de Mnica e a afirmao de que Jake havia machucado o ombro... rapidamente decidiu
que sua viagem tinha valido a pena. De acordo com a informao dela, a estrela de idade avanada estava viva e pronta para continuar a discusso, quando Jake deixou
a casa. Quanto a seus comentrios sobre chantagem, Jake no tinha sido especfico. De fato, tinha evitado falar sobre isso.
   Sua alegao, de que Mnica estava viva quando saiu, aliviou somente um pouco a preocupao do advogado. Kate tambm achou, quando ele lhe relatou os fatos ao
retornaro seu apartamento pouco antes das 1 lh da manh. Quando seu telefone tocou, apenas alguns segundos aps sua conversa, ele atendeu no primeiro toque.
   - At que fim! - exclamou ele em resposta  tentativa de Jake de pronunciar seu nome. - Onde diabos est voc? A morte de Mnica Malone est em todos os jornais
e televiso. A polcia de Minneapolis est procurando voc para interrogatrio.
   Perdendo a esperana de que outra pessoa tivesse sido presa e acusada do assassinato de Mnica, Jake disse a Sterling onde estava.
   - Voc tem que acreditar em mim... apesar de termos discutido, eu no matei Mnica - lamentou ele, como uma criana arrependida. Ela estava viva quando sa. Mesmo
assim, se a polcia est me procurando, suponho que estou em grandes apuros. Vou precisar de sua ajuda.
   Sterling calculou que o motel onde Jake passara a noite estava a aproximadamente duas horas e meia de distncia de Minneapolis. Um retorno no anunciado e desacompanhado
no seria uma medida sbia. Era perfeitamente possvel que a polcia tivesse alertado toda a fora policial de Minneapolis, bem como dos estados vizinhos, para ficarem
atentos e na espreita. Se fosse preso, no caminho de volta ou mesmo detido para interrogatrio, poderia at alegar que tinha planejado se entregar, no acreditariam
nele.
   Na opinio de Sterling, a melhor estratgia seria ir at Wisconsin e trazer Jake de volta, aps haver notificado as autoridades de que o presidente das Indstrias
Fortune compareceria voluntariamente  central de polcia, naquela noite, para responder a todas as perguntas. Desta forma, ele teria oportunidade de ouvir toda
a histria da boca de Jake - fazer quaisquer perguntas que achasse necessrio e ajud-lo a definir a verso oficial -, antes do interrogatrio dos detetives.
   - Pelo amor de Deus - rogou Jake - diga alguma coisa. Diga-me o que fazer.
   Sterling foi enrgico.
   - No saia! - ordenou ele. - Espere a por mim. No fale com ningum. Quando eu chegar em Hayward, telefonarei para a polcia avisando que estamos a caminho e
que voc responder a todas as perguntas de bom grado. H um jovem no prdio onde moro que pode me acompanhar e trazer seu carro de volta.
   Preocupado, por medo de ser acusado de um crime que no havia cometido, Jake rapidamente concordou em fazer qualquer coisa que o advogado sugerisse. Desligando,
Sterling tomou flego e ligou para Kate. Quando ela atendeu, disse sem prembulo: - Seu filho acabou de ligar. Ele est em Wisconsin. Estou indo para l, para traz-lo
de volta. A meu conselho, ir se submeter a interrogatrio, voluntariamente. Naturalmente, estarei a seu lado.
   Houve um breve silncio do lado de Kate.
   - Voc acha que ele ser preso? - perguntou ela,
   - Penso que no - opinou. - E claro que saberei melhor depois de conversar com ele pessoalmente.
   Era o melhor que poderia dizer a ela naquele momento.
   - Sterling, obrigada! - sussurrou ela. - Sem voc, a famlia se desintegraria. Enquanto eu... - Tempo era essencial, e ela no terminou o pensamento.
   - Voc pode ligar para Erica antes de ir, para que ela no fique preocupada demais? - Mudou de assunto. - Ela pode entrar em contato com as crianas.

   No hospital, enquanto aguardava os resultados dos primeiros exames de Annie retornar do laboratrio, Jess tinha permanecido ao lado da cama da sua filha, pensando
desesperadamente na maneira de entrar em contato com a famlia Fortune. Uma enfermeira entrou no quarto por volta de 13h e notou que Annie estava dormindo.
   - A senhora esteve aqui o dia todo desde cedo, sem descanso e sem nada para comer, Sra. Holmes - disse ela. - No vai ajudar sua filha se ficar doente tambm.
Ns ficaremos de olho nela e o Dr. Hunter entrar em contato quando os testes chegarem do laboratrio. Por que no vai l embaixo no refeitrio comer algo?
   Se eles tivessem sucesso, a recuperao de Annie levaria meses. Reconhecendo estar faminta, Jess decidiu aceitar a sugesto. Estava sentado no refeitrio iluminado
do primeiro andar, comendo um sanduche de salada de atum e bebendo uma xcara de ch, quando Stephen sentou no assento  sua frente.
   - Algo errado? - perguntou ela. - O pnico que habitara seus pensamentos estava espelhado em seu olhar.
   Ela era to encantadora. To sozinha em Minneapolis. Tinha que se controlar para no alcan-la do outro lado da mesa e afagar seu ombro.
   - Nada que j no esperssemos - replicou ele.
   - Ento, os resultados chegaram.
   - Alguns deles. O suficiente para saber que a contagem de glbulos brancos de Annie esto severamente fora de padro, com um grande nmero de clulas imaturas
e ineficazes circulando em seu fluxo sangneo. Ela vai precisar de um transplante em breve, para corrigir a situao. Como medida temporria, at que possamos encontrar
um doador, gostaria de prescrever uma forma branda de quimioterapia. Vai faz-la se sentir razoavelmente doente por alguns dias. Mas depois ter uma breve melhora.
   Jess j tinha lidado com o problema o suficiente para saber que no havia outra escolha. Relutantemente, porque qualquer coisa calculada para fazer Annie se sentir
doente era como um punhal em seu corao, deu sua permisso.
   - Pedi  enfermeira do meu consultrio que registrasse Annabel com todas as fontes conhecidas de medula ssea, incluindo uma da Austrlia, que anteriormente nos
fornecera vrios doadores. Vai levar algumas semanas, talvez mais, para descobrir se existe um disponvel que combine.
   - E se no houver?
   - Sua filha no  uma boa candidata para doao autgena, que  o processo em que uma poro da medula ssea do prprio paciente  extrada, so removidas as
clulas cancerosas,  reimplantada a poro depois que o cncer restante  eliminado com quimioterapia - disse ele, seu olhar fixo e resoluto, mas profundamente
solidrio.
   - Suponho que poderamos tentar, se tudo mais falhar. Mas seria de alto risco.
   Jess no respondeu. Os mdicos de Annie na Inglaterra tambm tinham veementemente desaconselhado o uso desse procedimento no caso dela.
   - Voc se incomoda de me dizer o que lhe traz a Minneapolis? - perguntou, mudando de assunto.
   Ela sups que deveria, afinal de contas, descrever sua possvel conexo com a famlia Fortune, apesar de no ter sido provada ainda.
   - Quando os poucos familiares que tenho foram examinados como possveis doadores para Annie - disse ela -, os do lado de meu av materno resultaram to dspares
da marca que os mdicos acharam estranho. Pouco tempo depois, enquanto mexia em algumas coisas que pertenceram  minha falecida me, uma carta antiga caiu, do interior
de um livro, que ela lia para mim quando criana. Para minha surpresa, sugeria que meu verdadeiro av materno no era um homem chamado George Simpson, como sempre
acreditei, mas sim Benjamin Fortune...
   Ela podia dizer, pela expresso de Stephen, que ele fora apanhado desprevenido e estava completamente descrente. Sem dvida, ele est convencido de que sou, no
mnimo, uma oportunista.
   - Tenho a carta aqui mesmo na minha bolsa. Ficarei contente em mostr-la para voc.
   Silenciosamente, pegou a carta e entregou a ele.
   Do que Stephen pde entender, a carta parecia ser verdadeira. Era perfeitamente possvel que a encantadora inglesa de cabelos escuros, sentada ali na frente dele,
fosse uma parente esquecida da famlia Fortune. O mdico existente nele vislumbrou novas possibilidades para sua paciente.
   - Durante o curto espao de tempo que estamos aqui, fiz tudo que pude para entrar em contato com algum que tivesse alguma conexo com a famlia, mas sem resultado
-continuou Jess, quando ele nada falou. - Todos parecem ter seus nmeros de telefone fora da lista. A secretria de Jacob Fortune prometeu que meu recado seria entregue
a ele. Mas vou esperar sentada.
   Ento, Stephen olhou firme e de modo inquisitivo para ela.
   - Suponho que voc no sabia que a Doutora. Todd, a nova pediatra de sua filha,  membro da famlia Fortune - comentou ele. - Por acaso, ela  filha de Benjamin
Fortune -continuou ele. - Claro que voc no teria adivinhado pelo nome. Ela usou o nome Lindsay Fortune-Todd por algum tempo aps o casamento com Frank Todd, outro
de nossos mdicos aqui, e depois simplesmente abandonou o nome de famlia...
   Para Jess, era como se uma porta repentinamente tivesse sido aberta, com inmeras possibilidades. Repentinamente, suas bochechas tornaram-se coradas. Com sbita
excitao, deu um pulo e ficou de p.
   - Claro que se souber da conexo, a Doutora. Todd vai nos j ajudar! - exclamou ela.
   - No to rpido - alertou Stephen, levantando-se tambm. - Lindsay e os demais membros da famlia Fortune perderam a me, Kate, em um desastre de avio no ano
passado, ela era a ltima sobrevivente da gerao de seus pais. Uma excelente presa para caadores de fortunas em potencial, o dinheiro herdado era a melhor parte,
oportuno para lucros. Pelo menos uma jovem mulher, que a maioria considera uma impostora, apareceu pleiteando uma parte, alegando ser irm gmea de Lindsay, desaparecida
h muito tempo e que foi raptada aps seu nascimento.
   - Mas, mas, eu no quero dinheiro - protestou Jess. - Eu quero...
   Tomando suas mos nas dele, Stephen causou pequenos arrepios em seus braos.
   - Tenha calma, acredito em voc - disse ele. - Lindsay e eu somos amigos, bem como colegas e vizinhos de porta. Ela confia em mim. Por que voc no deixa que
eu fale com ela?
   Jess queria abra-lo.
   - Oh, Doutor Hunter... faria isso? - perguntou ela.
   - Chame-me de Stephen - disse ele.- Graas a Annabel, ou Annie, como. voc a chama, vamos nos encontrar bastante. Venha, vamos l em cima ver como ela est indo.
   De to plida, dormindo sob as cobertas do hospital, Annie parecia uma pequenina fantasma. Perdendo o controle, Jess chorou baixinho, enquanto olhava para sua
filha.
   - Estou to preocupada com ela - confidenciou. -  tudo que tenho. No quero perd-la.
   Stephen sabia muito bem como ela se sentia. Um momento depois, ele a havia tomado em seus braos. Suas lgrimas banhavam seu jaleco. Um ato que no tinha sido
planejado e cuja inteno era de confort-la, ou assim ele dizia para si mesmo.
   Para Jess, seus braos ofereciam um santo e confiante abrigo, incrivelmente acalentador. Ela queria recostar-se nele. Fundir-se a ele. Aninhar-se no calor de
seu pescoo. Apesar de seu medo e preocupao com Annie, ela reconheceu que era um chamado para despertar a solitria e amvel mulher dentro dela - uma mulher que
havia construdo uma fortaleza em volta de seu corao quando soube da infidelidade de seu finado marido.
   Enquanto seu abrao durava, Stephen viu que no confiava em si mesmo para falar ou se mexer. Por alguma alquimia, que ele julgava h muito extinta, estava abraando
uma mulher que enchia seus braos, que, com seu bvio refinamento e grande capacidade de amar, poderia ser capaz de preencher seu corao tambm.
   Um momento depois, afastava-se dela. Afinal de contas era o hematologista de sua filha. tica profissional proibia que ele se envolvesse com ela, mesmo que seu
histrico anterior como confortador de mulheres, em vias de perder uma criana, no o impedisse.
   - Hummm... Sra. Holmes, acho melhor eu ir andando - disse ele sem jeito, quando ela manteve silncio. - Teremos oportunidade de nos falar outra vez amanh. Tente
descansar um pouco.
   Ela estava ciente de que o contato fsico o havia encabulado. Enquanto sua reao tinha sido bastante diferente, ela esperava que no viesse a interferir com
seus cuidados com Annie. Ou lev-lo a esquecer de falar, a seu favor, com Lindsay Todd.

   Retornando  residncia para enfrentar uma casa vazia e o restante de uma solitria e sem sentido tarde de sbado, Stephen se viu entrando no quarto de David.
Por impulso, abriu a caixa de brinquedos e pegou alguns jogos completos de caubis, ndios e cavalos, com os quais seu filho adorava brincar. Como sentia saudade!
   Alm de trazer para casa a crueldade impessoal da doena, de um modo muito particular para ele, a morte de David tambm lhe ensinara alguma coisa sobre seu estado
de prontido, para um relacionamento homem-mulher, especificamente um que tivesse que sobreviver a uma crise emocional.  medida que lidavam com o golpe arrasador
do cncer de David e com sua morte, ele e Brenda falharam um com o outro.
   O que voc est fazendo? No podia nem cogitar em pensar em Jessica Holmes.


   Captulo 3

   Sterling e seu acompanhante de 22 anos de idade, filho de um vizinho de confiana, chegaram ao Hearfs Desire Motel pouco depois das 15h. Enquanto o jovem aguardava
no Lincoln de Sterling, o advogado bateu na porta do quarto de Jake e pegou as chaves de seu Porsche. Uma olhada foi o suficiente, para avaliar o estado fsico e
emocional do presidente executivo das Indstrias Fortune. Duro e experiente guerreiro dos tribunais, deu-lhe d no corao ver o filho com aparncia aristocrata
de Kate to abatido pela situao srdida em que se encontrava.
   Demonstrar compaixo no vai ajud-lo em nada, pensou ele. Voltou e instruiu seu assistente a dirigir o carro esporte de volta a Minneapolis e estacionar na vaga
de visitantes de seu condomnio. Entregando-lhe as chaves, ele deu ao jovem uma nota de 100 dlares.
   - Deixe as chaves na minha caixa de correio - disse ele. -Se for parado, voc est levando o Porsche para Minneapolis como um favor a um amigo.  tudo que voc
sabe. Chame-me no celular se a polcia lhe der trabalho.
   Escolhido por sua discrio e falta de curiosidade sobre a vida das outras pessoas, o jovem embolsou o dinheiro.
   - Deixa comigo, Sr. Forster. - disse ele com seu tpico ar despreocupado.
   Enquanto se afastava, forando um pouco o motor do Porsche, Sterling voltou-se para Jake.
   - Muito bem - disse ele, sentando-se. - Conte-me desde o comeo. Diga-me tudo que aconteceu ontem  noite. Tudo mesmo.
   Ainda se sentindo pssimo e muito cansado, mas com o raciocnio mais coerente, Jake admitiu ter ido  casa de Mnica e discutido com ela, sobre aes da empresa
que gostaria de comprar de volta.
   - Eu estava disposto a pagar um gio por elas - disse ele, com amargura permeando sua voz. - Ela recusou, usando a linguagem mais baixa que eu j tinha ouvido.
Repentinamente, avanou sobre mim com um abridor de cartas e conseguiu me atingir no ombro. Quando me defendi, forando-a a larg-lo, ela me arranhou com as unhas.
Na verdade eu no a tinha empurrado at ela pegar o abridor outra vez e tentou me apunhalar de novo.
   "Naquele momento... bem, eu a empurrei. Considerei que minha vida estava em perigo. Acho que no conhecia minha prpria fora porque ela caiu de costas, batendo
com a cabea naquela estpida lareira de mrmore, aquela com os cupidos esculpidos nus e danando. Ela desmaiou, mas se recuperou bem rpido, e eu a ajudei a se
sentar no sof. Quando que se recuperou, comeou a ficar esquentada outra vez. Fiquei com receio de que avanasse para cima de mim novamente, e eu j estava cheio
daquilo. Sa dirigindo para casa, no lago Travis."
   - Tinha mais algum na casa?
   Jake passou os dedos por seus cabelos grisalhos.
   - No que eu saiba.
   - Ela esperava por algum?
   - Se esperava, no me falou.
   Um momento de silncio se passou, enquanto Sterling o observava com olhar fixo e penetrante. Se Mnica estivesse fazendo chantagem com ele, como parecia sugerir
a conversa que teve com Natalie, ele precisava saber. Decidiu no colocar a pergunta diretamente.
   - Afinal, por que voc lhe vendeu aes? - perguntou ele. De alguma forma, Jake sabia que o advogado acabaria por fazer a pergunta. Ele no foi o primeiro. Nate
o havia interrogado tambm, sobre as aes, assim como diversos diretores das Indstrias Fortune. Todos perceberam que Mnica vinha acumulando uma significativa
quantidade de aes, fato que resultaria em srias conseqncias para a empresa.
   Ele no podia permitir que a verdadeira razo viesse  tona.
   - Eu precisaria de dinheiro, caso minha separao de Erica resultasse em divrcio - mentiu ele.
   Sterling, com seu estilo duro, fez cara feia.
   - Conta outra. Eu quero a verdade. Habitualmente com postura ereta, Jake parecia afundar
   no colcho.
   - Qualquer coisa que eu lhe contar  confidencial, certo? - perguntou depois de um momento. - Privilgio advogado-cliente?
   O advogado concordou balanando a cabea.
   - Ento est bem. H vrios meses, Mnica me informou que no sou filho de Ben Fortune. Segundo ela, meu pai verdadeiro foi algum pobreto e soldado de infantaria
chamado Joe Stover, que morreu na Segunda Guerra Mundial, estraalhado por uma bomba. Ela ameaou contar para o mundo a respeito de meu parentesco, se eu no cooperasse.
   Isto no era nenhuma tentativa boba de simulao por parte de Jake, mas sim a pura verdade. Seu sofrimento e pesar eram mais que evidentes. O advogado reconhecia
que, se a alegao de Mnica fosse verdadeira, as implicaes na luta de Jake contra Nate, sobre o controle da empresa, seria grande. Alm disso, dava a Jake um
excelente motivo para matar Mnica.
   - Suponho que voc acreditou nela - disse ele. Jake olhou para suas mos.
   - No completamente - disse ele. - Pelo menos, no de incio. O nome de papai est em minha certido de nascimento. Ainda assim, sempre tive minhas desconfianas
de que eu tinha um tratamento diferente ao dado a meus irmos. No estou dizendo que ele no me amava. Mas, comparado ao modo como era com Nate, Lindsay e Rebecca,
nunca fomos realmente ntimos.
   Por anos Sterling se considerava o mais ntimo confidente de Kate. Mesmo assim, ela nunca mencionou uma palavra de algo assim, para ele.
   - Eu suponho que a velha prostituta lhe tenha oferecido algum tipo de prova - disse ele com um pouco de raiva.
   - Ela contratou um investigador, colecionou um monte de declaraes juramentadas, de pessoas que conheciam mame da poca em que ela era apenas uma garonete
adolescente. De acordo com eles, ela j estava grvida de Stover quando papai apareceu em cena.
   - Voc viu as declaraes juramentadas? Jake balanou a cabea afirmativamente.
   - Elas pareciam genunas.
   - Onde esto agora?
   - Eu no sei. Mnica alegou que depois que me mostrou, guardou em um cofre bancrio.
   O advogado estremeceu. Era bem provvel que as declaraes - genunas ou no - seriam encontradas pelos detetives que estavam investigando a morte de Mnica.
O filho dela, Brandon, absorto, aspirante a ator e de vez em quando mensageiro de sua me, tornar-se-ia seu novo proprietrio. Mesmo que ele escolhesse no divulg-las,
se tornariam parte da documentao pblica, se Jake viesse a ser julgado como seu assassino.
   De alguma forma, Sterling teria que evitar que isso acontecesse. Caso contrrio, Kate sofreria terrivelmente e a famlia seria abalada em seus alicerces. Deixando
de lado a bomba de Jake por um momento, ele se concentrou em um outro aspecto do problema, que o perturbava.
   - Do modo como voc descreveu o desenrolar dos acontecimentos, suas impresses digitais devem estar por toda a sala de estar de Mnica - disse ele. - Seu DNA
tambm, na forma de gotas de sangue e nas unhas que lhe arranharam. Mas, pense cuidadosamente, voc tocou no abridor de cartas com o qual ela o apunhalou?  possvel
que tenha sido a arma do crime.
   Com expresso de esforo e seus olhos castanhos focados em um ponto do espao, logo aps no ombro esquerdo de Sterling, Jake tentou relembrar os detalhes da aterrorizante
experincia que teve na noite anterior.
   - Eu acho que sim - finalmente disse. - Devo t-lo tocado em algum momento, quando tentava tir-lo da mo dela.
   Jake estava em apuros at o pescoo.  verdade que no havia testemunha de que ele houvesse matado Mnica, porque a simples verdade  que no tinha. Porm, havia
mais que simples evidncias fsicas contra ele. Se a
   polcia e a promotoria pblica se fixassem sobre ele e no se esforassem em procurar o verdadeiro assassino, ele poderia, no final, vir a ser condenado pelo
assassinato de Mnica.
   Ele precisaria de um advogado criminalista de primeira ordem - preferivelmente, um time deles. Tendo passado toda sua vida praticando advocacia de famlia e empresarial,
Sterling no estava qualificado para agir em sua defesa. Mas faria o melhor que pudesse para ajudar. Franzindo a testa, pesou os prs e contras de envolver outra
pessoa imediatamente e decidiu contra. Jake compareceria  polcia como um pilar da comunidade, que tinha sido vtima de Mnica e a deixara se recuperando de seus
excessos - um homem inocente, disposto a dizer s autoridades tudo que sabia e que estava acompanhado de seu advogado como apoio moral.
   Era hora de chamar a polcia. Antes de pegar o telefone, Sterling definiu alguns parmetros para Jake. O executivo das Indstrias Fortune deveria repetir sua
histria para a polcia exatamente como a descrevera para ele, - -  parte da chantagem tambm?, perguntou Jake relutante. - Se ficarem sabendo que no sou filho
de Ben, Nate vai entrar com processo para me deserdar.
   Sterling estava dividido sobre esse assunto. Havia sempre a esperana de que a histria no vazasse at que o verdadeiro assassino fosse encontrado. Mas essa
possibilidade era muito remota. Alm disso, havia evidncias fsicas de que Jake e Mnica lutaram. Para isso, tinha que ter tido um motivo. Se Jake no oferecesse
um motivo, a histria no seria consistente.
   O advogado desejava ardentemente que se pudesse consultar, sobre este ponto crucial, o futuro advogado criminalista ainda a ser escolhido. Mas no tinha que ser.
Com sua caracterstica firmeza, chegou a uma deciso.
   - Voc vai ter que contar - disse ele. - Se no o fizer, sua histria no vai fazer sentido. De qualquer forma, vir  tona. Quanto a Nae, no h como ele realizar
essa proeza. Voc  filho de Kate, independente de quem era seu pai. E voc herdou de Kate e no de seu pai.
   Ao invs de entrar em contato com o detetive Rosczac e trabalhar de baixo para cima, Sterling foi direto ao topo. Nels Peterson, o comissrio de polcia de Minneapolis,
por acaso seu amigo pessoal.
   - Sei que seus subordinados querem conversar com um de meus clientes, Jake Fortune, o presidente das Indstrias Fortune, em conexo com a morte de Mnica Malone
- disse objetivamente quando o comissrio Petersen entrou na linha. - O Sr. Fortune admite que visitou a Srta. Malone ontem  noite. Apesar de no ter nada a ver
com seu falecimento, ele reconhece que os detalhes de seu encontro com ela podem ser de ajuda...
   Jake estava visivelmente impaciente enquanto Sterling ouvia a resposta do comissrio. O advogado no se preocupou em esclarecer-lhe.
   - Ele no est na cidade no momento, mas estar de volta em torno da hora do jantar - disse afinal. - Est bem se nos encontrarmos com voc e os detetives que
esto trabalhando no caso, na Central do Governo por volta de 19h30? Confio que voc estar l pessoalmente.
   Era um grande favor a ser pedido para um sbado  noite quando, sem dvida, o comissrio Petersen tinha outros planos. Mesmo assim o homem concordou. Agora, pensou
Sterling, tudo que tenho que fazer  levar Jake de volta a Minneapolis, providenciar para que tome um banho, faa a barba, tenha uma refeio quente e ajud-lo com
a exposio de sua histria. s vezes, refletiu, advogar era bem parecido com ser bab.
   O encontro de Jake com a polcia naquela noite, na Central do Governo, no condado de Hennepin, correu dentro das expectativas. Com Sterling e o comissrio Petersen
presentes, o detetive Rosczak e seu parceiro, detetive Harbing, no tentaram armar qualquer armadilha. Mesmo assim foram duros, desconfiados e persistentes. Para
Jake, pareceu que repassaram cada ponto de sua histria 100 vezes. Apesar de ambos os detetives parecerem surpresos, at mesmo confusos, pelo fato de Jake ter admitido
que Mnica Malone havia feito chantagem com ele, nenhum deles pareceu acreditar em sua verso do que havia ocorrido.
   Finalmente, Sterling pediu para parar.
   - Ns estamos dando voltas no mesmo terreno pelos ltimos 45 minutos - observou. - Ou acusem o Sr. Fortune ou deixem-no ir.
   Apesar da expresso alarmada de Jake  sugesto, o advogado sabia que resultados conclusivos do laboratrio, deste caso, ainda no poderiam estar disponveis.
Por enquanto, a polcia no tinha evidncias suficientes para fazer algo desse tipo.
   Relutantemente, concordaram em encerrar a sesso. Todavia, pediram que Jake retornasse na manh seguinte Para falar com eles outra vez.
   Sterling discordou.
   - Estamos no fim de semana, pelo amor de Deus. Vocs ouviram o que meu cliente tinha para dizer... repetidamente.
   - Ele est dizendo a verdade, e na minha opinio, ele tem sido extremamente franco e paciente. Segunda-feira pela manh deve ser cedo o suficiente. Os detetives
se entreolharam.
   - Que seja segunda pela manh - concordou o detetive Rosczak.
   - Estvamos pensando se naquela ocasio o Sr. Fortune concordaria em participar de uma linha de identificao.
   Era o tipo de coisa dos shows policiais da televiso, e Jake olhou para Sterling com olhos arregalados.
   - No vejo razo para nada desse tipo - o advogado disse calmamente. - Apesar de no t-la matado, meu cliente admitiu haver visitado a Srta. Malone ontem  noite.
Sendo este o caso, no ser muita surpresa se algum o tivesse visto saindo da propriedade.
   O detetive Harbing tinha feito o papel do "bom tira" durante os procedimentos.
   - Ns gostaramos de estabelecer o horrio que ele saiu, s isso - disse de forma no ameaadora.
   Apesar de haver recusado o pedido do detetive, Sterling pareceu ter deixado a porta um pouco aberta. Pouco tempo depois, aps haver levado Jake at a garagem
de seu condomnio, para que o presidente executivo da Fortune pudesse pegar seu Porsche e depois, seguindo-o at a propriedade no lago Travis, para discutir o assunto
da contratao de um advogado criminalista, Sterling ligou para Kate do telefone da biblioteca, para fazer um relatrio confidencial. Quando Jake entrou, aps haver
mudado de roupa e colocado um confortvel roupo de banho, ele estava falando com Erica.
   No momento em que a ex-esposa de Jake ouviu sua voz no fundo, exigiu que Sterling o colocasse na linha, mas ela no conseguiu tirar muita coisa dele.
   - Apenas diga aos nossos filhos que sou inocente, est bem? - murmurou ele. - No posso falar agora. Sterling e eu temos assuntos importantes para discutir. Nesse
meio-tempo, preciso de uma bebida. E algo para uma forte dor de cabea.

   Aps ter tomado um txi de volta ao hotel, para um banho e mudar as roupas, Jess passou uma noite no hospital, sem descanso e preocupada. No importa o quanto
mudasse de posio, no era possvel conseguir dormir muito no sof grande do corredor, que havia sido colocado perto da cama de Annie. Ela ainda estava muito fraca,
apesar de parecer melhor, graas ao antibitico colocado no soro que pingava constantemente em sua veia, atravs de uma agulha inserida em sua mo esquerda. Jess
no conseguia parar de pensar no pesadelo da perspectiva de como ela reagiria quando a quimioterapia fosse administrada.
   - Voc  tudo que tenho querida, voc no sabe disso? - sussurrou com um n na garganta, por volta de 3 horas da manh, enquanto olhava sua garota dormindo. -
Voc tem que agentar, at que possamos fazer voc se sentir melhor. Voc tem uma vida cheia e maravilhosa  sua frente, esperando para ser vivida...
   Annie estava acordada e reclamando do cateter em sua 'no no momento que Stephen apareceu, por volta de sete horas da manh. Surpresa por v-lo em um domingo,
Jess eStava agradecida por ter tirado um momento para pentear os cabelos e retocar seu batom.
   - O que voc est fazendo aqui? - perguntou com um sorriso. - Voc nunca tira um dia de folga?
   Antes de entrar no quarto de Annie, Stephen passou na enfermaria para examinar a ficha dela. Sentindo-se um idiota e sob impulso, fez questo de examinar a parte
do formulrio de admisso, que informava o nome e o endereo dos pais. No espao dedicado ao nome do pai de Annie, Jessica Holmes havia escrito Falecido.  claro
que isto no provava que ainda permanecia s. Ela poderia ter casado outra vez. Mas ele achava que no. O modo pelo qual estava suportando, sozinha, o peso da doena
de Annie demonstrava isto.
   Agora, notando as olheiras sob seus grandes olhos castanhos e as linhas que as preocupaes deixaram temporariamente marcadas em seu lindo rosto, Stephen gostaria
de poder fazer alguma coisa para confort-la. Ela estava passando por momentos muito difceis. Infelizmente, ele podia entender com facilidade. Sabia muito bem o
que era se preocupar com uma criana desse modo.
   Ocorreu-lhe que no havia respondido a sua pergunta. Desde que perdeu David, o domingo, para ele, tinha se tornado o dia mais difcil da semana. Quando era chamado
ao hospital, sentia-se aliviado ao invs de incomodado. Ele no podia lhe dizer isto.
   - Eu tenho uma paciente no terceiro andar que no est passando to bem quanto eu gostaria - explicou ele, minimizando o estado da Sra. Munson, porque no ficaria
bem lhe falar de uma paciente que esperava perder. - Uma vez que tive de vir v-la, pensei em visitar Annie tambm.
   Voltando-se para a criana.
   - Estou vendo que voc foi uma boa garota e ficou com o cateter no lugar, mesmo sabendo que incomoda um pouquinho - disse ele. - Isto merece uma medalha ou algum
tipo de recompensa.
   Os olhos de Annie brilharam imediatamente.
   - O que eu ganho? Outra daquelas bandagens espetaculares? - perguntou ela.
   Stephen sacudiu a cabea.
   - No, desta vez eu lhe trouxe uma surpresa de verdade.
   Sua curiosidade se transformou em deleite quando ele mergulhou a mo no bolso do casaco e mostrou um dos caubis de plstico de David, juntamente com um ndio,
e para lhe fazer companhia, e dois cavalinhos para eles montarem.
   - So mesmo para mim? - exclamou ela. - Eu posso ficar com eles?
   O sorriso de Stephen aumentou.
   -  claro que sim.
   - Puxa! - Annie estava radiante. - Um caubi e um ndio! Muito obrigada!
   Jess sorria tambm.
   - Voc no precisava fazer isto - disse com ar de aprovao. - Mas o fato de t-lo feito foi muito carinhoso.

   Na casa ao lado da residncia de Stephen, em Forest Road, Lindsay Fortune Todd tomava o caf da manh com seu marido Frank, sua filha Chelsea, de sete anos, e
seu filho Carter, de seis anos. As panquecas de amora que tinha feito estavam perfeitas, assim como o suco de laranja que seu marido espremeu e o caf com sabor
de avel que Preparou. Do lado de fora os pssaros gorjeavam nas rvores. O sol refletia-se no lago Travis, como brilhantes.
   Mesmo assim, nem tudo ia bem no seu mundo. Apesar 0 clima maravilhoso e da felicidade atual de sua famlia, um franzir de cenho juntou suas delicadas sobrancelhas.
Telefonemas recebidos naquela manh, de sua irm Rebecca e de sua cunhada Erica, deram-lhe motivos com o que se preocupar. De tudo que relataram, parecia que Jake
poderia ser preso e julgado pelo assassinato de Mnica Malone.
   Seu marido Frank, um mdico alto e ruivo que trabalhava no prdio profissional do Hospital Geral de Minneapolis, apertou sua mo enquanto ela fitava a paisagem,
atravs das amplas janelas da copa, observando dois barcos  vela, sem realmente v-los.
   - Vai ficar tudo bem, Lin, eu sei que vai - ele assegurou : a ela. - Jake  inocente. A policia vai acabar encontrando o verdadeiro assassino.
   - Para o bem das crianas - ela tentou excluir a preocupao de sua resposta. -No se eles se fixarem nele e no continuarem procurando - ela comentou.
   Naquele momento o telefone tocou outra vez.
   - Eu atendo - ofereceu-se Frank. - Voc precisa terminar seu caf da manh, se pretende ir para o hospital.
   Levantando-se da mesa e dirigindo-se  cozinha, retirou o telefone sem fio de seu suporte de parede. Suas costas viradas para ela quando disse al. Ela no pde
ouvir a parte da conversa que se seguiu, somente seu tom de surpresa e desagrado.
   Um momento depois, voltou para a mesa relutante e lhe entregou o telefone.
   -  a polcia. Eu disse que voc no sabe de nada, sobre o caso Malone. Eles insistem em falar com voc.
   Lindsay olhou para ele, consternada. Um momento i depois estava tensa e falando ao telefone.
   - Aqui  Lindsay Todd...
   - Aqui  o detetive Tom Harbing do Departamento de^ Polcia de Minneapolis - respondeu uma voz masculina.
   - Lamento incomod-la em uma manh de domingo, Doutora. Todd, mas preciso lhe fazer uma rpida pergunta. E relativa ao assassinato de Mnica Malone. Suponho que
j ouviu falar disso.
   Ela condescendeu friamente com um sim.
   O detetive pigarreou, limpando a garganta.
   - Me desculpe senhora, mas estvamos pensando onde estaria a senhora entre 19h e 20hl5 de sbado  noite.
   Lindsay s faltou subir pelas paredes.
   - Certamente no esto me considerando suspeita! - exclamou, fazendo com que Frank acariciasse seu ombro.
   - Eu no diria isso - respondeu o detetive Harbing, nem confirmando, nem negando. - Todavia, um vizinho da vtima, que estava passeando com seu co por volta
de 22h, alega ter visto uma mulher que corresponde  sua descrio, nas imediaes e naquele horrio. E possvel que, como seu irmo, a senhora tenha feito uma visita
 Srta. Malone no sbado  noite?
   Lindsay inspirou profundamente, esforando-se para no proferir as palavras que ela no gostaria que seu marido e as crianas ouvissem saindo de sua boca.
   - Sinto desapont-lo, detetive Harbing - disse ela.-Mas eu tenho um forte libi. Eu estava no Hospital Geral de Minneapolis naquele horrio, examinando uma criana
doente e atendendo um recm-nascido, que se encontrava na lista crtica. Pelo menos meia dzia de enfermeiras da pediatria e pessoal tcnico iro confirmar minha
declarao.
   Descartando as desculpas superficiais com um lacnico adeus, Lindsay se apoiou no marido, em busca de conforto.
   - Vai ficar tudo bem querida, voc ver.
   - Espero que sim - ela sussurrou. - Desde que mame morreu as coisas parecem que vo de mal a pior.
   Pouco mais tarde, perturbada pelo modo como as ramificaes do assassinato de Mnica Malone estavam alcanando sua famlia, foi para seu gabinete de leitura telefonar
para Sterling e atualiz-lo com os ltimos acontecimentos.
   Lindsay ainda estava visivelmente perturbada quando chegou ao hospital e por acaso encontrou Stephen na sala de espera dos mdicos. Qual seria o problema, pensou
ele. Ela geralmente est to tranqila.
   - Voc primeiro - disse prazerosamente, cedendo-lhe lugar para pegar o caf.
   Depois que cada um se serviu, convidou-a para descansar em uma mesa redonda de mogno. Um pouco impaciente, ela sacudiu a cabea.
   - Tenho muito que fazer.
   Provavelmente, no era o melhor momento para abord-la com o caso da Jessica Holmes e sua busca por medula ssea, mas ele no gostaria de postergar o assunto.
Devido  seriedade do estado de Annie, no se devia perder tempo. Se algum da famlia Fortune pudesse fornecer a medula...
   - Vamos - insistiu ele. -  domingo. Alm disso, preciso falar com voc. sobre Annabel Holmes - disse ele tomando um gole de seu ch fumegante. - De acordo com
a me dela, elas vieram para Minneapolis em busca de tratamento, devido  possibilidade de uma conexo familiar. Ela tem esperana de que um de seus familiares,
recentemente descobertos, se isto vier a ser confirmado, possa fornecer a medula ssea de que Annie necessita.
   - Mas isso  timo! - exclamou Lindsay, momentaneamente esquecendo os problemas de sua famlia, devido  preocupao com sua paciente. - A probabilidade de achar
um doador entre parentes consangneos  to maior que na populao em geral...
   A expresso de Stephen revelava que ela ainda no tinha ouvido toda a histria.
   - Voc poder no achar to timo quando eu lhe disser que a famlia com quem ela est tentando entrar em contato  a sua - alertou ele.
   Lindsay achou que j tinha visto de tudo quando o detetive Harbing quis saber de seus passos na noite do assassinato de Mnica Malone. Mas, aparentemente, no
tinha. Jessica Holmes parecia ser muito agradvel. Agora, estava se revelando ser da mesma estirpe que a detestvel Tracey Ducet, que - com a ajuda de seu odioso
namorado - tentou passar como sua irm gmea e que havia sido raptada logo aps seu nascimento.
   - Detesto parecer insensvel, mas estou farta de caadores de riqueza - protestou, levantando-se. - Se a principal preocupao de Jessica Holmes  a de assegurar
um caminho para a riqueza, ao invs de ajuda para sua filha, ento acho melhor designar outra pediatra para o caso de Annie.
   - Um momento. - Stephen a segurou pelo brao. -Pode ser que eu seja um bobo, por crer com facilidade em mes em desespero. Mas eu acho que no. Eu sinto sinceridade
nela, quando diz que seu interesse  na medula ssea e no em dinheiro. Ela tem uma antiga carta endereada a sua av materna, que parece provar um possvel parentesco.
Para o bem de Annie, por que voc no fala com a Sra. Holmes sobre isto, antes de decidir que sua busca  mercenria?
   Jess sentiu imediatamente a hostilidade de Lindsay quando, mais tarde, fez sua visita rotineira a Annie, para verificar seu estado geral. Vejo que Stephen - o
Doutor Hunter - j lhe contou que estou tentando entrar em contato com a famlia Fortune em busca de um doador de medula ssea e que ela acredita ser apenas um golpe,
pensou deprimindo-se. Se eu no puder convenc-la do contrrio...
   Jess estava pronta para perguntar  pediatra de cabelos castanhos se ela no se incomodaria de vir at o corredor para conversar em particular quando foi surpreendida
pelo convite de Lindsay, para acompanh-la at a sala de transcrio dos mdicos, com a mesma finalidade. A tenso era grande entre elas, quando Lindsay convidou-a
a entrar na pequena sala envidraada, contendo uma bancada, meia dzia de cadeiras e vrios gravadores enfileirados e fechou a porta.
   - Vou direto ao ponto, sem rodeios, Sra. Holmes - disse Lindsay. - O Doutor Hunter me informou da sua crena que, de alguma forma, possa haver um parentesco seu
com minha famlia e que trouxe sua filha para Minneapolis, na esperana de que a famlia Fortune pudesse fornecer a to necessria medula ssea para transplante.
Apesar de duvidar desta possibilidade, por j ter visto mais de um pretendente aparecer em cena na esperana de abocanhar um pedao da herana de meus pais, estou
disposta a ver a carta que o Doutor Hunter disse que possui. Porm, devo avis-la, se parecer uma fraude, planejo me retirar do caso de sua filha.
   Poderia ela realmente acreditar que eu usaria Annie desta forma?, pensou Jess, seriamente considerando demonstrar ressentimento. De alguma forma, conseguiu se
controlar. Sem responder e considerando que qualquer coisa que pudesse dizer s agravaria mais ainda a situao, retirou a carta da bolsa e a entregou  mulher,
que acreditava ser sua tia-av, no emaranhado de relacionamento familiar que a infidelidade de Benjamin Fortune tinha produzido.
   Aceitando-a, no mesmo estado de esprito, Lindsay abriu-a e colocou-a na bancada. De imediato, reconheceu a letra do seu pai. To distinto quanto ele tinha sido,
com as letras maisculas arredondadas e as minsculas de escrita rpida e rigorosa e que seria um pesadelo para um falsificador copiar. No havia qualquer dvida
em sua mente que a carta era genuna.
   Sendo este o caso, duvidava de que Jessica a houvesse furtado para motivos desonestos. Estava disposta a apostar que Jess poderia documentar claramente seu parentesco
com a desconhecida Clia, a quem a carta se destinava, como parte daqueles acontecimentos.
   Leu a carta duas vezes, do incio ao fim. Do que pde entender, por ocasio do servio militar na Segunda Guerra Mundial, Ben tinha gerado uma filha chamada Lana
com a destinatria da carta, uma inglesa chamada Clia Warwick. Apesar de sentir pena que seu pai houvesse abandonado sua filha, reconheceu que aconteceu h muito
tempo, em poca de guerra. Quando voltou para Kate, casaram-se e sua me deu  luz a Jake.
   Resolvida a no se martirizar sobre algo que sua me provavelmente no soube, Lindsay concentrou-se no contedo da carta. Na essncia, era um apelo profundamente
sentido, de ter algum tipo de relacionamento, mesmo que tnue, com a criana inglesa de quem era pai. Diversos comentrios ali contidos levaram Lindsay a acreditar
que tel privilgio fora firmemente recusado.
   - Voc diz que minha mulher e seu marido seriam magoados por isso. Bem, eu no aceito isto, Clia, Nenhum deles precisaria saber, e nem o que aconteceu antes
de nos casarmos, importaria. Para comear, existe um oceano entre voc e Kate. Eu viajo para a Inglaterra a negcios de tempos em tempos, e Kate, ocupada que fica
com sua prpria vida, raramente me acompanha. Quanto a seu marido, George, voc poderia me apresentar como um primo norte-americano distante. Como voc disse, 
verdade que tenho outros filhos que me conhecem bem e me do alegria. Porm, como me, voe deve reconhecer que o corao dos pais  suficiente grande para abrigar
todos os filhos que trouxe ao mundo.
   No havia data. Surpresa de saber que tinha uma meia irm, Lindsay reconheceu que a Lana da carta deveria ter a idade de Jake. Quero conhec-la, decidiu. Mame
tendo falecido, no haveria obstculos.
   Quando a pediatra de cabelos castanhos levantou os olhos, Jess viu de imediato que sua atitude em relao a ela havia mudado. Prendendo a respirao, esperou
por um veredicto.
   - Suponho que seja filha de Lana - disse Lindsay lentamente, examinando Jess com novos olhos.
   Jess balanou a cabea afirmativamente.
   - Onde est sua me agora? Imagino que ainda est morando em Londres.
   Com tristeza, Jess sacudiu a cabea.
   - Mame morreu de uma doena no corao, h alguns anos.
   - Eu sinto muito.
   Um pequeno silncio se fez entre elas.
   - Eu gostaria muito de t-la conhecido - declarou Lindsay. - Lamento ter sido to dura com voc. Eu no deveria ter desconfiado de voc como fiz quando sua preocupao
com Annie era to genuna.  s que... tem havido tantos caadores de fortuna, incluindo uma que alegava ser minha irm...
   Jess estava disposta a perdoar tudo.
   - Entendo perfeitamente - replicou com voz trmula -Qualquer uma, na sua pele, estaria cautelosa. Posso me atrever a ter esperana de que voc me colocar em
contato com membros de sua famlia, para pedir-lhes para fazerem os exames? Se pudermos achar um doador para Annie...- Sua voz faltando, no foi capaz de evitar
que as lgrimas corressem.
   Para sua surpresa, a pediatra de cabelos castanhos e que tinha parecido ser to inacessvel h to pouco tempo abraou-a.
   - Se voc quiser, eu falo com eles, comeando pelos adultos, inclusive eu - ofereceu-se, dando nova vida s esperanas de Jess. - Ajudaria muito se eu pudesse
mostrar uma cpia desta carta.
   A esta altura, Jess j sorria outra vez, apesar de seus olhos ainda estarem avermelhados e brilhando com lgrimas ainda no jorradas.
   - Ficaria feliz se voc fizesse isto. Tenho diversas cpias... Quando Stephen visitou Annie, antes de deixar o hospital, sua temperatura mostrava ter estado dentro
da normalidade pelas ltimas oito horas. Apesar de que, na opinio da Jess, ela ainda estava muito fraca, quando ele entrou no quarto ela estava brincando com os
bonecos de Plstico que havia ganhado.
   - Olhe, Doutor Hunter, meu caubi e o ndio esto lutando. O olhar que lanou a Jess demonstrava satisfao com o estado dela.
   - Espero que ningum v ficar muito machucado - ele disse ao pegar seu brao para tomar-lhe o pulso.
   - No se preocupe - replicou com um sorriso. -  s faz de conta, como no cinema.
   Lindsay, que estava passando pelo corredor e entrou rapidamente para assegurar a Stephen que faria o melhor que pudesse para ajudar a achar um doador para Annie,
no pde deixar de notar o calor do olhar que trocou com Jess. Seria possvel que seu amigo, a quem as enfermeiras se referiam como alto, loiro e no disponvel
desde seu divrcio, havia finalmente desenvolvido algum interesse por algum?


   Captulo 4

   Com Sterling a seu lado e tendo dormido muito pouco durante o fim de semana, Jake compareceu  delegacia da polcia logo aps as 1 Oh na segunda-feira, esperando
outro interrogatrio cerrado. Envergonhado e contrariado em ter que se sujeitar ao que considerava uma no merecida humilhao pblica, ele podia sentir as secretrias
olhando e comentando umas com as outras, enquanto o sargento o levava, juntamente com o advogado,  sala 108, que abrigava a diviso de homicdios. Para um homem
acostumado a deferncias e tratamento de primeira classe, era como se submeter a um corredor polons.
   Como antes, os detetives Harbing e Rosczac estavam esperando. Agradecendo eles por terem vindo, os dois detetives, com expresso enigmtica, indicaram o caminho
e uma sala de entrevistas que era ainda menor, contendo apenas uma mesa danificada e quatro cadeiras que no combinavam entre si. Duas das cadeiras tinham encosto
e assentos acolchoados. Os dois logo se aprovaram delas e indicaram as outras duas, de madeira, para Jake Sterling.
   Apesar de no ter certeza, podia apostar que a parede que aparentava ser de espelho era na realidade espelho de um lado s, possibilitando do outro lado que os
oficiais mais graduados e at mesmo a promotoria pudessem ver e ouvir tudo que se passava na sala. O pensamento de um promotor pblico tomando notas, enquanto os
detetives tentavam faz-lo cair em contradio, fez-lhe virar o estmago.
   - Muito bem - disse o detetive Rosczac. - Vamos comear por cima. Diga-nos tudo que pode lembrar sobre a noite em que Mnica Malone morreu.
   Pronto para responder, uma vez que no tinha outra 1 escolha, Jake foi bruscamente silenciado por Sterling.
   - No to depressa - o advogado interrompeu. - Meu cliente  o presidente das Indstrias Fortune. Ele tem excelente reputao na comunidade. Ele veio aqui de
boa f para ajudar na investigao e no para ser preso por um crime que no cometeu, devido ao fato que algum detalhe possa no corresponder com o que foi dito
no sbado  noite. Se ele  suspeito, ele deseja saber, agora, para que possa contratar um advogado criminalista para se defender.
   Os detetives se entreolharam.
   - Voc poderia dizer que ele  suspeito - Tom Harbing admitiu, fazendo o corao de Jake palpitar. -  claro que se ele puder nos convencer de sua inocncia...
   Sterling adotou um comportamento mais enrgico.
   - Vocs conhecem as regras tanto quanto eu - disse ele. - Um homem  considerado inocente at que se prove o contrrio. E vocs tero dificuldades em provar que
o Sr. Fortune  culpado, porque ele no matou a Srta. Malone. Ns viemos aqui, hoje, na expectativa de responder a perguntas adicionais, que no tivessem sido feitas
ao Sr. Fortune no sbado  noite, e no ficar repisando no mesmo terreno. Uma vez que parece ser esta a inteno de vocs, estou aconselhando-o a se manter calado,
at que ele decida depor sob juramento.
   Mais uma vez, os detetives se entreolharam, sem nada dizer. S faltando tremer em seu assento, Jake como que esperava que o detetive Harbing o levantasse e levasse
suas mos s costas enquanto o detetive Rosczac lia seus direitos e o algemava. Isto no aconteceu, pelo menos no por enquanto.
   - Como quiser - disse o detetive Rosczac, dando de ombros. - Este momento poder ocorrer bem mais cedo do que pensa. Nesse meio-tempo, seria melhor avisar a seu
cliente para no sair da cidade sem nos informar de seu destino. .
   Annie parecia estar melhor ainda quando Lindsay passou logo antes do meio-dia com a notcia de que tinha falado por telefone com tantos parentes quantos lhe fora
possvel. Apesar de alguns ainda estarem pensando, sua irm Rebecca, seu sobrinho Adam e sua sobrinha Caroline j haviam concordado em se submeter aos exames.
   - Na minha opinio, a maioria dos outros, aps terem tempo para refletir, iro tambm - profetizou Lindsay. -Quanto a mim, planejo colher sangue to logo termine
meu turno.

   Devido  disposio dela de ajudar e lutar por Annie junto  sua famlia, a garotinha de Jess teria uma chance e ganhar a luta contra a doena que estava devastando
seu corpo de cinco anos. Apesar de querer abra-la, se conteve. Apesar de Lindsay ter tomado esta liberdade, durante a conversa delas na sala de transcries, ela
no tinha certeza de como o gesto seria recebido, partindo dela. Ela no queria pressionar sua conexo com a endinheirada e desconfiada famlia Fortune alm do ponto
de tolerncia, ou impingir uma intimidade que no fosse desejada.
   - Doutora. Todd... no posso lhe agradecer o suficiente - disse baixinho.
   O sorriso de Lindsay foi positivamente abenoado.
   - De nada. Considero isto um comeo. Teremos que trabalhar com os outros.  claro que no preciso lhe dizer que a probabilidade ainda  um pouco problemtica.
Gostaria que minha gmea - a verdadeira - no tivesse sido raptada. Ns ramos muito apegadas e onde quer que ele ou ela esteja hoje, meu parceiro de tero, poderia
estatisticamente melhorar as chances de Annie.
   Jess estava de pleno acordo. Ao procurar um doador para Annie, precisariam de toda a sorte e todos os parentes que pudessem conseguir.
   - A propsito - adicionou Lindsay. - Acho que j  tempo de voc parar de me chama de Doutora. Todd e comear a usar meu nome. S no tente colocar uma "Tia"
antes do nome...
   Enquanto as duas riam, ensaiando uma primeira tentativa de criar laos do que prometia vir a ser uma calorosa amizade, Jake e Sterling estavam mergulhados em
suas conversas na biblioteca forrada de mogno da manso dos Fortune, conversando sobre a vida de Jake e a confuso em que se metera.
   O advogado tinha retornado com ele para a casa no lago Forest, no para consol-lo, filosofar ou tentar silenciar horrendos prognsticos de desastre, mas sim
para discutir a escolha do advogado criminalista. Ele tinha dois em mente: Eamon Walsh, de Minneapolis, um brilhante e enganosamente descansado intelectual, que
se saa bem com corpos de jurados compostos primariamente de brancos de classe mdia e alta, e Aaron F Silberman, nativo de St. Paul, um lutador agressivo que tinha
tendncia a dar uma mordida no caso da Procuradoria Pblica e s soltar quando tivesse sido reduzido a farrapos. Jurados de vrias raas e nveis sociais, inicialmente,
tinham tendncia a ficar desconfiado com sua atitude de duro. Mas eram logo conquistados pelo seu modo de tratar as pessoas igualmente, sua habilidade de questionar,
sua argumentao convincente e sua garra em busca da verdade a favor de seu cliente inocente.
   Apesar de que, em sua opinio, Jake se daria melhor com Walsh, Sterling estava quase decidido a recomendar Silbennan. O objetivo no era recrutar um futuro parceiro
de golfe, mas sim manter o executivo fora da cadeia e frustrar qualquer tentativa do sistema de justia criminal do Condado de Hennepin de imputar-lhe o assassinato
de Mnica Malone.
   Antes de alinhavar detalhes do plano de ao, sabia que teria que agir como confessor e psiclogo. Era um papel que desempenhava para a famlia Fortune, desde
que se tornara o advogado civilista da famlia h muitos anos. Ele s desejava que Jake largasse o usque- Ainda no era meio-dia e eleja havia entornado a maior
parte de sua segunda dose. Ele necessitaria de a sagacidade e sobriedade nos dias e semanas que se seguiriam.
   Da perspectiva de Jake, a seleo do advogado e subseqente definio da estratgia de resposta  acusao de assassinato que poderia muito breve ser feita contra
ele eram detalhes que ele no queria enfrentar. Para ser honesto, ele estava cheio com intrigas e preocupaes, numa tentativa ftil de lidar com o que parecia ser
uma srie infindvel de golpes e crises em sua vida pessoal e profissional. Ele queria ir para algum lugar. Desaparecer e cair no esquecimento. Simplesmente se deixar
levar, sem ocupar seus pensamentos.
   A verdade  que ele nunca realmente se enquadrou na audaz e animada modelagem dos Fortune. Mesmo assim, como filho mais velho de Ben e Kate - supostamente filho
de ambos -, ele foi moldado para a presidncia das Indstrias Fortune desde a faculdade, e assumiu o cargo no devido tempo. Todavia, ele nunca realmente o desejou.
Quando jovem, tinha em mente uma carreira totalmente diferente para si mesmo. Agora era tarde demais para abandonar tudo e fazer uma mudana de curso, e assim teria
sido, mesmo que ele no estivesse enfrentando a luta de sua vida, no caso da morte de Mnica Malone. Ele estava com 54 anos de idade e o futuro j havia sido moldado.
Porm, em seu interior residia quele jovem desejando paz, sossego e cessao de responsabilidades no desejadas, ansiando por coisas que poderiam ter acontecido.
   - Sabe - disse mal-humorado a Sterling, passando os longos dedos em seus cabelos negros embranquecidos. - Isto vai parecer conversa de bbado. Mas nada disso
teria acontecido se eu tivesse ido estudar medicina como desejava. Eu devia ter dito a papai que no queria...
   Para Sterling, tal contemplao sentimental estava totalmente fora de propsito. Mnica teria vindo atrs dele, independente da carreira que Jake houvesse seguido,
se ele estivesse de posse das aes que ela queria. No era a primeira vez que o advogado imaginara onde ela teria obtido a informao. Quem teria revelado a ela
a verdadeira paternidade de Jake, inspirando-a a revirar o passado de Kate, em busca das testemunhas necessrias? Toda vez que pensava nisto, s chegava a uma concluso
- seu ex-amante Ben Fortune, que tinha todos os motivos para saber da verdade.
   Era uma resposta que devastaria o primognito de Kate e que Sterling estava estupefato em no ter concludo por si mesmo.
   - Por que, ento, voc teria continuado na presidncia, se no a desejava? - perguntou por diverso.
   Jake encolheu os ombros, bebendo o que restou do usque que havia servido a si prprio no copo de cristal Waterford.
   - Suponho que foi porque Nate o desejava. Enquanto os dois conversavam, trancados atrs das pesadas portas da biblioteca, no puderam ouvir a campainha tocar
na cozinha. No estavam cientes de nada at que a Sra. Laughlin, a empregada sexagenria de feies srias que Jake havia contratado, afastou as portas duplas de
mogno macio, interrompendo-os.
   - Sim, Sra. Laughlin... o que ? - disse Jake.
   Ela interpretou a pergunta como licena para entrar.
   - A polcia est no porto de entrada, Sr. Fortune -revelou ela. - Pedem para v-lo. O que devo dizer a eles?
   - Pea a eles para entrarem - respondeu Sterling, no lugar dele. -  melhor que tenham um mandado - adicionou enquanto a mulher se afastava -, ou iremos direto
aos superiores deles com uma reclamao formal de assdio.
   - Suponho que seja hora de contratar o advogado criminalista - disse ele em uma tentativa de amenizar o momento. - Deixo a seu cargo escolh-lo.
   Segundos depois, a empregada mostrava o caminho at a biblioteca aos detetives Harbing e Rosczac. No esperaram que ela sasse e nem fizeram rodeios, indo direto
ao ponto.
   - Jacob Fortune, estou lhe dando voz de priso pelo assassinato de Mnica Malone - anunciou o detetive Harbing, enquanto seu parceiro levava as mos de Jake s
suas costas e o algemava. - Voc tem o direito de permanecer em silncio. Qualquer coisa que disser, poder ser usada contra voc. Voc tem direito a um advogado...
   Sem nada poder fazer para evitar os acontecimentos, Sterling acompanhava de cara feia.
   - Suponho que tenham um mandado - rosnou.
   O detetive Harbing aparentava desejar mudar seu papel de bom tira e dar um murro em Sterling.
   - Eu o tenho bem aqui, senhor - respondeu, oferecendo um documento amarrotado que trazia no bolso de dentro do casaco.
   Examinando o mandado, Sterling viu que estava em ordem. Tinha sido juramentado perante um juiz. Ele duvidava de que tivesse sido difcil de obter, devido  preponderncia
das evidncias.
   - No diga nada, a menos que seja um pedido para ir ao banheiro - aconselhou a Jake. - No importa o quanto paream compreensivos, no fale com eles!
   O presidente executivo das Indstrias Fortune olhou para ele.
   - Voc no vai comigo? Lamentando, Sterling sacudiu a cabea.
   - Eu tenho que contratar um criminalista para voc -explicou, desejando que j o tivesse feito. - Se eu puder fazer contato com a pessoa que quero e convenc-lo
a represent-lo, no ir demorar.
   Depois que Jake e a polcia saram, a primeira coisa que ele fez foi telefonar para Kate.
   - Tenho ms notcias, gatinha - anunciou, inconscientemente voltando a trat-la pelo apelido que outrora usara algumas vezes, quando era bem mais jovem e estava
apaixonado por ela.
   Por vrios segundos ela no respondeu. At que respondeu com sua voz rouca.
   - Vamos, diga logo o que .
   Apesar de sua aparncia gentil, ela era uma mulher forte.
   - Jake foi preso pelo assassinato de Mnica - disse ele. - Enquanto falamos, ele est a caminho da priso. Eu o aconselhei a no falar nada com ningum, at que
eu pudesse conseguir um criminalista de primeira linha para defend-lo.
   Outro silncio se fez entre eles. Sterling imaginou ouvir a pergunta que no foi feita: Jake seria julgado culpado, se o caso for a julgamento? Ciente de que
ela protegia Jake, mais que aos demais filhos - de que ela sofreria quando, inevitavelmente, os detalhes de seu parentesco fossem revelados -, ele no sabia como
respond-la.
   - Quem voc tinha em mente? - perguntou enfim, deixando-o aliviado. Quando ele mencionou Aaron Silberman, ela reagiu favoravelmente. - Eu o vi na televiso -
respondeu ela. - Ele  baixo, um pouco agressivo e culos com aro de metal, no ? Ele me pareceu autoconfiante.
   Sterling estava satisfeito. Vou contrat-lo imediatamente, prometeu, resolvendo tirar o detetive particular
   Gabe Devereaux da investigao do acidente de Kate e outros assuntos da famlia Fortune e coloc-lo no caso Malone.
   Sua resposta foi concisa, mas de aprovao.
   - Ento v.
   - Vou lhe telefonar esta noite.
   - Passe aqui para tomar uma bebida, se puder.
   Aps ter falado com Gabe e obtido um comprometimento provisrio de Aaron Silberman para defender Jake, Sterling foi para a cadeia para ver se tinha alguma coisa
que poderia fazer a favor de seu cliente. To logo estacionou e saiu de seu Lincoln, foi cercado por pessoas da imprensa, incluindo diversos reprteres e operadores
de cmera da TV a reboque.
   A bateria de perguntas que jogaram.sobre ele tinha um tema em comum: existiam rumores de que Jake tinha sido preso pelo assassinato de Mnica Malone, e esta informao
era verdadeira? Quais eram as acusaes? Jake continuaria a alegar sua inocncia?
   Pelo modo de pensar de Sterling, havia passado muito pouco tempo para que Harbing e Rocszac tivessem tido tempo de apresentar o relatrio de priso. Portanto,
de onde esses abutres teriam obtido a informao? Talvez uma dica de um dos ilustres detetives?
   - Me parece - disse com seriedade - que "ouvir falar" no  a melhor fonte de fatos em um caso de assassinato. Vocs deveriam verificar os registros oficiais.
Quanto ao Sr. Fortune, ele afirma que a Srta. Malone estava viva e bem na ltima vez que a viu. E eu acredito nele. Vocs podem dizer que sua famlia, com todo ardor,
acredita na sua inocncia.
   Uma ligao para o comissrio de polcia fez com que Jake fosse transferido da rea de deteno para uma cela individual, logo antes da chegada de Sterling. Pouco
tempo depois, Aaron Silberman se juntou a eles. Apesar da reao inicial de Jake, ao advogado de linguagem simples, ter sido de desconfiana beirando o desagrado,
ele mordeu os lbios e no discutiu sobre ele. No estava em posio de fazer nada desse tipo. Alm disso, se ele aprendeu algo ao longo do tempo, foi que Sterling
conhecia seu trabalho. Se o advogado da famlia achava que Aaron Silberman era o melhor homem para ajudar a limpar seu nome, isto era o suficiente para ele.
   Jake considerou extremamente dolorosa a necessidade de repetir vrias vezes os detalhes de sua visita a Mnica na noite de sua morte. Desde que os repetiu, na
presena de Sterling, para a polcia, no sbado  noite, ele tem tido uma tendncia de atenu-lo em sua cabea, suavizando nesse processo a memria de sua prpria
estupidez.
   Agora, tudo lhe voltava com o impacto de seu real significado. O que pensaria rika quando ouvisse que ele fora preso? E suas irms? E seus filhos? Continuariam
a acreditar nele?
   Enfim, no pde mais lembrar de nenhum detalhe que j no tivesse sido coberto uma dzia de vezes.
   - Contei a vocs absolutamente tudo que lembro -Ele disse, descansando em suas mos a cabea dolorida. - Juro a vocs que no matei Mnica, apesar de supor que
poderia t-lo feito, em legtima defesa. Em minha mente posso v-la to claramente como os vejo agora a o outro lado da mesa, sentada no sof, xingando-me enquanto
eu deixava a casa. At aquele momento, ningum tinha sido esfaqueado com o abridor de cartas, que supostamente a matou, seno eu mesmo.
   Aaron Silberman olhou para ele silenciosamente, por um momento.
   - Talvez eu seja um louco - disse ele finalmente. -Mas, acredito em voc. Ento... quem  o culpado?
   Jake era forado a admitir que no fazia idia.
   - Estranho como possa parecer, eu mal conhecia a mulher - replicou ele. - Esta confuso toda comeou h meses, quando ela veio a mim para discutir um assunto
de interesse mtuo. Como lhe disse, acabou sendo o assunto de meu parentesco. Ela me mostrou as declaraes juramentadas que descrevi e jurou que se eu no vendesse
para ela um significativo lote de aes nas Indstrias Fortune, bem abaixo do valor de mercado, ela me arruinaria, tornando pblica a informao...
   - Suponho que isto significa que voc no sabe quem a matou - observou Silberman, com a lngua na bochecha.
   Naquela noite, a priso de Jake foi amplamente divulgada, tanto no noticirio local como no nacional. Sterling havia avisado a rika o que poderia acontecer.
Aps uma tentativa frustrada de entrar em contato com seu ex-marido na cadeia, dirigiu at a casa de sua filha Natalie para ver oi noticirio junto com ela e com
o arquiteto Ricky Dalton, seu noivo h pouco tempo. Vrios outros membros da famlia Carolina, a irm de Natalie, seu irmo Adam e sua noiva Laura - tambm se juntaram
a eles. Ningum podia acreditar no que havia acontecido, com possvel exceo de Natalie. que havia chegado na manso dos Fortune em tempo de ver seu pai com a camisa
ensangentada e ouvir seu balbucio bbado e incoerente sobre o que tinha acontecido.
   Todavia, como seus irmos, Natalie tambm estava convencida de sua inocncia.
   - Ns temos que telefonar para ele... dizer que o apoiamos em tudo! - exclamou ela, quando o reprter ncora da tev passou para outro assunto.
   A conversa que ela props no aconteceria. Uma ligao para a mesa de informaes na cadeia fornecia apenas o nmero de um telefone pblico no salo da priso
masculina, que continuava ocupado por diversas horas. Inacreditavelmente, a influncia exercida por ser um dos Fortune em Minneapolis parecia ter-se evaporado, quando
mais precisavam.


   Captulo 5

   Para piorar o estado de Jake, a tentativa de Aaron Silberman de livr-lo sob fiana na audincia de denncia na manh seguinte falhou. Concordando com o argumento
da Promotoria, que Jake oferecia risco por haver deixado Minnesota na noite da morte de Mnica Malone, o juiz proferiu rapidamente uma recusa e bateu o martelo,
brandindo.
   - Prximo caso!
   O advogado criminalista podia oferecer consolo limitado. O juiz da audincia era conhecido por ter vindo da pobreza e nutrir forte ressentimento contra os membros
mais privilegiados da sociedade, e no presidiria a audincia preliminar dali a vrias semanas. Eles ento poderiam tentar outra vez, com maiores chances de resultado,
prognosticou Aaron Silberman.
   - No h motivos para mant-lo atrs das grades, independente da seriedade da acusao - disse ele. - Quando pediram, voc foi at a polcia por livre iniciativa
e contou o que sabia dos acontecimentos daquela noite.
   Para ele, a visita de seus filhos maiores, atravs de um painel de vidro, que no permite beijarem-se ou tocarem se, trouxe profunda dor e vergonha. Ele tinha
sido como um deus para eles, quando eram pequenos, aprendendo a andar pela casa, e mais tarde, quando aprenderam a andar de bicicleta sozinhos e puderam sair pela
vizinhana. Estava mortificado que, como adulto, pudessem v-lo sob condies to baixas, com seu amarrotado uniforme de presidirio.
   Finalmente pediu que no retornassem.
   - A priso do condado no  lugar para vocs, como no  para mim - disse ele -, sem sombra de dvida. De minha parte, no h nada que eu possa fazer. Mas eu
no quero que me vejam aqui e venha a ser lembrado desta forma algum dia. - Estarei saindo daqui quando for realizada a audincia preliminar - insistiu ele, apesar
de que no apostaria nisso. - Ento, poderemos passar juntos, todo o tempo do mundo.
   Contrariados, concordaram em fazer o que ele queria. No caminho de volta para sua cela, aps a ltima visita deles, ficou ironicamente satisfeito por, pelo menos,
Erica no ter insistido em visit-lo e levar consigo a imagem de como ele aparentava no ponto mais baixo de seu equilbrio e auto-respeito.
   Duas semanas depois, Jake continuava atrs das grades. Sua audincia preliminar fora adiada a pedido do promotor do condado, a despeito dos protestos de Aaron
Silberman. Neste meio-tempo, no Hospital Geral de Minneapolis as foras da Annie tinham melhorado o suficiente para que se prosseguisse com a quimioterapia.
   Na proftica manh, Jess estava sentada ao lado da cama de sua filha no quarto especialmente tratado, onde Annie ficaria at que sua medula ssea se regenerasse
o suficiente para oferecer alguma proteo temporria a doenas. Ela estava alisando os cabelos loiros da menina e reconhecendo que pelo menos parcialmente resultaria
em uma perda de cabelos como parte do tratamento, quando Stephen entrou na sala acompanhado de uma enfermeira especializada em aplicao endovenosa. Ela trazia um
suporte de soro e diversas bolsas de plstico do fluido transparente, necessrio ao tratamento.
   Tinha chegado o momento. Um pouco trmula, Jess levantou-se. Com todo seu instinto de me protetora que possua, ela queria gritar que havia mudado de idia e
pedir a todos para sarem do quarto. Ningum toca na Annie ou lhe aplica medicamentos que a faam passar mal. Haveria tempo suficiente para fazer isto, quando um
doador fosse encontrado.
   Stephen ficou de corao partido quando viu sua expresso amedrontada, bem como em relao  menina, que brevemente estaria passando mal do estmago e vomitando,
como resultado dos medicamentos que havia prescrito.
   Nas semanas que se seguiram, aps haver dado para Annie os presentes do caubi e do ndio que haviam pertencido a seu filho, ele e Jess no se tocaram outra vez.
Mas isto no o impediu de imaginar como seria tom-la em seus braos e pressionar sua boca contra seus lbios suavemente entreabertos. Ele no foi capaz de parar
de pensar nela  noite e imaginar como seria sentir seu calor sob as cobertas. Repetidamente se questionava se teria coragem de se importar com outra mulher em sua
posio vulnervel e nada invejvel. Se falhasse com ela tambm, teria a seu crdito uma segunda catstrofe emocional.
   E se no se arriscasse? O que perderia por sua covardia? Somente a oportunidade de construir uma vida to vivida e alegre, com amor em cada momento do dia, que
as tragdias inevitveis da minha profisso poderiam perder o poder de me magoar, pensou ele.
   Poder ouvir o riso to precioso de uma criana no quarto ao lado e saber que em poucos momentos ela se aninharia em meu colo e pediria para contar uma histria
alegre... beijar a nuca macia da mulher amada, sob anis formados pelo vapor, enquanto ela misturava sais aromticos na superfcie da gua da banheira... O que eu
no daria por estas coisas simples e profundamente gratificantes, se apenas eu tivesse coragem de sair em busca delas.
   At o momento, ele no tinha dado nenhum passo nesta direo. Mesmo assim, as diversas semanas de hospitalizao de Annie fez com que evolussem de um tratamento
de doutor e senhora para seus primeiros nomes. Suas reunies quase dirias e suas preocupaes mtuas relacionadas a Annie nutriram algum tipo de camaradagem que,
ele pressentia, poderia evoluir para algo, maravilhoso, espetacular e, infinitamente perigoso para sua alma apreensiva com comprometimentos.
   - No temos outra escolha Jess - disse ele, descansando deliberadamente sua mo no ombro dela. - Por pior que este tipo de tratamento possa parecer, Annie precisa
desta oportunidade para uma recuperao temporria, para que possamos ganhar tempo para achar um doador.
   E claro que ele tinha razo. A enfermeira pediu que ela se afastasse para no impedir o procedimento que se seguiria e ela relutantemente concordou. Ela segurou
a respirao, pois aps preparar cuidadosamente a mo de Annie, a enfermeira introduziu o cateter na veia, fazendo com que a menina chorasse de dor e aflio.
   - Mame, est doendo!
   O cateter no estava completamente seguro ainda. Contendo uma exploso, Jess virou-se e escondeu seu rosto contra o peito de Stephen. Segundos depois, ela reconheceu
seu erro e recuou para suavizar o momento.
   - Sei que tem razo - disse num sussurro, sem mirar seus olhos. -  que eu daria qualquer coisa para me submeter a este tratamento por ela...
   Stephen conhecia muito bem aquele sentimento. No havia uma criana que ele tratasse de leucemia ou outra doena do sangue que no trouxesse de volta para ele
a doena de David, acompanhada de todo o sentimento de raiva e impotncia. Infelizmente, seu relacionamento com Annie era bem mais complicado que qualquer outro
que ele j tivera com jovens pacientes, desde a morte de seu filho. Durante seu breve relacionamento, a frgil menina loira, com seu esprito corajoso e adorvel
sotaque britnico, provocou-lhe uma calorosa afeio, de um modo que, at o momento, nenhum de seus pacientes tinha sido capaz de faz-lo.
   Ele sabia que, em parte, era devido a seus sentimentos por sua me, que nem a razo e nem a lembrana da infeliz separao de sua ex-mulher Brenda foi capaz de
deter.
   - No estamos aplicando uma carga total - respondeu ele, odiando-se pela necessidade de ser frio com ela. - Em apenas poucos dias, ela dever estar se sentindo
melhor e se alimentando. Tenho grande expectativa que quando sua medula ssea tiver se regenerado, ela possa sair do hospital e ir para casa por algum tempo, at
que estejamos prontos para o transplante.
   Ele faz soar como se o transplante fosse coisa certa, apesar de no termos ainda um doador, pensou Jess. Como eu, ele provavelmente est contando com um doador
da famlia Fortune, uma vez que os relatrios iniciais das demais fontes com as quais fez contato tm sido constantemente negativas.
   Nessa altura dos acontecimentos, Jess sabia que tentar compatibilizar medula ssea era um processo bem mais complicado e difcil do que obter tipo sangneo compatvel
para uma transfuso. Para que um transplante viesse a ter sucesso, tanto o doador como o receptor tinha que ter em comum pelo menos trs e preferivelmente mais dos
seis alvos denominados antgenos dos leuccitos humanos, encontrados em todas as clulas da medula ssea.
   A primeira a se submeter a exame foi Lindsay, e seu sangue indicou compatibilidade com apenas dois, dentre os seis antgenos de Annie. Mas ainda existia esperana.
Rebecca, Adam e Carolina compareceram para exame conforme programado, independente da preocupao deles com Jacob Fortune, que enfrentava acusao de assassinato.
Os resultados daqueles exames chegariam breve. E graas a Lindsay, outros viriam.
   Neste meio-tempo, Jess ficaria torcendo, para poder levar Annie para casa por uns tempos, mesmo que esta casa tivesse que ser um quarto de hotel.
   - Tentarei lembrar disto hoje  noite e amanh, quando ela estiver passando mal - sussurrou ela.
   Depois do que pareceu ser uma srie infinita de calibragem e ajustes, a enfermeira completou sua tarefa. Jess estava livre para juntar-se novamente  sua filha.
Violando a regra que proibia que familiares e visitantes sentassem na cama do paciente nos quartos esterilizados, ela aconchegou-se a Annie, subindo na cama do lado
oposto ao cateter, e colocou ambos os braos em torno dela. Infelizmente, semelhante ao Stephen e  enfermeira, estava usando mscara para evitar infeco e no
podia beijar sua bochecha.
   - Est doendo, mame - Annie reclamou, aninhando-se contra ela. - Quero ir para casa na Inglaterra e ver o Herkie. Por que temos que fazer isto?
   Instintivamente, Jess sabia que uma resposta simplria no seria satisfatria.
   - Eu reconheo que este medicamento  ruim e que di muito, querida. Se eu pudesse, tomaria no seu lugar. Mas a verdade  que ele tem algumas coisas boas tambm.
Em alguns dias voc vai estar se sentindo melhor, e pouco depois voc vai sair do hospital por uns tempos, enquanto no achamos aquele remdio especial, do qual
lhe falei. Depois que voc tom-lo, no vai ficar se sentindo cansada e doente o tempo todo. Vamos poder fazer muitas coisas divertidas juntas.
   Annie continuou desconfiada.
   - Eu sinto tanta falta de Herkie - ela choramingou. -V-lo outra vez me ajudaria a me sentir melhor tambm, voc no acha?
   Stephen lembrou da menina haver mencionado antes algum com o nome de Herkie. Quem seria?, pensou ele. Algum de quem Jess gosta tambm? Com outros pacientes
para atender, no houve tempo para perguntar.
   - Agenta firme, est bem? Volto daqui a pouco para ver voc. Sabe, h mais caubis e ndios no lugar de onde vieram estes. Eu no ficaria surpreso se eles aparecessem
no seu quarto um desses dias.
   Na medida em que a manh passava, transformando-se na tarde, Annie foi se sentindo cada vez mais doente. Segurando a bacia de metal sob o queixo, quando ela vomitava,
e enxugando seu rosto com uma toalha mida, Jess se preocupou que ela pudesse ficar desidratada. Ela s conseguia sucesso parcial em fazer com que sua filha, ocasionalmente,
aceitasse um pouco de gua.
   Pouco aps a partida de Stephen, os vmitos de Annie cederam. Ela adormeceu. Dolorida, por haver mantido uma posio sentada na maior parte do dia, Jess se levantou
e foi at a janela para uma mudana de cenrio. Chegou  janela no momento em que Stephen deixava o prdio, trajando cala e um casaco esporte e entrando em um Miata
conversvel, de cor prata-cinza, onde uma mulher esbelta, com cabelos caindo at os ombros, louro acinzentado, esperava por ele. Para seu desnimo, trocaram um rpido
abrao antes que o pequeno carro esporte partisse.
   Sua primeira reao foi um atordoante sentimento de perda, tornando-a ciente at onde suas fantasias sobre ele tinham chegado. Que tola ele deve me achar, sonhando
com ele! Ela queria morrer quando lembrou como, h apenas algumas horas, ela o abraou em busca de conforto.
   Ele podia ter certeza de que isto no iria acontecer outra vez. Enquanto sentava na poltrona forrada de napa, ao lado da cama de sua filha, refletiu que, um desfile
sem fim de mes solteiras, com filhos doentes, deve flertar com ele, inconsciente que tal bondade e preocupao  estritamente profissional e humanitria. Voc tem
que reconhecer isto, disse com amargura a si mesma. Voc e Annie esto sozinhas no mundo, Voc precisa esquecer assuntos relacionado a romance.
   Chegando a um restaurante prximo com sua acompanhante para o jantar, uma amiga de sua ex-mulher e que recentemente tambm passara por um divrcio, Stephen repreendeu
a si mesmo por ceder com facilidade. Quando a mulher telefonou, sei mais nem menos, para inform-lo de seu novo status de solteira e confessou sua imensa solido
sem jeito, ele fez o melhor que pde para demonstrar solidariedade. Ela rapidamente reagiu convidando-o para jantar Apesar de ter tentado arrumar uma desculpa, no
houve jeito. Ela estava disponvel qualquer noite.
   Ele achava que estava fadado a uma noite frustrante e de tdio Do que podia lembrar de Glria, ela no falava de outra coisa seno da pontuao do golfe, bridge,
seu poodle, o que adquiriu numa viagem de compras e as ltimas fofocas do circulo de amizades de sua ex-mulher.
   Sua atual experincia mostrou que no houve muita mudana. Por algum tempo, enquanto comiam a salada e a massa fresca com tomates secos, ele descobriu que daria
para sustentar seu lado do acordo desta noite simplesmente concordando ao balanar a cabea, sorrindo e colocando uma pergunta negligente de vez em quando. Ainda
assim estava desconfortvel, pois estava bastante claro que a ex-Glria tinha srio interesse nele.
   Mal posso esperar que ela me deixe de volta para que eu possa subir rapidamente e verificar, mais uma vez, como esto Jess e Annie, antes de voltar para casa
no lago Travis. O bem-estar delas passou a significar muito para mim.
   Depois de uma interminvel conversa sem importncia durante a sobremesa e de vrias indicaes da parte dele de que devia estar no hospital na manh seguinte,
Glria finalmente murmurou que talvez devesse lev-lo de volta ao hospital.
   - Isto , amenos que voc prefira... - Adicionou ela, sua voz perdendo-se enquanto ficava envergonhada com o olhar surpreso que lhe deu.
   Stephen, rapidamente, preencheu o desconfortvel silncio que se seguiu ao agradecer ela por ser to compreensiva.
   Um pouco depois, considerou-se com sorte, por escapar com tranqilidade, calma e com um beijo no rosto, quando ela parou o Miata na entrada principal do Hospital
Geral de Minneapolis. Antes que as lanternas traseiras desaparecessem na pista circular, j se encaminhava a passos largos para o elevador. Estava duplamente ansioso
para ver Jess.
   Vestindo um jaleco cirrgico sobre as roupas, colocou uma mscara e um par de luvas e entrou no quarto de Annie. Durante sua ausncia, havia anoitecido. Mas Jess
no se preocupou em acender uma luz. Na meia-luz que vinha do corredor, podia ver que Annie estava dormindo -se no totalmente tranqila, mas pelo menos sem muita
agitao.
   A bela inglesa de cabelos negros passou as ltimas horas na poltrona ao lado da cama de sua filha, olhando para o espao e imaginando o que seria um futuro sem
amor e se preocupando que no teriam encontrado um doador compatvel, depois que todos os Fortune fizessem o exame. Agora, devido aos passos de Stephen, virou-se
e levantou-se.
   - Como vai Annie? - perguntou com um rouco sussurro, aproximando-se e ficando um pouco perto demais.
   Ela no podia ver sua boca, somente seus olhos azuis de viking e a expresso neles contida. Pelo que podia entender, eram ilusoriamente calorosos como sempre,
talvez at um pouco mais calorosos. Graas ao quadro que testemunhou da janela do quarto andar, ela tinha uma razovel idia de at que ponto ela poderia esperar
que aquele calor a levasse. Exatamente a lugar nenhum, disse a si mesma. Graas a Deus acordei de meus sonhos, antes que me envergonhasse.
   - Bem, dentro do quadro em que se encontra. Estaria ele imaginando, ou sua entonao britnica precisa teria demonstrado frieza? Tentou outra vez.
   - E voc ento? J jantou alguma coisa? Ela sacudiu a cabea.
   - Voc tem que comer, Tess. Se voc no quiser sair do lado de Annie por tempo suficiente para ir at o refeitrio, deixe-me ir at a lanchonete e buscar algo
para voc.
   Ele no era seu irmo, nem seu empregado. Pelo contrrio, era o mdico de sua filha, um especialista altamente treinado, com muitos pacientes com quem se preocupar
-dificilmente o tipo de pessoa que voc despacha at a lanchonete para lhe trazer um pouco de peixe, fritas ou um cachorro-quente americano.
   - Obrigada, mas voc no deve se preocupar - respondeu ela, sem sequer deixar escapar uma ponta de um sorriso. - Uma das enfermeiras me ofereceu um pouco de iogurte
da cozinha delas, quando me der fome.
   Acostumado a perceber quando uma mulher no est satisfeita com ele, graas a seus problemas com Brenda, pde perceber a frieza. Suponho que  compreensvel,
tentou dizer a si mesmo. Sua filha est muito doente e eu a fiz ficar pior no decorrer de seu tratamento. Em momentos como este, uma me no permanece exatamente
racional. Ela est sujeita a sentir algum ressentimento.
   Seu instinto lhe dizia que sua reao era mais profunda que isto.
   Murmurando em baixo tom boa-noite, acompanhado de uma promessa de examinar Annie na primeira hora da manh, ele fez uma retirada estratgica. Todavia, no pde
deixar de se sentir um tanto desanimado enquanto caminhava para o elevador. Seu encontro com Glria Denham, se  o que aquilo tinha sido, o tinha deixado com um
desejo crescente de estar com Jess. Ele queria v-la, toc-la, ouvir a msica de sua voz, simplesmente aquecer-se em sua presena. Para dizer a verdade, durante
a maior parte da noite ele esteve oscilando  beira de fazer algo ousado - para ser exato, se apaixonar por ela.
   Salvo pela frieza dela, sentiu-se grato, enquanto se encaminhava para a rea de estacionamento dos mdicos e entrava em sua Mercedes. Mas enquanto deixava a rea
do hospital para trs e se dirigia para sua casa solitria no lago Travis, no conseguia se convencer de que havia escapado por pouco. O fato era que sua admirao
e desejo de estar com ela j eram profundos demais para permitir que escapasse com uma fcil retirada.
   Quando estacionava o carro na garagem e saa de seu carro macio e caro para enfrentar uma casa vazia, Erika chegava em casa aps uma aula noturna na faculdade
que freqentava. Deixando cair displicentemente seu caderno de anotaes, sua bolsa de couro e seu cardig de cachemira, sobre uma cadeira em sua sala de estar,
pintada na cor gelo, foi direto para a cozinha tomar duas aspirinas e um copo de leite desnatado.
   Sua tentativa de prestar ateno enquanto seu professor de histria mundial dissertava sobre a queda do Imprio Romano, enquanto ao mesmo tempo se preocupava
com Jake, deu-lhe uma monstruosa dor de cabea. Foi somente depois que tomou as aspirinas e massageou sua testa que notou a luz piscando na secretria eletrnica.
   Havia duas mensagens, uma de Jake e outra de sua irm Lindsay. Surpresa de haver recado de seu ex-marido, que por omisso deu a entender que no queria que ela
se envolvesse em seus problemas com a polcia, rebobinou a fita e ouviu a mensagem outra vez, prestando ateno a cada nuance de significado e expresso, de sua
rouca e auto censurada voz.
   Ela no percebeu muito mais. Murmurando que lamentava no t-la encontrado em casa, simplesmente pedia para ligar de volta, tendo deixado um nmero de telefone
que no lhe era familiar e que ela rabiscou no verso de um envelope. Aparentemente, ainda estava na cadeia. Isto significava ligar para ele no salo diurno dos presos.
Ela tinha ouvido de Adam e de Caroline o quanto era difcil conseguir ligar para l.
   Tirando seus sapatos caminhou de meias at o quarto onde ela e Jake, antes da separao, dormiam juntos, e discou o nmero que ele forneceu. Para sua surpresa,
foi atendido no primeiro toque.
   - Gostaria de falar com Jacob Fortune, por favor -- disse ao carcereiro um tanto rspido que atendeu. - Aqui  a esposa dele que est ligando.
   - Eu no sabia que ele tinha esposa - disse o homem. - Aguarde um momento.
   Depois do que pareceu um tempo interminvel, Jake estava na linha.
   - Erika? - perguntou.
   - Estou aqui - disse ela.
   Ela no poderia saber o que lhe custou ouvir sua voz. Escondidos por trs de seu timbre musical estavam todas as lembranas que havia tentado afastar - aquelas
de sua conquista, tantos anos atrs, da modelo de lindas pernas e gloriosa aparncia e que havia preferido ele aos demais pretendentes; sua preciosa lembrana, como
uma fotografia mental, de como ela era ao amamentar Adam; a sensao de ter em seus braos seu corpo nu, quase fazendo parar seu corao.
   Foi um erro ligar para ela, pensou, com a sbita sensao mais intensa de desejo por ela.
   - Eu, ah, s liguei para saber como voc estava - conseguiu dizer. - E as crianas. Suponho que voc j ouviu... pedi que ficassem longe por uns tempos.
   O que teria lhe custado dizer que a amava, mesmo que no fosse verdade? Dizer que ansiava por sua ajuda e apoio para conseguir enfrentar a calamidade que havia
desabado sobre ele? Ouvindo e aguardando por essas coisas, apesar da experincia recente haver ensinado a ela a no esperar por isso, Erika ficou frustrada.
   - Estou bem... Mantendo-me ocupada com minhas aulas - disse sem muita expresso. - As crianas me falaram o que voc disse sobre suas visitas. Eu no concordo
com isto.
   - E melhor assim - afirmou ele. - No quero que se recordem do pai neste tipo de ambiente.
   Eles vo lembrar de qualquer forma, pensou Erika. Que diferena faz? Eles te amam, eu tambm. Eles querem ajud-lo a superar isso, ao invs de ficarem de fora.
   - Ento... o que posso fazer por voc? -perguntou ela. Voc poderia me abraar, Jake disse em silncio, mesmo que s em pensamento. Esquea toda a porcaria que
eu disse e se oferea para continuar em frente, se eu conseguir superar isso.
   Ele no conseguia colocar em palavras seu apelo.
   - S reforce minha inocncia junto s crianas - disse finalmente.
   - Voc no sabe que j fiz isto? - Respondeu ela silenciosamente.
   -  claro que farei isto - prometeu ela. - Mas voc no precisa se preocupar. Eles acreditam de corao em voc. Qualquer um que lhe conhece  capaz de reconhecer
que voc no cometeria o tipo de crime do qual est sendo acusado.
   Se ela estivesse declarando sua prpria confiana nele, estava fazendo isto como despedida.
   - Obrigado, eu agradeo - disse ele. - Eu, ah, eu acho melhor ir. J passa do horrio. O carcereiro me fez um favor permitindo que eu atendesse sua ligao.
   No havia como saber quando ele ligaria outra vez.
   - Se voc tem que ir - respondeu ela. - Cuide-se, est bem?
   Repentinamente, por um momento, sua voz perdeu sua autopiedade e saiu da defensiva.
   - Voc tambm, querida - sussurrou. - Boa noite.
   Enquanto desligava o telefone, Erika decidiu ter imaginado o lapso momentneo. Profundamente sentida por suas vidas terem se separado, cada vez mais, ela ansiava
por estarem juntos como antigamente. Deus, como ajudaria na situao atual, pensou. Porm, aparentemente ele no desejava isso. Deixando a mensagem de Lindsay para
ouvir na manh seguinte, tirou suas jias e suas roupas. Um momento depois estava emborcada na cama, de angua e meia-cala, com suas lgrimas molhando seus caros
lenis de moir.

   Na manh seguinte, Annie estava passando mal outra vez. Reclamando que a fazia vomitar ainda mais, comeou a recusar a beber mesmo que fossem pequenas quantidades
de gua. Por ordem de Stephen, uma segunda bolsa endovenosa foi colocada no suporte de soro, para assegurar que ela recebesse a hidratao que necessitava e fosse
mantido o equilbrio de seus eletrlitos no sangue. Quando voltou para examin-la por volta de 15hl5, Jess estava agoniada.
   - No sei o que fazer por ela - disse, desesperadamente abraando a si mesma. - Ela  meu beb! E est se sentindo to miservel!
   V-la sofrer era demais para ele. Talvez ela tenha parecido riria, at mesmo inatingvel na noite anterior. Bem, quem poderia culp-la? Com uma criana to doente,
suas emoes deveriam flutuar. Ele sabia, por experincia prpria, como era sentir isto.
   Sem parar para considerar aonde isto poderia lev-lo, ele a abraou e apertou-a contra si.
   - Vai ficar tudo bem, Jess - Ele prometeu, sua voz sufocada. - Logo ela ter passado pelo pior dessa fase. E se sentindo melhor. Haver tempo para guloseimas,
amarelinhas e mergulhos nas pilhas de folhas de outono, antes que ela tenha que retornar para que possamos fazer o transplante.
   Deixando-se levar pela proximidade de seu abrao e com sua quase certeza de que um doador seria encontrado, Jess cedeu em sua crena de fazer com que as coisas
aconteam apenas por fora da vontade. Deixou-se acreditar, s um pouquinho, no impulso mgico, que seria como ele disse. Ao invs de um especialista altamente treinado
e cujo interesse nelas era puramente profissional, ele tornou-se apenas Stephen, o bondoso estranho que as ajudou no zoolgico, um homem a quem ela comeava a amar.
   - Eu no sei o que teria feito se voc no nos tivesse encontrado em Como Park e sugerido que vissemos para c - confessou ela. - Parece at que nosso encontro
estava escrito...
   Se no estivessem usando mscaras, Stephen a teria beijado na boca. Das profundezas de sua alma, ele queria mais do que j quis qualquer coisa desde a morte de
David.
   - Ah, Jess... - disse ele indefeso.
   Lindsay escolheu aquele momento para entrar no quarto. Avaliando a situao, ela fingiu no notar quando eles se separaram. Espere at eu contar para Frank, pensou
ela, baixando-se para ver Annie. Nosso bom amigo e vizinho est perto de recomear a viver outra vez. Vamos torcer que possamos ajudar esta linda garotinha a sobreviver.
   No final da semana, Annie tinha se animado mais do que Jess se atreveria a esperar. Levaria um pouco de tempo para sua medula ssea se regenerar como resultado
da quimioterapia, mas Jess reconhecia que poderiam esperar uma pausa do hospital, apesar de que teriam que estar visitando com freqncia os consultrios de Lindsay
e de Stephen.
   Infelizmente, ainda no tinham um doador. Apesar dos exames de Carolina, Rebecca e Adam terem chegado, bem como da resposta  consulta de Stephan ao banco de
dados de medula ssea da Austrlia, ningum parecia capaz de fornecer os trs ou mais antgenos de que Annie necessitava. Se no pudessem achar algum, seria apenas
uma questo de tempo para Annie adoecer outra vez. Ela precisaria de doses adicionais de quimioterapia e que era inevitvel tornarem-se cada vez menos eficazes.
   Na opinio de Jess, e Stephen concordava, os demais familiares dos Fortune, ainda no examinados, ofereciam a melhor esperana. Vrios deles, incluindo Allie,
filha de Jake e Erika, uma modelo e atriz que estabeleceu residncia no sul da Califrnia, bem como Rocky, o irmo gmeo de Allie, que era dono e dirigia um negcio
de resgate em Clear Springs no estado de Wyoming, concordaram em seguir a liderana de Lindsay e ter o sangue examinado no hospital local. Os resultados seriam enviados
para o laboratrio do Hospital Geral de Minneapolis.
   Apesar de chances serem essas, Jess mantinha-se esperanosa, como quando uma certa manh, em que recebeu como uma injeo de nimo Natalie, a filha recm-casada
de Erika e Jacob, no quarto da Annie.
   - Oi... Sou Natalie Dalton, sobrinha da Lindsay Todd, - anunciou-se. - Voc deve ser Jessica. E voc  Annie,  claro. Entendo que somos primas, ou algo parecido.
Voc me ligou da Inglaterra antes de vir para os Estados Unidos. Eu...ah, lamento no ter lhe ligado de volta mais cedo. Havia tanta coisa acontecendo na minha vida
naquele momento. Eu estava em um processo, um tanto cheio de obstculos, para conseguir um marido e um enteado de oito anos...
   Sobre a mscara que cobria seu lindo rosto, os olhos de Natalie estavam sorrindo.
   Jess tinha visto a breve nota no jornal de Minneapolis, anunciando seu casamento com o arquiteto Richard Dalton, e calculou que devido aos problemas de seu pai
teria sido uma cerimnia discreta. Ela sorriu tambm.
   - Parabns - Ela disse. -  muito bom quando as pessoas esto juntas e felizes. Esperava conhec-la.
   Sentando suavemente seu corpo esbelto na poltrona de napa, enquanto sua anfitri de cabelos negros se apoiava na janela, Natalie continuou, relatando que planejava
ter seu sangue examinado, antes de sair do hospital.
   - Lindsay explicou o quanto era crtico - explicou ela. - Eu ficaria feliz se fosse a escolhida para a doao de medula ssea que Annie necessita. Alm disso,
tenho outra coisa que talvez venha a lhe interessar...
   Procurando em sua grande bolsa pendurada no ombro, Natalie ofereceu o que parecia ser uma srie de cartas, amareladas pela passagem do tempo e pela umidade, como
se tivessem sido guardadas em local mido.
   - Meu enteado, Toby, encontrou-as sob uma tbua do assoalho solto na casa dos barcos. Eu diria que, mesmo que a carta que mostrou a Lindsay no venha a vingar,
estas devem documentar seu parentesco conosco.
   Lindsay ento se ofereceu para entrar em contato com Sterling, caso surgissem quaisquer problemas jurdicos, e ligou para ele.
   Apesar de o advogado ter ficado desconfiado de outro estranho estar reivindicando parentesco com a famlia Fortune, ele j tinha ouvido falar de Jessica e sua
filha doente, por outras fontes. Ele est bem ciente que ela havia se apresentado como neta de Benjamin Fortune -produto de um breve caso entre ele e sua av, durante
a Segunda Guerra Mundial - e de sua insistncia de que no queria um pedao da herana dos Fortune, mas to-somente sua ajuda para salvar sua filha.
   - Se voc acha que vale a pena olhar as cartas, pea a ela para traz-las a meu escritrio na sexta-feira por volta de 1 lh, - sugeriu ele sem entusiasmo. - Veremos
se podemos facilitar alguma coisa com o hospital ou talvez com o seguro.
   Aproveitando o momento, em nome de Jess, confirmou imediatamente o encontro para sua nova amiga e prima.
   Sterling ficou pensativo enquanto desligava o telefone. Ele no havia mencionado nada para Kate sobre as alegaes de Jessica Holmes.
   Agora, ela teria que ficar sabendo. Com a histria se espalhando pela famlia toda como uma fogueira sem controle, era provvel que viesse a pblico em algum
momento. Ainda assim, com Jake na cadeia, acusado de assassinato, e toda sua preocupao focada nele, ele se questionava como receberia esta revelao. Enquanto
Lindsay, Natalie e os outros pudessem achar charmosa a idia, de conhecer uma nova e desconhecida prima, a histria de Jessica despertaria amargas lembranas para
Kate da traio de seu marido.
   Por outro lado, ela poderia nem ligar. Nunca se sabia com ela. Pegando o telefone outra vez, discou seu nmero.
   Ela mesma atendeu, no segundo toque.
   - Alguma objeo em preparar uma bebida para um homem velho? - perguntou ele.
   Ele quase que podia ver seu largo sorriso.
   - Nenhuma, desde que voc policie sua linguagem -replicou ela, amigavelmente. - A palavra "velho" est proibida. J parei de contar os aniversrios.


   Captulo 6

   Ivete serviu o usque de Sterling - puro, do jeito que ele gostava, apesar de preferir o dela com um pouco de gua. Enquanto entregava a bebida e indicava-lhe
uma cadeira onde sentar, as luzes de Minneapolis comeavam a piscar sob as amplas janelas voltadas para o oeste.
   Para uma mulher cujo filho mais velho est na cadeia, acusado de um crime que no havia cometido e que por circunstncias fora de seu controle havia sido forada
a esconder-se da famlia que amava, sua aparncia era encantadora. Ela lembrava Katherine Hepburn em sua fase de maior sucesso e autoconfiana. E claro que algumas
linhas de sorrisos e preocupaes estavam presentes em seu rosto. Mas eram insignificantes. Afinal de contas ele era mais novo que ela uns dois anos. Sua ctis ainda
era bela, hidratada e com o frescor de uma rosa. Sob seu ponto de vista, ela continuava sendo a garota magnfica com quem Ben Fortune casou e que nem sempre mereceu.
   - Tenho uma histria para lhe contar e que voc poder no gostar - ele comeou.
   Ela pendeu seu corpo ligeiramente para frente, fazendo seus joelhos se tocarem.
   - Ento conte.
   Como sempre, foi objetivo e direto ao ponto. Ela o ouviu sem interrupo. Quando ele terminou, ela sacudiu a cabea com um ligeiro sorriso denotando arrependimento,
mas sem sofrimento.
   - Ben Fortune foi um grande filho da me, no foi? -suspirou ela. - No precisa se preocupar, querido. Para mim, seus pequenos pecados agora so guas passadas.
O que voc est planejando fazer sobre este assunto da Jessica e sua busca por medula ssea?
   O balanar de cabea de Sterling, demonstrando aprovao por sua vivacidade. assemelhava-se a uma continncia.
   - Uma vez que a vida de uma criana est em jogo, pensei em dar uma olhada nas cartas que ela tem - disse ele. - Natalie encontrou trs delas na velha casa dos
barcos que Ben costumava visitar. Se forem autnticas, no vejo motivo para deixar de ajudar como puder.
   - Quando e onde pretende se encontrar com ela?
   - Sexta pela manh, no meu escritrio, se ela puder ir.
   - Algum da famlia a estar acompanhando? Ele imediatamente adivinhou o plano dela.
   - Alto l, Kate... - protestou ele.
   Com um gesto, que ela provavelmente sabia que representava a morte de seu adversrio, cobriu as mos dele com as suas.
   - Deixe-me ter um pouco de diverso - pediu ela. -Mesmo que ela tenha visto minhas fotos, pensa que estou morta. Ela nunca viu sua secretria. Ademais, depois
de ter-me envolvido, nas minhas horas de folga, com a rapaziada do teatro St. Paul Laser, tornei-me adepta de disfarces. Ningum, alm de ns, saber.
   Ele, que no era o tipo de pessoa brincalhona, teve que se controlar para no ficar rindo quando Kate se apresentou no escritrio dele na torre Foushay, cerca
de 30 minutos antes da hora marcada com Jess. De um modo que ele tinha dificuldade de definir, mas que era extraordinria e devastadoramente eficaz, ela parecia
ter modificado as formas de sua aparncia. Seus lbios estavam comprimidos e havia uma elevao acima do nariz. No estava usando batom. Seu cabelo liso e puxado
para cima estava escondido sob uma peruca cinza e arrepiada.
   E isto no era tudo. Pela primeira vez em todos os anos que conheceu Kate, ela estava mal vestida. Sua saia e blusa, que no lhe caam bem, deviam ter vindo de
algum brech ou do estoque de fantasias do teatro.
   - Os culos do um belo toque - disse a ela, sabendo o quanto ela prefere lentes de contato.
   - Eu esperava receber notas altas por meus esforos. Que tal eu tomar um ditado s para praticar?
   Jess chegou pouco depois, sem saber dos subterfgios em andamento.
   Encaminhada por Kate  presena de Sterling, ela rapidamente concordou com a permanncia da secretria na sala, para tomar notas.
   Retirando as cartas da bolsa, entregou-as ao advogado.
   - A de cima  de Ben Fortune para minha av, Clia Warwick, que subseqentemente casou-se com George Simpson - disse ela. - Eu a encontrei entre os pertences
de minha me, aps sua morte. Seu nome era Lana. Se a informao contida na carta estiver correta, ento ela era filha de Ben. O que faria de mim sua neta e minha
filha Annabel seria sua bisneta. Estou certa de que Lindsay j lhe disse, Sr. Forster, que as outras trs cartas foram escritas por Lana para o Ben. Toby, o enteado
de Natalie Dalton, as encontrou em uma velha casa de barcos, do outro lado do lago, no lado oposto  propriedade dos Fortune.
   Jess permaneceu em silncio enquanto Sterling colocava os culos e lia as cartas, sem olhar para Kate, que havia rabiscado algumas notas em seu bloco de estenografia,
enquanto Jess falava, e agora aguardava com deferncia novas instrues.
   O processo levou vrios minutos. Quando finalmente terminou, ele perguntou a Jess se poderiam fazer cpias. Ela concordou de imediato.
   - Senhora... ah, Johnson, pode fazer o favor? - solicitou ele, dando as cartas a Kate.
   Aceitando-as, prontamente deixou a sala. Ela ficou ausente por bastante tempo. Jess comeou a imaginar se a copiadora estaria com defeito. Talvez houvesse necessidade
de a secretria trocar o cartucho de tinta da mquina e depois ir ao banheiro para limpar as mos.
   - Minha secretria habitual est de folga hoje - explicou Sterling, ao perceber seu ar de dvida. - A Sra. Johnson  uma temporria.
   Dando de ombros, sutilmente, Jess no o pressionou por uma opinio quanto  validade de seu pleito. Finalmente, Kate retornou, devolvendo a ele os originais e
as cpias. Enquanto o fazia com as costas voltadas para Jess, ele disfaradamente olhou para seu rosto. Seu ligeiro balanar de cabea confirmava que ela os considerava
autnticos. Ele havia acabado de receber luz verde para prosseguir.
   - Muito bem, Sra. Holmes - Ele disse, devolvendo os originais a Jess. - Creio que deve saber de antemo que considero suas cartas como autnticas. Fui informado
de que est em busca da medula ssea para sua filha... que no  seu desejo entrar com uma ao legal para obter participao financeira no esplio da famlia Fortune.
   - Isso est correto - replicou Jess, com um sbito n na garganta. - Graas s diversas aplicaes financeiras de meu finado marido, Annabel e eu estamos financeiramente
bem. Todavia, dinheiro no pode comprar medula ssea. E ela se encontra muito doente...
   Apesar de seus esforos para se manter serena durante toda entrevista, seus olhos se encheram de lgrimas.
   Sterling estava pronto para pedir que ela assinasse um documento abrindo mo de qualquer direito sobre o esplio da famlia Fortune, antes de concordar em ajud-la,
mas conteve-se quando Kate entregou a ela um leno de papel.
   Um momento depois, havia recobrado seu autocontrole.
   - Eu sinto muito - desculpou-se, com seu sotaque britnico. - Como pode ver, estou muito preocupada com ela.
   Kate tendo aprovado, Sterling no tinha nenhum problema em conversar com os membros da famlia. Na verdade, ele at gostou da bonita e jovem mulher inglesa a
quem seus avs no consultaram antes de praticar suas indiscries.
   - Ficarei feliz em fazer o que for possvel para ajudar, Sra. Holmes - Ele disse.
   Agradecendo profusamente, Jess levantou-se.
   - Eu gosto dela - disse Kate, relaxando, depois que ela havia se afastado o suficiente para no poder ouvi-la. -Ela tem coragem, vindo de to longe a um pas
estrangeiro para salvar sua filha. Digo que devemos fazer tudo que pudermos para ajud-la.
   Alguns dias depois, Stephen convidou Jess para jantar. Graas ao modo gentil, quase carinhoso, como a tratou desde seu abrao durante a fase mais aguda da reao
de Annie ao tratamento de quimioterapia, ela no se sentiu em desvantagem. A ttica dele, ao esperar at que as condies de sua filha tivessem apresentado uma melhora
suficiente que permitisse a ela passar algum tempo relaxando longe do hospital, foi muito bem recebida.
   - Eu ficaria muito feliz de jantar com voc, Stephen -respondeu ela ao seu convite, com os seus olhos castanhos brilhando com um prazer to sincero que lhe alegrou
o corao.
   Nenhum dos dois havia esquecido do beijo espontneo que teriam trocado se no estivessem usando as mscaras protetoras e necessrias para evitar transmitir infeces
para Annie, e se a Lindsay no tivesse escolhido aquele momento para entrar no quarto, segundos depois de Stephen haver tomado Jess em seus braos. Cada um deles
calculava que uma oportunidade mais apropriada para beijos surgiria na noite em que se encontrassem. Ambos aguardavam ansiosos.
   Ao invs de ir a seu encontro no hospital, Stephen foi encontr-la no hotel. Ela havia combinado encontr-lo no saguo, prximo  sua famosa fonte, decorada com
uma esfera suspensa de mrmore. Caminhando a seu encontro pela entrada principal, ficou sem flego quando ela levantou-se do banco onde estava sentada e surgiu radiante
em um conjunto Valentino vermelho, com uma saia relativamente curta que deixava  mostra suas pernas bem torneadas.
   - Voc est absolutamente linda esta noite... sabia? - Ele indagou, em voz baixa, absorvendo seu perfume com um cheiro, enquanto se atrevia a dar-lhe um leve
beijo no rosto.
   Para Jess, o contato carinhoso foi como um choque eltrico. Ela podia sentir o arrepio percorrer seu brao. Em nenhum momento, antes ou durante seu casamento
com Ronald Holmes, seu ex-marido jamais havia cheirado com tal fascnio de antecipao. Ela podia imaginar como seria fazer amor com o mdico, alto, loiro, vistoso
e aparentemente vigoroso, e que pelo menos esta noite estava definitivamente a seu alcance.
   - E voc est muito elegante em seu casaco e calas esporte, ao invs de seu uniforme de hospital - replicou ela, sem recuar um passo.
   Seus olhos azuis brilharam frente  disposio dela de prolongar seu leve abrao. No havia garantias de que algo mais ntimo pudesse ocorrer entre eles naquela
noite, ou no futuro, mas ele sentia que Jess no teria nenhuma averso a isto. Desde que a conheceu, todas as impresses que teve dela, exceto por uma na noite em
que estava excessivamente preocupada com Annie, o levavam a crer que ela era, tanto emocional como fisicamente, carinhosa.
   - Voc gostaria de deixar o carro aqui no hotel e ir andando at o restaurante? O clima est timo e fica apenas a uma pequena distncia.
   O local que ele havia escolhido, um bistr estilo francs onde, pelo que ela tinha ouvido falar, serviam uma refeio maravilhosa, estava localizado no andar
trreo do complexo da torre Foushay, onde havia visitado Sterling Forster em seu escritrio. Uma mesa isolada, com um banco lateral estofado em couro e prxima a
uma das janelas, havia sido reservada para eles.
   Jess gostou da escolha - o bar resplandecente, o eco proveniente dos andares dos terraos e a decorao dos anos 30, e at o alarido das conversas e a movimentao
apressada dos garons em seus aventais brancos. Suas bochechas coraram com um brilho, enquanto sentavam-se. Ela apenas ouvia parcialmente o que era dito, enquanto
o garom recitava os plats dujour e os convidava a rabiscar  vontade, com crayons a toalha de papel da mesa que haviam sido fornecidos para quando estivessem tomando
a bebida e aguardassem a chegada do seu pedido.
   Sonhadora e apoiando o queixo na mo, quando o garom retornou com seu bloco e lpis, solicitou a Stephen que pedisse por ela. Ele o fez com prazer, tendo pedido
coq au vin, que era uma das mais conhecidas especialidades do bistr. Tinha algo nela que fazia aflorar seu veio protetor, mesmo quando a admirava por sua coragem
e silenciosa fora ao lidar com a doena de Annie.
   Uma sombra cruzou seu alegre estado de esprito ao considerar que, apesar de suas habilidades como mdico, sua capacidade de proteg-la da coisa que ela mais
temia era, na melhor das hipteses, parcial. Apesar de haverem tentado tudo que era do conhecimento da cincia, ele e o exemplar oncologista que foi o principal
mdico de seu filho no foram capazes de salvar David.
   - Ento... - disse ele, forando as lembranas de perda a se dissiparem para no estragar a noite. - Voc sabe algo sobre mim, pelo menos o que fao na vida.
Fale-me sobre voc, como era sua vida na Inglaterra.
   Jess contou sobre ter sido criada em um subrbio de Londres, seus dias na universidade, sua carreira at a presente data em um banco de investimentos de uma empresa
em Londres e seus finais de semana na cabana em Sussex, que foi herdada de sua me e que tanto ela como Annie amavam.
   As saladas chegaram, seguidas do coq au vin que estava to macio que se soltava do osso. A pedido dele, continuou seu monlogo, tocando brevemente em seu casamento
com Ronald Holmes e no fato dele haver falecido em um acidente de carro, sem fazer aluso  infidelidade que havia prejudicado sua unio, praticamente desde o incio.
   - Isto deve ter sido difcil... perder seu marido e logo depois ficar sabendo da leucemia da Annie - comentou Stephen.
   Ele nunca saber o quanto foi difcil, pensou Jess. Ela deu de ombros.
   - A vida pode ser assim.
   Um breve silncio transcorreu, durante o qual ele percebeu que sua curiosidade sobre um dos aspectos de sua vida no tinha sido satisfeita. Decidiu aproveitar
o momento e perguntar.
   - Quem  Herquie? - Ele indagou.
   Jess o fitou surpresa, ento riu, marcando os lados da boca com uma cova.
   -  o scotch terrier de Annie, Herkimer McTavish III -respondeu ela, sem saber o quanto ele ficou satisfeito ao tomar cincia da existncia do co. - Eles so
muito amigos e ela sente muito a falta dele. Ela tem falado nisso bastante.
   Como sobremesa, pediram caf e clair de chocolate. Por fim, dado o horrio da manh que Stephen normalmente comparece ao hospital, nenhum deles conseguiu arranjar
uma desculpa para prolongar o jantar.
   Deram-se as mos enquanto caminhavam as quatro quadras que separava o restaurante do hotel. Enquanto passeavam, seus ombros se tocavam. Seus olhos se encontravam
a toda hora. Suas bocas curvadas com o prazer da companhia um do outro. Porm, ambos sabiam da fragilidade de um sbito aprofundamento deste relacionamento, um inesperado
contentamento que era. Uma palavra errada, um movimento errado, poderia arruin-lo. Imersos que se encontravam no fulgor ardente de um romance amistoso, cada um
tinha perguntas ainda no feitas.
   Antes que estivessem prontos para faz-las, chegaram  entrada to claramente iluminada do hotel. Eu devia ter-lhe dado um beijo de boa noite na penumbra de algum
prdio escuro onde, para nossa alegria, poramos ter-nos abraados sem uma platia, Stephen dizia para si mesmo enquanto o porteiro uniformizado lanou-lhes um sorriso
reservado aos enamorados e manteve aberta para eles uma das imensas portas de vidro.
   Venha para casa comigo esta noite, ele ansiava por implorar. Estou ardendo de vontade de fazer amor com voc. Sabia que era cedo demais para isto. Era fcil ver
que Jess no era o tipo de mulher para manter casos eventuais. E eles ainda estavam se conhecendo.
   - Bem... - murmurou ele, enquanto faziam uma pausa, prximos a um vaso de palmas, e ele pensava se devia ou no beij-la no saguo ou sugerir acompanh-la a seu
quarto. Nenhuma das duas alternativas lhe pareceu boa. Se escolhesse a ltima, ela poderia se sentir pressionada para convid-lo a tomar uma ltima bebida.
   Ele daria boa noite com um beijinho na bochecha. Ou, pior que isto, um aperto de mos. Afinal, aquela ajudante de enfermaria tinha razo, pensava Jess, atormentando-se.
Ele no est disponvel.
   Apesar dela estar desanimada e preocupada que seu primeiro encontro viesse a ser o ltimo, teve a presena de esprito de deixar suas mos descansar nas dele.
   - Eu tive timos momentos com voc esta noite, Stephen. Muito obrigada por me haver chamado...
   Ele seria louco se deixasse a noite terminar deste jeito. Ele, pelo menos, a beijaria, e em um ambiente que permitisse um mnimo de privacidade.
   - Voc se incomodaria de vir aqui comigo por um instante? - disse ele, levando-a para um pequeno saguo pouco usado e fora da rea do saguo principal e que deveria
estar vazio a esta hora.
   Para seu alvio, todas as mesas do saguo estavam vazias. Uma nica lmpada tinha sido deixada acesa.
   - O... que ? - Jess perguntou, subitamente preocupada que ele fosse dizer alguma coisa negativa sobre as possibilidades de Annie.
   Ela mal conseguiu pronunciar as palavras, antes que sua boca encontrasse a dela. Sua lngua separou seus lbios, de modo to vigoroso e amoroso que tocou fundo
em sua alma. Braos fortes arrastaram-na contra uma parede de msculos.
   Tendo este momento sido imaginado tantas vezes, enquanto permanecia ao lado da cama de Annie no hospital, seu beijo afundou Jess em um redemoinho de paixo e
prazer to intenso que ela teve a impresso de que seu corpo todo derreteria. Ela no sabia que neste mundo existisse sentimento to profundo. Que pelo menos a metade
disto estaria fluindo dela, somente tornou sua descoberta bem mais vibrante. Nunca antes um homem fez com que ela desejasse dar-lhe tudo, sair de seu esconderijo
e compartilhar com ele sua mais ntima luxria, seus segredos mais profundos. Deixava-lhe confusa o fato de que uma pessoa que lhe pareceu com tanto autocontrole
e hesitante de se envolver seria to vigorosamente viking e precipitado ao fazer amor.
   Que delicioso, como se sentia mulher! Com um leve gemido que dava a entender o quanto estava indefeso, Stephen colocou as palmas das mos em suas ndegas, por
cima de seu vestido vermelho, e puxou-a para mais prximo de si. Era como se a seca dos ltimos dois anos tivesse terminado numa tempestade, com uma vasta descarga
de uma necessidade que encontrava terreno frtil, ao invs de ressecado. Do ntimo de seu ser ele ansiava extasiar e proteger.
   Naquele abrao ntimo, Jess pde sentir o quanto ele estava excitado, pressionando seu corpo contra o dela. Camadas de roupas os separavam. Mesmo assim, seu corpo
respondeu, estremecendo em uma exploso de desejo e de entrega por ele.
   Subitamente, estava terminado. Um funcionrio do hotel, armado com um aspirador de p e outros equipamentos de limpeza, havia entrado, murmurou uma desculpa rpida
e se retirou, mas no antes que eles houvessem notado sua presena. A pequena distrao foi o suficiente para trazer Stephen de volta a seus sentidos.
   - Jess... desculpe-me - sussurrou ele, mantendo-a em um abrao protetor. - Eu no devia ter perdido o controle.
   Ela o olhou com as pupilas dos olhos engolindo suas ris, revirando-os. As palmas de suas mos continuaram repousando em sua lapela.
   - Me parece, Stephen - Ela disse, com seu sotaque britnico perfeitamente modulado -, que ambos perdemos. E quanto a se deveramos ou no,  uma questo de opinio.
   Com a paixo cedendo, apesar de que necessitaria apenas de um ligeiro estmulo para reacend-la, surgiu um sentimento de gratido e admirao. Os cantos de sua
boca viraram-se para cima.
   - Pessoalmente, acho que o que acabamos de fazer juntos foi maravilhoso - confessou ele, to enfaticamente que a fez sorrir tambm.
   - Eu gostaria que continussemos a nos encontrar, isto , se voc estiver disposta e no considerar isto um conflito de interesses por eu ser o mdico de sua
filha.
   Ele no se afastaria dela. Eles se encontrariam. Sendo este o caso, ela no tinha a mnima dvida de que se tornariam amantes, apesar de que em seu ntimo sentia
que ainda havia barreiras a serem transpostas.
   - Eu tambm gostaria - respondeu ela.
   - Ento est acertado. - Beijou-a outra vez, com uma moderao conquistada com dificuldade e sentindo-se muito feliz. Um momento depois, afastou-se para colocar
um brao em torno de sua cintura. - Vamos, querida, como no confio em mim mesmo, vou lev-la at o elevador.

   Jake estava com sorte. O juiz designado para sua audincia preliminar conhecia Sterling h anos. Apesar de no serem amigos, freqentavam o mesmo crculo social.
Em pocas distintas, ele e o advogado da famlia Fortune freqentaram a mesma universidade e se formaram na mesma escola de advocacia. Ele tambm conhecia a reputao
de Jake e, em primeira mo, seus laos com a comunidade.
   Conhecia tambm Aaron Silberman, com quem no tinha amizade, mas pelo menos o respeitava por suas proezas jurdicas. Ele ouviu a contestao do advogado criminalista
com muita ateno, alegando que, por si s, as evidncias circunstanciais colhidas pela Promotoria no eram suficientes para que o caso fosse levado a julgamento,
bem como de que Jake teria muito a perder se sasse do estado sob fiana, sendo mais especfico seu relacionamento ntimo com seus filhos e sua posio como executivo
das Indstrias Fortune.
   Como era direito seu, o assistente da Promotoria do condado que havia sido designado para o caso apresentou sua rplica, repetindo os argumentos que havia apresentado
na audincia de acusao. Alm disso, argumentou que, de um homem que havia assassinado uma vez, poder-se-ia esperar que fizesse algum mal fsico outra vez e, portanto,
deveria ser mantido atrs das grades.
   Finalmente, foi a vez de o juiz falar. Ele rapidamente julgou que o estado havia reunido evidncias suficientes para que um julgamento fosse realizado. Um tanto
relutantemente, frente a tais evidncias, ele havia decidido aquiescer com o pedido de fiana do advogado de defesa.
   - Estou estabelecendo a fiana em 1 milho de dlares - ele alertou Jake, implacavelmente. - Ser requerido que voc se mantenha dentro dos limites do municpio
de Hennepin, at seu julgamento. Qualquer tentativa de se evadir desta jurisdio ser vista como um crime. Em tal caso, voc voltar para a cadeia imediatamente.
   Atordoado, Jake olhou para Aaron Silberman e para Sterling. Estava ele realmente livre? O advogado da famlia balanou a cabea. Um momento depois, usando roupas
comuns pela primeira vez aps sua priso, Jake estava evitando perguntas de reprteres, enquanto caminhava com os dois homens, da cmara do juiz para um corredor
ao lado. Seus filhos e netos o aguardavam. Para sua surpresa, Erika estava l tambm, mantendo-se ao fundo, como convinha  sua separao. Ele ficou constrangido
e comovido.
   Natalie, sua filha que havia chegado  propriedade da famlia, em frente ao lago, na noite do assassinato em tempo de ver sua camisa rasgada e ensangentada e
havia mantido sua promessa de nunca contar a ningum, exceto a Sterling, do que ele havia balbuciado em seu estado de embriaguez, sobre seu confronto com Mnica,
jogou-se em seus braos.
   Ambos piscaram sob a luz intensa dos flashes dos fotgrafos.
   - Preparei seus biscoitos favoritos, papai - informou a ele, com lgrimas nos olhos e virando o rosto para longe das cmeras e microfones que estavam virados
sobre eles. - Biscoitos de chocolate e pasta de amendoim. Eles esto esperando por voc em casa.
   Seguiram-se os cumprimentos das demais crianas. Finalmente foi a vez de Erika. Chegando-se  frente com certa hesitao, protegeu seu rosto das fotos que ainda
estavam sendo tiradas enquanto oferecia sua mo a Jake.
   - Estou muito contente que tenha sado - disse ela em voz baixa enquanto ele tomava sua mo e com emoo apertava-a firmemente. - Voc no pertencia quele lugar.
Eu... s queria dizer que acredito piamente em sua inocncia. Se houver qualquer coisa que eu possa fazer para ajudar, por favor, no hesite em pedir.
   Agradecendo, em baixo tom, saboreou seu cheiro familiar, seu belo rosto, que ele amava, e seus lindos cabelos loiros e lisos. Como sentiu sua falta! Eles construram
uma vida e tiveram filhos juntos. Apesar de seus problemas, que foram grandes, ela ainda era tudo que ele queria em uma mulher. Infelizmente, no momento, ele tinha
muito pouco a oferecer a ela.
   Aparentemente, ela concordou com sua avaliao da situao. Durante um segundo ou dois que levou para responder a uma pergunta feita por Aaron Silberman, pde
perceb-la se afastando em direo  sada. Aparentemente, ela no estaria presente na festa de boas-vindas que Caroline informou que Natalie, Adam e seus respectivos
pares planejavam dar, na casa do lago Travis.
   Satisfeito por estar livre da humilhao e do confinamento da cadeia, sentiu uma pontada de arrependimento. Sem Erika, sentia que sua vida estava vazia. No lhe
ocorreu que ela poderia estar esperando que ele desse algum passo em sua direo.
   De sua parte, enquanto se afastava, Erika pensou haver sentido em Jake um ligeiro enternecimento, em relao a ela e seu abalado casamento. Mas no podia ter
certeza. Acontece que ela no foi a nica a sentir tais vibraes da parte dele. Naquela noite, durante uma conversa telefnica com Adam, seu vistoso filho mais
velho, disse-lhe haver sentido da mesma forma.
   - Me, eu sei que papai no demonstra, devido  vergonha que sente com esta confuso toda - disse ele, numa voz incomum que soou em seus ouvidos como a do pai
dele. - Mas eu estou convencido de que ele est arrependido por vocs terem se separado. Honestamente acredito que ele vai tentar corrigir isso, uma vez que tenha
conseguido limpar sua ficha. Alm da acusao de assassinato pendurada sobre sua cabea, o que aconteceu com vocs dois no  muito divertido para nenhum de ns.
Mas eu prevejo que vamos sair intactos, como uma famlia, e nos tornaremos mais fortes ainda.
   No dia posterior  sada de Jake da cadeia os cabelos de Annie comearam a cair em mechas. Apesar de Jess ter sido avisada de que isto aconteceria e de fato j
haver notado ligeiras perdas de fios de cabelo na escovao, no estava emocionalmente preparada para algo to drstico. Contendo sua prpria aflio, procurou se
mostrar forte e calmamente preparou Annie para quando olhasse no espelho e visse uma cabea careca coberta com penugem de beb, ao invs de seus cachos at os ombros.
   Outros membros da famlia Fortune haviam passado pelos exames, sem resultados. Mesmo assim, as notcias no eram de todo deprimentes. Pra surpresa de Jess, bem
como de Stephen, a medula ssea de Annie havia se regenerado muito mais rpido do que esperavam. Apesar de que, com o tempo, podia-se esperar que a leucemia voltasse
a provocar uma profuso de clulas imaturas que falhariam em proteg-la de infeces, por algum tempo ela estaria suficientemente bem para brincar, como outras crianas.
Se tudo corresse conforme o esperado, ela poderia sair do hospital at o final da semana.
   Stephen no havia mencionado ainda, mas ele estava determinado a resolver um problema que ela ainda no havia enfrentado. Tanto ela como Annie precisavam permanecer
em Minneapolis, perto dele, de Lindsay e do hospital at que um doador fosse encontrado. Mas no teriam que permanecer no hotel. Com isto em mente, ele tomou a iniciativa,
no autorizada, de buscar a ajuda de Lindsay para achar acomodaes mais apropriadas para elas.
   Lindsay sugeriu perguntar a Sterling se Jess poderia usar o chal de hspedes na propriedade do lago Travis, o que lhe pareceu perfeito. Se pudesse ser arranjado,
estariam bem prximos, na estrada que leva  sua casa.
   - Voc realmente acha que  possvel? - perguntou ele.
   Os dois estavam na sala dos mdicos, onde ela havia reagido com desconfiana quando comunicou da busca de Jess para salvar sua filha e pediu sua ajuda. Desta
vez, Lindsay era uma aliada dedicada.
   - No vejo porque no - respondeu lentamente. - O chal foi construdo a alguma distncia da casa. A presena delas no deve incomodar Jake.
   - E quanto ao mobilirio?
   - L tem tudo o que precisaro, incluindo pratos e talheres. O chal  de um tamanho perfeito para elas. Tem dois quartos, uma sala de estar, banheiro e kitchenette.
 claro que terei que pedir...
   De acordo com os termos do testamento de Kate, a propriedade no lago Travis, que inclua o chal, alm da casa principal, fora deixada coletivamente para seus
filhos. Sterling ficou responsvel pela administrao de seu uso. Quando Lindsay levou o assunto para ele, o advogado no tinha nenhuma objeo a fazer desde que
Jake concordasse.
   Imerso no sofrimento de seu notrio julgamento que se aproximava, Jake permaneceu mais ou menos protegido na manso da famlia desde que fora posto em liberdade,
para evitar o assdio da mdia. Ele no estava entusiasmado com a idia de algum usar a propriedade. Todavia, ele era basicamente uma boa pessoa, que faria o que
pudesse por outros, menos afortunados que ele, independente de seus problemas, desde que emocionalmente no lhe desgastasse demais. Aps considerar o assunto por
um dia ou dois, disse a Sterling que no fazia objeo desde que Jess mantivesse distncia.
   Naturalmente, o advogado verificou o assunto com Kate tambm. Ele no ficou surpreso quando ela deu sua aprovao. Mais tarde, naquele mesmo dia, Lindsay pde
oferecer o chal para Jess.
   - Verdade mesmo? - perguntou Jess, com seus olhos brilhando. - Uma pequena casa onde pudssemos viver at que tenha terminado o transplante de Annie e ela ficar
bem outra vez, seria uma ddiva dos cus! Tenho pensado em procurar uma, mas no sabia por onde comear. Lindsay deu um de seus doces sorrisos.
   - Eu verifiquei com o advogado da famlia e ele  seu sem nenhuma cobrana e pelo tempo que precisar - confirmou ela. - Stephen se ofereceu para lev-la at l
para dar uma olhada.
   Uma vez que Jess j havia devolvido seu carro alugado h bastante tempo, por considerar uma despesa no necessria, tendo passado a usar txi entre o hotel e
o hospital, uma carona seria necessria. Naquela tarde, quando falou com Stephen sobre a oferta de Lindsay em relao ao uso do chal, ele repetiu, pessoalmente,
seu oferecimento.
   - Porm, estou faminto - disse com um sorriso. - Vamos sair e comer alguma coisa, antes. Depois, a levarei, e poder ver minha casa e a de Lindsay. Ns moramos
no lago tambm... na mesma estrada da propriedade dos Fortune. Quando voc se mudar para o chal, nos tornaremos vizinhos. Poderei ficar de olho em voc.
   Semelhante ao jantar no bistr de estilo francs, a refeio foi composta de sopa de aspargos com caranguejo, seguido de picadinho de camaro assado com pedaos
de cana-de-acar e que saborearam em um pequeno restaurante vietnamita localizado prximo ao hospital. Foi delicioso. Aps a refeio, a viagem at o lago Travis
levou cerca de meia hora.
   Passaram primeiro por sua casa. Ao diminuir a marcha para observar, na penumbra, Jess teve a impresso de que era um local deserto. Construdo em estilo moderno
e em ngulo, com uso de muita madeira natural, era suficientemente grande para ter pelo menos quatro quartos.
   Sabendo que ele era divorciado, repentinamente comeou a imaginar se alguma criana de seu casamento anterior vinha visit-lo em finais de semana.
   - Acaba de me ocorrer que no sei muito de sua vida pessoal - disse ela ao passar em frente  residncia mais tradicional de Lindsay. - Dado seu fcil relacionamento
com Annie, no posso evitar de pensar se voc teria seus prprios filhos.
   Apesar de ter estado pronto para responder com um seco no, conteve-se. O que aconteceu com o filho dele nada tinha a ver com ela. Porm, ele no podia evitar
sentir a antiga culpa que Brenda havia instilado nele, em relao s suas longas horas de trabalho. Apesar de no ter sido isto que havia provocado a doena de David,
deu causa a que perdesse preciosos momentos com o menino, momentos que jamais poderiam ser substitudos.
   - Lamento dizer que no tenho - finalmente admitiu. -Acho que se poderia dizer que no ter filhos  uma de minhas maiores frustraes. Todavia, eu provavelmente
no daria um bom pai, devido a minhas horas de trabalho.
   Apesar dela querer discordar, algo no tom de sua voz dizia a Jess para no insistir no assunto.
   J estava escuro quando finalmente chegaram  propriedade dos Fortune, e Stephen liberou o porto de entrada com o carto que Lindsay havia fornecido. Meu av
morava aqui, pensou Jess, dando uma olhadela na grande casa branca, atrs das rvores, e que havia visto apenas em fotos. E pensei sobre minha me, a criana a quem
minha av no permitira que ele conhecesse. Como eu gostaria de v-la e passear pela casa sobre seus passos.
   No era para ser. Segundos depois, seguindo as instrues de Lindsay, estavam virando  esquerda, em direo contrria  manso que Ben Fortune havia construdo,
atrs de rvores, arbustos e altos e nodosos carvalhos. Logo depois estavam estacionando na frente do chal pintado de branco, o qual, com seus beirais com braos
de lampadrios e pares de janelas com toldos, refletia o desenho tipo italiano da casa principal.
   Stephen tinha a chave. Ao sarem da Mercedes e andarem os poucos metros que os separavam da varanda, seus sapatos trituravam os seixos do tamanho de ervilhas.
   A eletricidade no tinha sido desligada no quadro de luz e foram capazes de acender uma lmpada na sala de estar. Moblia bem estofada, piso de madeira com tapetes
orientais, e uma pequena lareira de tijolos, com um desenho Audubon pendurado sobre o console da lareira. Havia livros. Almofades e lenha, muito bem empilhada,
para a lareira.
   -  muito acolhedor - Jess sussurrou enquanto Stephen tirava seu casaco esporte e o colocava sobre uma cadeira. -Como uma casa de verdade, pronta para mudar.
Annie vai adorar ficar aqui.. .
   As luzes na cozinha tambm estavam funcionando. Revelavam um piso de cermica, preto e branco, uma geladeira e um fogo um tanto antigos e armrios pintados de
branco, com portas de vidro na parte superior. Uma mesa e quatro cadeiras haviam sido colocadas sob uma luminria estilo Tiffany no canto destinado ao caf da manh.
   Terminou, no cmodo onde Stephen calculou seria o quarto de Jess, sua sorte com a iluminao. Tateando no escuro, conseguiu acender uma luminria, somente para
ouvir o barulho da lmpada queimando, como resultado de uma pequena sobrecarga eltrica.
   - Talvez tenha uma de reserva na gaveta da mesa -Jess sugeriu detrs de seu ombro esquerdo.
   Ao invs de abrir a gaveta para tatear em busca de uma, Stephen virou de frente para ela. Seus olhos se encontraram, brilhando na pouca luz que vinha do corredor
Segundos depois, estavam nos braos um do outro, sua boca comprimindo a dela.


   Captulo 7

   Era o que ela vinha querendo desde seu beijo no saguo vazio do hotel e tambm, de um modo diferente, durante a maior parte de seus anos de adulta. Esta liberdade
desenfreada, este desejo de convergncia com o fundo da alma de outra pessoa. Mesmo assim, na medida em que se entregava totalmente ao abrao do Stephen, ofegando
com prazer  busca de sua lngua e  obstinada presso de seu desejo contra ela, Jess sentia que ainda havia barreiras a serem transpostas. A menos que ele as revelasse
e fossem capazes de lidar com elas, ela poderia se ver retornando  Inglaterra sem ele, quando Annie ficasse boa outra vez.
   Talvez eu esteja no caminho errado, pensou ela ardentemente, com a humilhao que sofrer com o Ronald Holmes ainda fresca em sua memria, apesar dela esperar
que tal fato tivesse deixado de ser um fator em seu processo decisrio. Se for, vou me arriscar. Stephan vale o risco.
   Para o mdico de lisos cabelos loiros, que as tinha ajudado naquele dia no zoolgico, o pequeno suspiro de deleite e aceitao que escapou dela, enquanto aprofundava
seu beijo, foi como se querosene tivesse sido derramado numa chama. Nunca, em todos os seus anos de homem adulto, com seu casamento falido e seus profundos anseios
emocionais, ele quis tanto uma mulher. Nunca ele desejou com tanto sentimento de ambivalncia querendo extasiar e proteger.
   - Jess... Ah, Jess... - gemeu ele, suas mos capazes de cirurgio remexendo como um colegial nos botes de sua delicada blusa. - Estou louco por voc, ser que
voc no percebe? Faa-me parar se voc no quiser o que vamos fazer. Porque eu no vou poder parar.
   -Acredite em mim, eu quero! Embevecido por ela, com tanta paixo por seu elegante sotaque britnico, sua concordncia s fez intensificar seu desejo. Seus lbios
separaram-se, seus olhos azuis se fecharam pela metade enquanto a olhava se desabotoar e depois ajudou-a a retirar a blusa de seus ombros.
   O gancho da frente de seu soutien veio a seguir. Uma batida de corao depois e ele tambm tinha sido jogado ao lado, permitindo que seus pequenos e bem formados
seios se derramassem em suas mos. Ele gemeu frente  sua maravilhosa delcia enquanto seus bicos se arrepiavam com excitao, sob seus dedos.
   De alguma forma, que ela no sabia exatamente como veio a acontecer, Jess se encontrou sentada na beira da cama, com seu vestido levantado at os quadris. Stephen
ajoelhou-se  sua frente, envolvido por suas cochas. Baixando a cabea, tomou o bico de seu seio esquerdo na boca, sugando-o com intensa generosidade.
   Tremendo de prazer com o que sentia, Jess apoio seu rosto contra seus cabelos. Ele reagiu excitando o outro bico dos seios dela, at ficar retesado e ereto. Correntes
de prazer precipitaram-se sob sua pele. Era como se um telgrafo ertico estivesse conectado entre seus mamilos excitados e as profundezas femininas onde ela mais
o queria. Ela podia senti-las aquecendo e se abrindo, clamando para serem preenchidas por ele.
   - Tire sua gravata... sua camisa, Stephen - ela pediu, ajudando a lidar com os detalhes, para libert-lo da camisa para que pudesse meter a mo abaixo de seu
cinto. - Eu quero toc-lo... em todos os lugares.
   J fazia bastante tempo desde que ele quis tanto a algum, mais tempo ainda desde quando sexo e amor estiveram juntos. Apesar de j estar em tempo de prosseguir
e reaprender a amar, a morte de David ainda estava cravada em seu corao, como se fosse um monumento cravado com espinho. Sob a spera luz deste estado mental melanclico,
aprender a cuidar de algum novo, uma mulher cuja filha tambm poderia estar morrendo, pareceu-lhe uma insensata loucura.
   Voc  o mdico responsvel por salvar a vida de Annie, disse a si mesmo. Voc sabe as probabilidades e as crises que podem surgir. Se voc falhar com Annie,
ser parcialmente culpa sua. Jess no vai querer olhar para voc outra vez, mesmo que ela no venha a lhe culpar.
   De qualquer forma, ela estar retomando para a Inglaterra... Seminua em seus braos, Jess sentiu a mudana como um vento frio, uma terrvel massa de nuvens cinzentas
chegando para bloquear a luz do sol.
   - O que est errado, Stephen? - perguntou preocupada, pousando suas mos sobre seus ombros. - Foi algo que eu fiz? Voc no quer fazer amor comigo?
   Ela merece algo melhor, ele reconheceu. Eu gostaria de poder dar-lhe. Mas no posso agora, no neste momento. Levantando-se, virou-se de costas para que lhe fosse
dada uma oportunidade de se recompor.
   Arrasada pela humilhao, frustrao e o que comeava a sentir como ultraje, Jess apressadamente prendeu o soutien, vestiu sua blusa e levantou-se.
   - Voc no vai explicar? - perguntou ela em baixo tom.
   - Nem por um momento pense que eu no lhe queira -disse ele, afinal. - Eu provavelmente lhe quero desde o dia em que nos conhecemos. Mas eu estava errado em deixar
isto acontecer, especialmente agora. Restries ticas, com base em minhas obrigaes para com Annie, impedem o caminho. Espero que possamos ainda continuar amigos...
jantar juntos outra vez.
   A palavra indisponvel retumbava na cabea de Jess como uma zombaria em refro.
   Recobrando seu controlado porte britnico que tinha sido parte e resultado de sua criao, ela alisou seu cabelo desajeitado, e pegou sua bolsa, preparando-se
para retornar ao hotel.
   - Voc est certo,  claro- concordou ela, sem saber que estava dando mais uma espetada de dor em seu corao. - Provavelmente, seria melhor que no nos envolvssemos.
Eu estava errada em deixar que qualquer pessoa ou qualquer coisa distrasse minha ateno de Annie quando ela a necessita desesperadamente.

   Trajando um corpete transpassado de seda vermelho, que combinava com seu porte pequeno, Kate andava impaciente em seu apartamento de cobertura. Tendo passado
incgnita por uma semana, na Califrnia, onde havia nadado em uma piscina particular rodeada de montanhas, cavalgado um cavalo premiado da raa appaloosa pelos desfiladeiros
do Parque Nacional Joshua e pilotado um avio leve do tipo Piper Cub sobre as cachoeiras em Carmel, retomou, sem que tivesse minorado sua inquietude e frustrao.
Seu filho mais velho tinha sido acusado de assassinato. Os negcios que Ben tinha com Mnica estavam envolvidos de alguma forma.
   Chega de trabalhar atrs dos bastidores, decidiu ela, s faltando enfatizar sua deciso batendo os ps com seus sapatos caros. Quero ajudar na linha de frente.
Certamente, existem evidncias a serem procuradas, que levariam a polcia na direo certa, e que eu posso encontrar.
   Tendo se decidido, discou o numero de Sterling.
   - Preciso falar com voc - disse ela, em um tom que no admitia contradio.
   Aps um longo dia e o cansao invadindo seu corpo de 64 anos, o advogado tinha acabado de tomar um demorado banho quente. Ele estava descansando na poltrona,
em seu roupo de banho, com um conhaque ao lado.
   - Esta noite? - perguntou ele, na esperana que pudesse esperar at a manh seguinte.
   - O mais cedo possvel.
   Ele conteve um suspiro. Desde que ela havia fingido estar morta, com o apoio e a aprovao dele, havia feito questo de sempre conversar com ela pessoalmente,
ao invs de usar o telefone.
   - Estarei a em meia hora - prometeu ele.
   Ela ainda estava andando pelos quatro cantos da sala de estar, naturalmente iluminada pelo cu, atravs das clarabias, quando ele se permitiu entrar usando sua
prpria chave.
   - Obrigado por ter vindo, meu velho querido - exclamou, dando-lhe um afetuoso abrao e demonstrando certo alvio.
   Aps um cheiro de seu perfume e uma infuso de sua famosa energia, ele j estava menos inclinado a lamentar ter que desistir da solido de sua espreguiadeira.
Infelizmente, ainda teria que dirigir at em casa, aps o trmino de suas conversas. Apesar da intimidade que tinham e que s continuara a crescer, aps a morte
de seu marido, ele nunca se aventurou a passar a noite.
   - De nada - gracejou ele, com um trao de seu mau humor, ciente de que ela o conhecia muito bem. - Suponho que voc ainda est no horrio da Califrnia. Diga-me,
o que est lhe incomodando.
   Para seu dissabor, ao invs de repor o conhaque que ele havia se servido, antes dela ligar, ofereceu caf que, por certo, devastaria sua noite de sono.
   - Estou cheia desta coisa toda - respondeu ela, quando ele recusou o caf, sem propor um substituto. - Este disfarce. Jake preso. E eu quero ajudar.
   Ela estava considerando uma reapario prematura. De alguma forma, ele teria que impedi-la. Mnica estava morta e Jake no a havia matado. Portanto, um assassino
estava  solta, bem possivelmente o mesmo que havia arquitetado o acidente de avio de Kate, na selva brasileira. Se ele ou ela ficasse sabendo que Kate no havia
morrido...
   - O que voc est pensando  simplesmente perigoso demais. Quem quer que tenha contratado aquele assassino para mat-la poder estar envolvido nisto tambm.
   Ela descartou suas preocupaes, abanando uma das mos enfeitada com rubis do leste da ndia, que Ben lhe havia presenteado para amortecer alguma violao de
seu pacto de casamento.
   - Minhas crianas precisam de mim - afirmou ela.
   - No  custa de lhe perder de vez - Sterling alertou. -Por Deus, eles so adultos. Voc mesma disse... eles precisam de uma cutucada e corda suficiente para
se enforcarem ou realinharem suas vidas, de um modo que nem sequer haviam comeado a contemplar. At agora, ningum foi condenado por nada. Se depender de mim, Jake
tambm no ser.
   Desta vez ela no interrompeu.
   ~ Estranho como possa parecer - Ele adicionou -, acredito que esta crise ir transform-lo. Ele sempre esteve descontente com seu quinho, apesar de generoso
como . Agora, lhe desagrada tambm a escolha de seu pai natural. Em minha opinio, passada a tempestade, ele saber quem  e o que quer.
   Sem responder por um momento, Kate ficou contemplando as feies que graciosamente marcavam e envelheciam seu rosto. Que tesouro ele . Pensou ela. Como eu, ele
 um jogador snior no tabuleiro da vida, verso Fortune, com altos riscos. S que ele  mais sensato. Ocorreu-lhe que tinham muito mais em comum, um com o outro,
do que tinham com qualquer outra pessoa que conhecia. Eles inclusive compartilhavam do mesmo senso de humor spero.
   - Voc est certo,  claro - admitiu ela, deixando-o surpreso por capitular sem lutar. - Venha sentar-se comigo no sof e vamos conversar sobre os velhos e bons
tempos. Vou lhe servir aquele usque que voc vem desejando.

   No dia seguinte, quando Stephen e Jess se encontraram no hospital, foi no mnimo estranho. Aps haverem estabelecido um padro do tipo toma l, d c, e uma calorosa
amizade que, desde seu jantar, s vinha se intensificando com o tempo, quase no puderam se entreolhar. Apesar de to amvel e gentil com Annie, como sempre, seu
exame foi superficial e no se demorou.
   - Dr. Steve est diferente - observou Annie, depois que ele saiu do quarto, com sua alegre voz e olhando de modo inquisitivo para Jess. - Voc acha que ele est
com raiva de ns?
   Duplamente acanhada que sua filha de cinco anos, quase careca e negligenciada, tivesse notado que algo estava errado no relacionamento deles, Jess no pde evitar
lembrar a cena na cabana de hspedes dos Fortune, na qual Stephen a tinha rejeitado. Para sua tristeza, no era a primeira vez que repensava aquela cena. Na noite
anterior, quando tentava dormir um pouco, aquele quadro vivo ficou repassando como um filme repetidamente rebobinado e reexibindo-se constantemente aos olhos de
sua mente.
   - Eu no sei por que ele estaria. Voc saberia? - perguntou ela enquanto abaixava-se para dar-lhe um beijo.
   A menina franziu o cenho ao considerar a pergunta.
   - Talvez ele esteja ficando doente tambm e queira ir para casa descansar - especulou ela, buscando uma explicao, com base em sua mais vivida experincia pessoal.
-Mame, o que acontece quando os mdicos adoecem? Eles tm que dormir no hospital como eu e tomar muitos remdios ruins?
   - Se ficarem muito doentes, eu imagino que sim - respondeu Jess. - Mdicos so pessoas comuns, que estudaram bastante e por um longo tempo para que pudessem aprender
a curar as pessoas.
   Grata que Annie seria liberada do hospital no final da semana e no teria que continuar o contato dirio com o homem que ela amava, Jess rebuscou na sacola das
coisas que havia trazido para distrair Annie e, agora que ela estava com mais energia, pegou um livro de histrias ilustradas para distra-la. Enquanto lia a clssica
histria de uma menina americana sendo criada por seus avs em uma fazenda de plantao de morangos, sentiu algo semelhante a desespero se instalando em seu corao.
At que Annie tivesse superado o obstculo de seu transplante, supondo que fossem capazes de achar um doador, ela e Stephen seriam forados a manter uma aparncia
de amizade que cresceu entre eles. E a sensao de vazio lhe faria doer o corao.
   Se no acharmos algum rapidamente, no tenho certeza de que vou poder tolerar, pensou ela, imaginando o jogo de espera pelo qual provavelmente teriam que passar
enquanto, um a um, os exames dos membros da famlia Fortune tivessem seus resultados disponveis.
    claro que, para o bem de Annie, a rapidez em localizar um doador era crucial. Eles teriam apenas um espao de tempo limitado, at que o transplante fosse feito,
antes que os benefcios da quimioterapia diminussem e sua leucemia sasse fora de controle outra vez.
   Neste meio-tempo, ela estava louca pelo mdico alto e loiro que a cortejou e a rejeitou. No pequeno intervalo de tempo aps a sada para jantar no bistr francs,
na torre Fouschay, ela aprendeu a ter profundo carinho por ele e a contar com sua afetuosa presena e seu apoio. Agora, tal apoio no estava mais disponvel. Ela
sabe que ser como viver com o cu, sem poder alcan-lo. Contrastando com o companheirismo com o qual ela esperava, tal solido ser intolervel.
   Ainda havia muita esperana. Apesar dos exames dos gmeos da famlia Fortune, Auie e Rocky, e que eram os irmos mais novos de Natalie, terem tido resultados
negativos, Jess tinha finalmente conseguido entrar em contato com Kyle, filho de Nate, e tambm com Jane Balton, sua filha mais velha. Ambos se submeteram ao exame
e os resultados chegariam em breve.
   Jess no podia saber, graas ao modo como o escondia, que seus contatos dirios tambm estavam arrasando Stephan. Ele no podia olhar para ela sem desej-la e
lamentar o que acreditava ter sido sua indesculpvel covardia de recuar no limiar do ato de fazer amor. Para piorar as coisas, sua afeio por sua filha de olhos
brilhantes continuava a crescer aos trancos e barrancos, ameaando erodir sua objetividade quanto a seu caso clnico. Se fosse ter uma filha, pensou ele, ia querer
que fosse exatamente como Annie Holmes. Com muita facilidade, ele podia imaginar Annie e sua me morando na sua casa de frente para o lago, como sua esposa e enteada,
uma famlia para encontrar em casa ao chegar e am-las.
   Se apenas a leucemia de Annie no estivesse atravancando o caminho.
   Cada vez que aquele pensamento pueril que o abalava emocionalmente passava por sua cabea ele se torturava. Nem Annie nem Jess puderam evitar a tragdia que se
abateu sobre elas. No tinham contribudo de nenhuma forma para que viesse a acontecer. Pelo contrrio, elas eram simplesmente dois seres humanos, perfeitas atravs
da imperfeio, abenoadas e desventuradas e que tiveram uma falta de sorte. Em seu ntimo, ele sabia que, na vida real, voc amava as pessoas com quem voc queria
ficar e se arriscava. Garantias de longevidade e bons ventos ao longo do caminho no faziam parte disto.
   Ele, simplesmente, no poderia enfrentar a agonia do sofrimento d'alma, de perder um filho outra vez e no conseguir oferecer conforto  sua me. Se ele viesse
a casar com Jess e ela o abandonasse sob tais terrveis circunstncias, ele sabia que a dor de sua angstia encheria o universo. Por outro lado, reconhecia que se
nada fizesse para t-las, e Annie viesse a morrer, ele lastimaria sua morte, bem como a partida de Jess, de Minneapolis, da mesma forma.
   Ainda dividido por seu dilema, dois dias antes de Annie ser liberada do hospital Stephen providenciou outro especialista para substitu-lo, para que pudesse comparecer
a uma conferncia de dia inteiro em um hotel, no centro da cidade. Ele esperava que um dia, longe do hospital, pudesse lhe dar alguma perspectiva.
   Os organizadores da conferncia escolheram para o encontro de mltiplos tpicos o hotel Marriot City Center, localizado em frente, do outro lado da rua do Radisson
Plaza, e do qual, de acordo com Lindsay, Jess estaria se mudando naquela tarde, sem sua ajuda. Apenas uma olhada para a marquise do Radisson e sua entrada movimentada
trouxe de volta lembranas do beijo apaixonado no saguo vazio, sem mencionar o desastrado encontro na cabana dos Fortune, na noite em que recuou antes de fazer
amor com ela.
   Trancado em um seminrio sobre os ltimos avanos da cincia no uso de anticorpos monoclonais geneticamente modificados, no tratamento da leucemia, um assunto
de importncia crtica tanto para ele como para seus pacientes, ele encontrou dificuldade em manter sua mente focada nos comentrios do palestrante. Voc tem que
fazer alguma coisa sobre isto, disse a esmo. Ou desiste delas, ou enfrenta o problema, pea outra oportunidade a Jess e reze para que a sorte favorea Annie.
   Exceto por uma pausa para o almoo, que consistiu de uma salada de alface, pedaos de fil mignon e torta de ma que foram servidos nas prprias salas de reunies,
para que os mdicos, participantes das diversas conferncias, no tivessem que perder sequer uma parte, a sesso altamente tcnica prosseguiu sem trgua at as 17h.
Com sua cabea lotada de novas descobertas da cincia e protocolos de tratamento, Stephen estava na escada rolante de descida quando ouviu uma voz familiar chamando
seu nome.
   - Stephen... Espere a!
   Abrindo caminho por vrias pessoas atrs dele, sua ex-mulher Brenda chegou at seu lado.
   - Como voc tem estado? - perguntou ela, com uma voz incrivelmente livre do tom acusatrio a que estava habituado a ouvir e tomando seu brao enquanto chegavam
ao mezanino e rea do saguo, oposto ao restaurante Gustino. - Ns quase nunca nos vemos.
   Seu cabelo ruivo e seus olhos verdes, fitando-o por trs de um par de culos com armao de casco de tartaruga, dos quais ele no se recordava. Brenda aparentava
ter feito substancial progresso em superar seu pesar, desde a ltima vez que estiveram juntos. Ocorreu-lhe que ela poderia at ter alcanado um certo nvel de felicidade.
   - Devo dizer que voc est com tima aparncia. Respondeu com o que seria para ela um tmido sorriso.
   - Obrigada. Agradeo o elogio. Gostaria que voc acreditasse que consegui sair do atoleiro em que me encontrava, graas  minha prpria iniciativa. Mas o crdito
no  s meu. O fato  que conheci algum...
   Ento  este o motivo de seus olhos estarem brilhando e seu modo de andar diferente, pensou Stephen. Ele no sentiu nenhuma ponta de cime, nada seno estar feliz
por ela e um certo alvio por si mesmo. Graas a seu novo estado de esprito, seja l quem ele fosse, sentiu-se absolvido de parte de culpa que ainda sentia, do
papel que teve em sua infelicidade.
   - Eu gostaria que voc o conhecesse - Brenda continuou, quando ele permaneceu calado. - Voc sabe que no passado sempre valorizei sua opinio.
   Inseguro que se sentia por este tipo de responsabilidade, Stephen tentou recusar. Ele tinha coisas a fazer e precisava recuperar, atravs do telefone, o atraso
com seus pacientes no hospital. Sua tentativa de escapar estava fadada a falhar.
   - Aqui vem ele agora - disse sua ex-mulher, referindo-se a um homem com um fsico de atleta, de cabelos ruivos e meio calvo.
   Stephen o reconheceu como um dos participantes em vrios dos seminrios do dia.
   - Ento... ele  mdico tambm - Ele comentou. Seu rosto corou.
   - Acho que tenho uma queda por homens altrustas e com um talento autoritrio - gracejou ela, abandonando-o e dando o brao a seu novo gal. - Tom, este  meu
ex, Stephen Hunter. Stephen, este  Tom McCaffrey. Tom  mdico interno em Wayzata. Ele se especializou como mdico de famlia.
   Os dois homens trocaram um firme aperto de mo enquanto um avaliava o outro. Stephen chegou temporariamente  concluso de que Brenda estava em boas mos.
   - Tome uma bebida conosco - Tom McCaffrey convidou, demonstrando prazer em saber que a nova mulher da sua vida tinha amizade, sem envolvimento emocional, com
seu ex-marido.
   Apesar de achar estranha uma reunio dos trs, foi incapaz de recusar, devido ao olhar implorante de Brenda, e acabou concordando em acompanh-los ao saguo do
piano-bar do restaurante Gustino para um rpido drinque. Enquanto se acomodava em uma das cadeiras, de uma mesa redonda e baixa, preparou-se, com a esperana de
que o nome de David no fosse mencionado.
   O assunto no foi mencionado de incio.  medida que conversavam amigavelmente sobre como Tom e Brenda se conheceram durante uma excurso para solteiros  ilha
Michigan McKnac, ele pde ver o encontro como um evento positivo. Apesar de a companhia de Brenda ainda trazer  tona lembranas dolorosas da doena e da morte de
seu filho, ele se deu conta que no se sentia mais ferido quanto ao trmino de seu casamento com ela, sentia to-somente por reconhecer no ter sido um esposo adequado.
   Espero que Tom McCaffrey possa faz-la feliz, pensou ele.
   Nesse momento o celular de Tom tocou.
   - Com licena pessoal - disse ele com um sorriso enquanto se levantava e dava um leve aperto na mo de Brenda. - Meu celular est bloqueado para recados. Preciso
achar um telefone e ligar para o servio de recados.
   Para desnimo de Stephen, no momento em que ficaram a ss, Brenda mudou o assunto para a morte de David, embora o abordasse de uma perspectiva que no haviam
discutido antes.
   - Eu realmente tenho que abordar este assunto quando estamos nos dando to bem, mas voc  a nica pessoa que entenderia - disse ela, com seus olhos verdes adquirindo
um aspecto sombrio. - Tom e eu estamos falando de casamento. E eu estou apavorada em dizer sim. Ele quer filhos. No tenho certeza se agentaria caso minha vida
se incendiasse outra vez... carregar outra criana sob meu corao, por nove meses, e ficar pensando se algum dia a perderia, do jeito que perdemos David...
   Era seu dilema, expresso da perspectiva da mulher. Com seus olhos brilhando, com lgrimas que ele nunca pde verter na presena dela, Brenda aguardava por algum
tipo de resposta da parte dele, uma apreensiva confirmao de que seus temores eram vlidos e deveriam ser considerados ou, se ele pudesse encontr-las, palavras
de estmulo.
   Resolvido a estimul-la, acreditou que serviria como reparao parcial.
   - Nesta poca, no ano passado, eu jamais iria pensar que pudesse estar dizendo isto - Admitiu ele. - Mas a vida  para ser vivida.  o que David desejaria de
ns. Em seu lugar, eu seguiria em frente.
   Absorvendo suas palavras, repentinamente passou a sorrir para ele.
   Enquanto Tom McCaffrey retornava para a mesa e ele aproveitava a oportunidade para se despedir, Stephen esperava que ele mesmo tivesse o bom senso de seguir seu
prprio conselho. Ele achava que deveria e que sua felicidade futura dependia disso.

   Enquanto aguardava que o manobrista trouxesse sua Mercedes da garagem do hotel, Lindsay estava ajudando Jess a fazer sua mudana do Radisson para a cabana na
propriedade dos Fortune. Aps arrumarem as coisas no carro, as duas mulheres passaram no supermercado para que Jess pudesse estocar sua nova despensa com as guloseimas
preferidas de Annie. Enquanto percorriam juntas os corredores, como amigas e donas de casa que eram, ao invs da pediatra e da analista de investimentos que descobriram
ser parentes. Jess refletiu que sentia como se tivesse uma irm, algo que sempre quisera.
   Eu serei a mulher mais sortuda neste mundo se nosso esforo de encontrar um doador para Annie for bem-sucedido e ns consegussemos continuar em contato, pensou
ela. Um momento depois corrigiu um pouco seu prognstico. Sem Stephen como parte desse quadro, um ingrediente importante estaria faltando para seu contentamento.
   Apesar de no poder evitar ficar repassando o encontro amoroso abortado e o que aconteceu depois, enquanto Lindsay estacionava o carro em frente ao chal e a
ajudava a carregar as malas e as compras para dentro, ela recusou-se a ficar se martirizando com o tema, por enquanto.
   - Fique para tomar um caf - convidou.
   Era quase hora do noticirio. Habituada a assisti-lo, desde que Jake se envolveu em problemas, Lindsay reconheceu que no chegaria em casa a tempo de peg-lo
desde o incio. Ciente de seus planos de ajudar Jess com sua mudana, Frank tinha assegurado a ela que chegaria cedo. O jantar das crianas no sofreria grande atraso.
   - Est bem - concordou ela, satisfeita em ser a primeira visita de Jess em sua nova residncia. - Mas depois vou ter que ir. Voc se incomoda se eu ligar a televiso?
   Recebendo imediata permisso e enquanto Jess moia os gros de caf, ligou a tev e se acomodou na sala de estar, em uma das poltronas estofadas com tecido quadriculado.
Ligou no momento certo. A primeira notcia, com a legenda de uma reportagem feita em Los Angeles, mostrava Brandon, o filho adotivo de Mnica Malone, exibindo Para
os fotgrafos evidncias prejudiciais, compostas de urna srie de declaraes, passadas em cartrio e que a Promotoria do condado de Hennepin requisitou lhe fossem
entregues. At aquele momento, Lindsay desconhecia sua existncia.
   - As declaraes estavam depositadas no meu cofre bancrio e no de minha me e que eu abri esta manh em Minneapolis por ser inventariante de seu esplio - repetia
o herdeiro da finada estrela de cinema, para um monte de microfones, enquanto passava a mo por seus cabelos loiros, sujos e maltratados, como se o gesto lhe fosse
habitual. - Naturalmente que as li antes de entregar s autoridades. Quando a me de uma pessoa  brutalmente assassinada...
   - Voc pode ser mais especfico sobre o contedo dos documentos? - perguntou um dos jornalistas.
   - Por que no? - Apesar de sua perda, o aspirante a ator, parecia estar gostando do momento frente s cmeras. - As declaraes contm o testemunho de diversas
pessoas que conheceram Kate, a me de Jacob Fortune, h muitos anos, quando era garonete e solteira - disse ele. -Em cada uma delas, as testemunhas alegam que ela
estava grvida de Jacob Fortune antes que o homem com quem se casou, Benjamin Fortune, aparecesse em cena. Em outras palavras...
   Fazendo uma pausa, convidou os que estavam fazendo perguntas a tirar suas prprias concluses.
   - Jacob Fortune no  o proeminente herdeiro do poder e dos ativos financeiros da famlia, do modo que as pessoas sempre presumiram? - perguntou um deles, colocando
palavras na boca de Brandom.
   - E o que parece - respondeu ele com um sorriso afetado de satisfao, dando alguma caracterstica a seu rosto de aparncia comum.
   - Parece que se forem autnticas, as evidncias que sua me colecionou sobre ele constituiriam motivo para assassinato - disse um reprter diferente - Voc concorda
com esta avaliao?
   Dando de ombros, Brandon Malone envaideceu-se para as cmeras.
   - O que voc acha? - perguntou ele.
   Com a caracterstica dos programas de noticirios em rede nacional, a cena voltou para Nova York, onde o ncora do noticirio noticiou para os registros que Jake
havia sido libertado sobre fiana enquanto aguardava julgamento, e prosseguiu para um assunto no relacionado, em outro segmento do noticirio. Desligando a tev
com desgosto, Lindsay aceitou a caneca de caf que Jess lhe entregou e tomou um bom gole.
   - Suponho que voc tenha ouvido - Ela mencionou. - De acordo com as evidncias juntadas pelo pirralho do herdeiro da Mnica Malone, Jake seria meu meio irmo...
o filho de um homem que nenhum de ns jamais conheceu.
   Surpreendida, Jess se deu conta que se as alegaes fossem verdadeiras explicariam a falta de correlao entre os antgenos de sua filha e dos filhos dele. Todavia,
teve muito tato em no colocar seu pensamento em palavras.
   - As chamadas evidncias podem ter sido fabricadas -disse ela. - Eu no ficaria surpresa se ficssemos sabendo que isto foi o que aconteceu nesse caso.
   Abraando-a em resposta s suas palavras com cunho positivo, Lindsay tomou mais alguns goles do caf e despediu-se, prometendo busc-la pela manh para lev-la
ao hospital. Aps ter ouvido o segmento do noticirio sobre o caso Mnica Malone, estava ansiosa para chegar logo em casa e ouvir a opinio do marido sobre os ltimos
acontecimentos dos casos. Enquanto dirigia, vencendo a curta distncia que separava a propriedade dos Fortune e o chal de hspedes de sua prpria residncia de
frente para o lago, viu-se quebrando a cabea sobre algo totalmente no relacionado ao contedo da entrevista com Brandon Malone.
   Apesar dele ter passado boa parte do tempo em Minneapolis quando jovem, e de haver visitado sua me com regularidade, desde que foi para Hollywood tentar uma
carreira no cinema, ela e o filho de Mnica nunca se viram. Mesmo assim Lindsay tinha uma estranha impresso de que o conhecia. Ou o tinha visto em algum lugar,
e no apenas em uma, mas em vrias ocasies. Um momento depois ela decidiu de onde tinha vindo tal sensao. Lamentavelmente, faltando-lhe refinamento, houve algo
sobre o modo como ele sorriu que lembrava seu pai. Papai tinha pequenas estrias como aquelas, dos lados da boca, lembrou ela. E quando no queria dar explicaes
sobre as coisas, tinha um modo semelhante de encolher os ombros. De todo corao, ela desejava que seus pais no tivessem morrido. Se ainda estivessem vivos, a confuso
na qual Jake estava metido seria rapidamente resolvida a seu favor, disse para si mesma.
   Na manh seguinte, enquanto entrava no quarto de Annie, Stephen sabia que ele a visitaria no hospital somente mais uma vez, antes que ela tivesse que retornar
para seu transplante. Mais satisfeito do que poderia se expressar, por a criana estar to bem, ele no podia deixar de lamentar a brusca reduo da quantidade de
oportunidades que teria de ver Jess.  claro que a mulher de cabelos escuros que cativou seu corao teria a obrigao de trazer sua filha ao seu consultrio, para
exames semanais.
   - Mais um dia e voc estar fora daqui - informou a Annie com um sorriso, enquanto mantinha Jess em sua viso perifrica, durante o tempo em que a auscultava
com seu estetoscpio.
   Annie deu risadinhas por haver ouvido aquela expresso americana na televiso.
   - Mame disse que vamos ficar morando numa pequena cabana na estrada, perto de sua casa - disse ela, balanando suas finas pernas na beira da cama do hospital,
enquanto olhava para ele. - Voc vai nos visitar?
   Remexendo a curta penugem de seus cabelos loiros, que cobria o belo formato de sua cabea, ele olhou de relance para a me dela.
   - Se voc quiser que eu v,  claro que irei - prometeu ele. Ele no precisa dizer isto, a menos que tenha inteno de faz-lo, pensou Jess com irritao, mantendo
uma aparncia sem expresso no rosto. De qualquer forma, por que estaria ele deixando esta abertura? No me diga que o cata-vento de suas intenes vai dar uma guinada
em nova direo!
   Alguns minutos depois, Stephen estava sentado na sala de transcrio dos mdicos, ao lado de Lindsay, localizado no mesmo andar do quarto de Annie. Lamentando
e confortando-a devido ao modo como transcorria o caso de seu irmo, ele rapidamente mudou o assunto para Jess.
   - Voc a ajudou ontem com a mudana para o chal -disse ele. - Correu tudo bem?
   Lindsay balanou a cabea, sua ateno absorvida pelos grficos que estava atualizando.
   - Como eu disse antes, o local  perfeito para elas -murmurou distraidamente. - O nico problema  a necessidade dela de um carro. Eu dei carona at o hospital
nesta manh e planejo lev-la em casa. Mas no estarei disponvel sempre.
   O comentrio casual abria-lhe uma oportunidade. Estar perto de Jess significava desej-la, reconheceu ele ao deixar o hospital, aps ter terminado suas obrigaes
burocrticas e seguir para ver alguns locais de venda de carros usados que ele j conhecia, ao invs de se dirigir para o lago como sempre fazia. Ainda assim, 
como se eu estivesse na beira de um trampolim, querendo-a, mas com medo de mergulhar no compromisso de am-la. Algo tem que acontecer. Se eu no mudar de curso,
e logo, quaisquer chances que eu ainda tenha com ela estaro perdidas para sempre.
   Aps sua estpida declarao na cabana, na noite em que quase fizeram amor, ele no tinha certeza de qual deveria ser sua abordagem. Existia uma boa possibilidade
de que ela recusaria dar-lhe nova oportunidade, independente do que dissesse. Pelo menos eu posso ajud-la a resolver seu problema de transporte, pensou ele. Seria
um passo na direo certa.
   No segundo lote que visitou, encontrou disponvel, por um preo mnimo, um MG Midget na cor verde, com capota conversvel preta. Apesar de ser um carro antigo
e o modelo conhecido por sua excentricidade, a carroceria aparentava estar em bom estado. Por coincidncia, ele usou um carro semelhante quando estava na escola
de Medicina e feito a mecnica do carro ele prprio, para economizar.
   Retirando seu casaco esporte, e enrolando as mangas da camisa, pediu ao vendedor para levantar o capo e girar a chave. Ficou com as mos bastante sujas ao verificar
tudo que podia ser verificado com o carro parado. Apesar de o motor merecer uma limpeza geral, nada parecia fora do lugar.
   Era hora de levar o pequeno conversvel para dar uma volta. Meia hora depois, estava de volta e relativamente satisfeito. Com alguns pequenos ajustes, que ele
mesmo poderia fazer, o MG estaria em ordem. O fato de ser de fabricao inglesa significava que seria familiar para Jess. A nica coisa que faltava fazer era apresent-los
e verificar se os dois se gostariam.
   Dado o fato de que Lindsay geralmente trabalhava at tarde nas quintas-feiras, Jess poderia ainda estar no hospital. Pegando seu celular, discou o nmero que
conhecia bem e solicitou  telefonista para ligar para o quarto de Annie. Sem o hbito de receber ligaes, por ser novata em Minneapolis, Jess atendeu, curiosa
de quem poderia ser.
   - Ol,  Stephen - falou ele naturalmente, como se o incidente entre eles jamais tivesse acontecido. - Eu fui dar uma volta esta tarde, depois que deixei o hospital,
e encontrei um carro perfeito para voc. Parece-me que voc vai precisar de um se pretende morar na propriedade dos Fortune nos prximos meses. Que tal deixar um
bilhete para Lindsay e vir dar uma olhada?
   Fez-se silncio enquanto ela absorvia sua inesperada proposta.
   - Voc est certo ao dizer que preciso de um carro -disse ela finalmente, em um tom que no era particularmente acolhedor, mas tambm no era de rejeio como
ele merecia. - Eu tambm tenho pensado a respeito disso. Lindsay acaba de entrar no quarto e est ansiosa para sair.
   Suponho que ao invs de ir com ela poderia ir com voc, desde que esteja disponvel para me levar em casa depois. Sentindo-se exausto e aliviado por ela no o
ter recusado, Stephen decidiu que era o mximo que poderia esperar.

   Captulo 8

   Cheia de emoes conflitantes, enquanto ele a levava para ver o conversvel que encontrara, Jess tentou sufocar o temeroso mas delicioso sentimento de deixar
Stephen tomar conta dela.
   Quando chegaram ao local dos carros usados e saram da Mercedes, cautelosamente ela deu uma volta ao redor do MG.
   - Eles no so conhecidos por serem um tanto excntricos? - perguntou ela, franzindo o cenho, recusando-se a deixar que ele percebesse a satisfao que sentia
em vir a ser a dona do carro. -  melhor deixar para os mecnicos, acredito que foi isso que meu tio disse uma vez. A ltima coisa com a qual preciso lidar no momento
 com reparo de veculos.
   Stephen encolheu os ombros, dando razo a Jess.
   - O que voc achar melhor. Mas na minha opinio  um carrinho bonito, eu o examinei todo e  um bom negcio Pelo preo cobrado. Quanto a reparos, eu j tive um
desses. Se algum problema surgir, ainda tenho minhas ferramentas nos padres mtricos.
   Jess ficou olhando. Ele estava dizendo que faria o conserto ele mesmo, um mdico especialista!
   - Eu no tinha me dado conta que voc era cirurgio, alm de hematologista - disse ela, mantendo o semblante inexpressivo.
   A exploso de risos compartilhados quebrou o gelo.
   - Vamos - Stephen persuadiu-a. - Vamos dar uma volta nele. Voc no est curiosa para saber como ele reage a uma nova dona?
   Encantada com o pequeno conversvel, aps uma longa volta que os levou at Minnehaha Park, passando pela esttua que lhe d o nome, Hiawatha Park e, ainda, tendo
dado uma olhada na cachoeira de 12 metros que desemboca em um vale arborizado, Jess estava decidida a compr-lo. Annie vai simplesmente am-lo, pensou ela.  claro
que com to pouco cabelo e o constante risco de resfriar, ter que usar touca e cachecol.
   Ao retornar, emitiu um cheque, informando como garantia o nmero do seu carto de crdito, e observou Stephen anexar seu certificado de propriedade temporrio,
bem como verificar o combustvel.
   - S para garantir que nada foi esquecido vou segui-la at em casa - ofereceu-se.
   Ciente de que seu relacionamento estava abundante de novas possibilidades, ela no se dispunha a negar. Deu-lhe uma sensao de prazer e conforto v-lo no espelho
retrovisor,  medida que seguia a rota cada vez mais familiar at o lago Travis, mudando as marchas com a facilidade de uma profissional.
   Para sua surpresa, ao chegar ao porto da propriedade dos Fortune e pegar o carto magntico que liberava a entrada, ele desceu da Mercedes tambm, e veio falar
com ela.
   - Voc dirige seu novo beb como uma campe - disse quando ela baixou o vidro do lado do motorista.
   Jess sorriu, causando uma acelerao no batimento cardaco dele.
   - O carro Cortina que dirijo quando estou em casa tambm tem mudana de marcha mecnica - informou ela. -Portanto, no foi nenhum grande feito.
   Um momento de silncio se passou enquanto se entreolharam. Sem vontade de se separar dela, agora que as coisas estavam indo to melhor entre eles, mas com receio
de ser rejeitado se convidasse para entrar, Stephen estava se sentindo perdido sobre como prosseguiria.
   - Olhe - disse ele -, j  tarde e voc provavelmente est cansada. Nossa recente noite juntos no terminou particularmente bem, graas  minha estupidez. Mas
o fato  que tenho pensado muito, desde ento. Eu reconheo ter cometido um erro colossal. Eu no creio que voc consideraria nos dar outra oportunidade e jantar
comigo hoje?
   Descansando o queixo sobre a mo com um gesto que ele j conhecia, ela o considerou silenciosamente por um momento.
   - No, eu acho que no - disse finalmente, plenamente consciente de que estaria trazendo Annie do hospital pela manh. - Mas eu estaria disposta a cozinhar para
ns, se voc estiver de acordo.
   Agora que j era setembro, as noites tinham se tornado frias. Para alvio e assombro de Stephan, alguns minutos depois, ele viu-se preparando o fogo na lareira
de tijolos do chal, para ajudar a combater o frio. Enquanto posicionava achas de lenha de forma a permitir o fluxo adequado do ar e adicionava gravetos, Jess pegou
a chaleira para fazer o ch.
   Ele tinha conseguido que as chamas estivessem altas e brilhando no momento em que ela preparava rapidamente uma salada verde e uma incrvel torta de pur de batata
sobre cenouras, cebolas e pedaos de carneiro, enriquecido com um molho improvisado.
   Eles comeram na mesa da cozinha, usando loua de salgueiro azul, sob a fraca luz de uma luminria Tiffany. Como  gostoso simplesmente estar aqui, pensou Stephan,
olhando para Jess enquanto ela falava e comia, ocasionalmente rindo de algo que ele tinha dito, de um modo refinado e desamparado que sempre o cativava. Comida verdadeira
para meu estmago  um blsamo para minha solido, seno uma bno total, para o pesar que talvez nunca se extinga totalmente.
   Ocorreu-lhe que deixando de lado os problemas com Annie, Jess tambm poderia ter fantasmas a serem enterrados em solo sagrado. Seu marido havia falecido em um
acidente de carro, logo antes do diagnstico de Annie, se  que um comentrio que ela fez, e ele ouviu, fosse alguma indicao. Mesmo assim, ela correu o risco de
fazer amor com ele.
   Talvez para ela sexo no representasse compromisso, pelo menos no de incio, na fase inicial de um novo relacionamento. Talvez ele simplesmente estivesse por
perto, um homem disponvel, envolvido na mesma situao perigosa, em torno de seus passos e clamando pela maior parte de sua ateno. Mas ele duvidava disto. Tudo
sobre ela sugeria ser uma combinao premiada de uma mulher cheia de princpios,  moda antiga, e sexualmente no despertada, e que a maioria dos homens sonhava
encontrar algum dia.
   Ela era tambm a mulher que ele queria, e queria tanto que sua paz de esprito o havia abandonado desde que a rejeitara. Ele no se queimaria outra vez, apesar
de significar correr risco considervel, devido s aflies de seu passado e  precariedade da situao atual de Annie.
   Aps o jantar e uma rpida operao de limpeza na qual ambos enrolaram as mangas e participaram, passaram  sala de estar e sentaram-se no sof regiamente estofado
com estampa quadriculada, em frente  lareira. Com as luzes diminudas e a cabea de Jess descansando nos ombros de Stephan, e com ambos olhando as chamas na lareira
e sonhando, no demorou muito para que estivessem aninhados nos braos um do outro.
   Como mordidas de amor, calculadas para tentar tanto corpo como alma, logo perderam o controle dos beijos que arrancavam da boca de cada um.
   - Deixe-me ficar com voc esta noite - Stephen pediu, quando parou para tomar flego. - Por favor, querida. Eu juro que no vou deix-la na vontade outra vez.
   Poderia ela confiar que ele manteria sua palavra, depois do que aconteceu, aps sua primeira visita, juntos, ao chal? Devido  sua prpria e enorme vontade,
reconheceu que seu questionamento era irrelevante. Das profundezas de sua feminilidade, ela precisava dele.
   - Se voc fizer isto, terei de achar um novo mdico para Annie - ela avisou. - Eu no gostaria de ter que fazer isto.
   Ele tambm no gostaria. Annie era sua paciente. Ele se preocupava com ela profundamente. Estava determinado a cur-la, de algum modo.
   - Isso est totalmente fora de questo - disse ele, com suas mos buscando caminho sob seu pulver de cachemira, para acariciar seu corpo. - Juro por Deus, Jess.
Voc no vai ter que fazer nada disso.
   Seus olhos brilhando com luxria que ele sabia que estava refletindo seus prprios olhos, ela tirou completamente o pulver.
   - Vamos fazer amor aqui mesmo, no cho da sala de estar - sugeriu ela, causando-lhe a ereo. - O fogo ir nos manter aquecido e tem muitas almofadas.
   No havia mais necessidade para palavras. Projetando suas silhuetas contra o brilho vermelho das chamas do fogo, rapidamente se despiram, enquanto olhavam um
para o outro com a respirao ofegante. Ajoelharam-se sobre as almofadas que haviam arrumado, ficando coxa a coxa, boca a boca. No posso acreditar que isto esteja
realmente acontecendo, pensou Jess, delirando com seu contato ntimo, como evidncia de seu desejo. Que eu tenha encontrado o homem para o qual nasci para amar,
aqui na Amrica. E ele no vai me deixar at a luz da manh.
   Esquecido de seu passado e com um p provisoriamente fincado no futuro, Stephen estava reverentemente com os dedos nos bicos dos seios dela. Jess  como uma refinada
lira para os deuses, permitindo a um mortal toc-la, fantasiou ele.
   Pensamento coerente tornou-se impossvel, enquanto ele seguia a trajetria de uma leve pelo abdome dela e escorregava uma das mos para dentro de suas dobras
de veludo, que guardavam o pice de seu desejo. Massageando-a gentilmente, mas implacavelmente, como uma avalanche em cmera lenta, ele estimulou sua prpria excitao
enquanto a levava a um desejo ainda mais intenso.
   Ela logo sentiu que a ao dele logo a levaria ao xtase.
   - Stephen - Ela implorou, com a parte inferior de seu corpo pressionando urgentemente contra ele. - Por favor... quero voc dentro de mim quando acontecer.
   To preciso e  vontade quando ele discutia mtodos de tratamento com seus pacientes, sua voz de bartono tornou-se quase que gutural.
   - Ns temos a noite toda para isso, - disse ele, mordiscando a delicada curva de seu ombro enquanto continuava. - Primeiro deixe-me lhe dar prazer deste modo.
   Estando prestes a discutir com ele, Jess viu que no conseguia sequer balbuciar uma palavra. Por causa de seu vocabulrio fsico, desabrochando e se expandindo,
as palavras pareciam sem razo de ser. Indo precipitadamente para a borda e pairando ali pela infinidade que durou diversos segundos, ela subitamente viajou para
muito alm, dissolvendo-se em uma convulso de prazer que lhe levantou at a sola dos ps.
   J tendo experimentado antes esse tipo de orgasmo, ela nunca tinha tido um com tanto xtase e intensidade. Era como se uma potente corrente eltrica tivesse sido
descarregada em seu corpo, libertando-a de tenses e ansiedades.
   Com apenas uma vaga percepo consciente de como gritou seu nome, adicionando:
   - Mais... mais... mais.
   Inclinou-se contra ele, pressionando o rosto em seu pescoo.
   - Ah, Jess - sussurrou ele, envolvendo-a e confortando-a em seu xtase, com a proximidade de seu corpo. -Voc  to autentica como a terra, querida... to inteiramente
maravilhosa.
   Eles comearam outra vez, depois que ela relaxou o suficiente, com Stephen sentado em uma almofada baixa e Jess balanando, montada em seu colo. Satisfeita como
estava, nas profundezas de suas clulas, encontrou-se pairando outra vez, enquanto olhava para seus lindos olhos, desejando-a. Comparada com a modesta expectativa
que seu passado a condicionara, a descarga em massa de energia ertica que produziam juntos elevou-a a um paraso habitado por dois, algo que ela jamais havia experimentado.
   Conforme prometido, quando raiou o dia, seu amante de cabelos loiros escorridos dormia abraado a ela, sob as cobertas de l que cobriam sua cama de casal. Felizmente,
para a privacidade de seu recm-descoberto contentamento, ele estava acostumado a acordar cedo.
   - Jess... querida... ns esquecemos de telefonar para Lindsay e dizer que voc comprou um carro - sussurrou ele, quando ela se revolveu na cama e murmurou algo
incompreensvel. -  melhor eu ir, se no quisermos que ela me encontre aqui, quando chegar para lhe dar carona. Vejo voc quando eu chegar ao quarto de Annie para
assinar sua alta do hospital, est bem? Tente no demonstrar que voc notou, se eu beliscar seus dedos. Ou dar uma sorrateira mordida no seu pescoo.
   Liberada no horrio, Annie estava radiante com o chal e o quarto cheio de brinquedos criativos que Jess havia comprado festejando sua chegada. Ela no parecia
surpresa, s feliz ao v-lo, quando Stephen passou para jantar, trazendo um presente de boas-vindas: uma casa de bonecas, porttil, com uma famlia de quatro bonecos
e perfeitas miniaturas de moblia. Nem achou estranho que ele tivesse passado o fim de semana com elas, indo para sua prpria casa, a curta distncia, somente quando
chegava a hora de dormir. Na segunda-feira que teve que passar o dia no hospital outra vez, comentou com a perspiccia de seus cinco anos que o chal parecia estranhamente
vazio sem ele.
   Seu vizinho na propriedade, que no foi visto, Jake escolheu a segunda-feira para aparecer no escritrio, no centro da cidade, pela primeira vez depois que tinha
sido preso e solto. O esforo no comeou bem. De alguma forma - talvez o tivessem sob vigilncia? - a polcia de Minneapolis recebeu notcias de que estaria se
movimentando e uma troca de informaes foi feita pelo rdio da polcia. Como resultado, um punhado de reprteres sedentos por notcias o esperavam quando o motorista
o deixou na entrada principal do edifcio Fortune.
   Descartando-se, com raiva de suas perguntas, cujo foco central era sua relao de parentesco e as declaraes juramentadas que Mnica usava para fazer chantagem
com ele, protegeu seu rosto das cmeras enquanto escapava para dentro de um elevador expresso, operado com uma chave, e subiu direto para o ltimo andar do prdio.
   Sua secretria de longa data, Joan Carmody, cumprimentou-o com sua habitual deferncia.
   - Bem-vindo de volta, Sr. Fortune - disse ela, com um sorriso. - Prometo no tocar mais neste ponto, mas eu s gostaria de dizer que todos estamos convencidos
de sua inocncia.
   Incapaz de esconder seu embarao com a situao na qual se encontrava, agradeceu a ela, meio sem jeito, por seu apoio.
   - Seu Wall Street Journal est sobre sua mesa - adicionou ela. - Vou logo buscar seu caf. Informe-me quando quiser despachar a correspondncia. Como pode imaginar,
tem uma pilha razovel de documentos aguardando sua assinatura e aprovao.
   Lido com ateno, enquanto tomava caf, ao invs do usque que Jake teria preferido, o jornal voltado para negcios confirmava que o preo das aes das Indstrias
Fortune continuava caindo. Independente dos ativos da empresa, que eram substanciais, sups que breve seria um alvo fcil para uma compra hostil do controle acionrio.
Se ele no quisesse se ver frente  tarefa de tentar contra-atacar uma oferta hostil de compra do controle da empresa, com sua mo direita, enquanto sufocava uma
revolta interna com a esquerda, algo teria que ser feito para sustar a hemorragia no preo das aes, antes da reunio de acionista no outono.
   Aps uma hora e meia e depois de terem resolvido talvez um tero dos assuntos pendentes mais urgentes que requeriam sua ateno, ele sugeriu que Joan fizesse
sua pausa habitual para o caf. Acabou sendo uma medida infeliz de sua parte. Uma nova funcionria foi deixada como sua assistente no escritrio externo e no se
imps para impedir a entrada de Nate em seu escritrio, sem consult-lo antes.
   - Ento... voc est de volta ao assento do motorista -disse seu irmo sarcasticamente, irrompendo e avanando at se postar na frente da mesa de Jake. - J tem
algum desastre esta manh? Ou voc est conseguindo ficar fora de confuses, com base na teoria de que uma acusao de assassinato pendendo sobre sua cabea e da
empresa, se  que posso adicionar,  o suficiente?
   Desde que ficou sabendo que ele talvez no partilhasse completamente da relao de parentesco privilegiada de Nate, Jake se debatia com um complexo de inferioridade
no que dizia respeito a seu irmo. Sua posio no invejada de suspeito de assassinato acusado e seus muito reais temores pelo que o futuro poderia trazer apenas
agravavam tais sentimentos. Agora, o contedo das declaraes juramentadas que Mnica vinha usando para fazer chantagem com ele havia se tornado pblico pelo seu
filho, o aspirante a ator, e na televiso, a nvel nacional. Jake tinha pouca dvida de que brevemente Nate estaria em contato com Brandon Malone para ficar sabendo
dos detalhes, se  que j no tinha ligado para o diabinho.
   - Isto aqui  um escritrio privado. - Declarou ele, dominando seu temperamento com dificuldade, enquanto se levantava. - Eu ficaria grato se voc se fosse e
retornasse quando tiver hora marcada. Como voc pode ver, tenho trabalho a fazer.
   Nate manteve-se firme.
   - Voc tem toda razo sobre o trabalho - concordou ele, franzindo os lbios. - Se dependssemos somente de voc e daquela garrafa de usque que voc mantm sempre
ao seu alcance, esta companhia j teria ido para o buraco. Felizmente, muitas pessoas dedicadas, incluindo eu mesmo, tm trabalhado excessivamente para evitar que
isto acontea. Mas existe um limite do que podemos fazer sem a autoridade apropriada. Se voc se importa s um pouco em salvar o negcio que nossos pais construram,
voc deveria entregar a presidncia executiva e presidncia do conselho... soltar as rdeas para que eu possa fazer o que precisa ser feito, pelo menos at que esta
farsa tenha sido julgada...
   Ferido pelas severas e declaradas cobranas de seu irmo e um tanto ou quanto merecidas recriminaes, Jake no percebeu a deixa meio escondida de que Nate acreditava
em sua inocncia.
   - Voc no quer dizer o negcio que nossa me e seu pai construiu? - replicou ele de volta. - Estou certo de que voc est ciente das revelaes que Brandon Malone
entregou de mo beijada  imprensa na sexta-feira. Voc provavelmente festejou.
   Nate estava visivelmente abalado com a colocao dele.
   - Vai pro inferno! - contestou ele. - Voc  meu irmo, droga, seja l quem foi seu pai. Admito ter estado curioso...
   Jake no estava ouvindo nada seno uma sbita pulsao em suas tmporas.
   - Que inferno, de modo algum vou cair e me fingir de morto s para lhe agradar - disse ele, dando a volta na mesa e um leve empurro em Nate. - Agora, saia daqui.
Da prxima vez que quiser falar comigo, chame minha secretria e marque hora.
   Criados no mesmo lar transitrio, com a mesma magnnima mas temperamental figura de pai  mo, para ajudar a moldar seu carter, Nate tinha um temperamento semelhante
ao dele.
   - Seu babuno desorientado, tire suas mos de cima de mim, a menos que voc queira que eu lhe apague! - ameaou ele.
   Felizmente, para a salvao de ambos, Joan Carmody escolheu aquele momento para retornar.
   - Tem algo errado, Sr. Fortune? - perguntou ela, dirigindo a pergunta a Jake, enquanto abria a porta que unia parcialmente os dois escritrios.
   Jake corou por hav-lo surpreendido e a Nate no limiar de um corpo a corpo.
   - Meu irmo j estava saindo, Joan - informou ele. - E quanto a Kenwyn ou Kendra, ou seja, qual for o nome da nova moa, se voc a deixar encarregada outra vez,
diga-lhe que no quero ser interrompido por visitantes no anunciados.
   Com Nate tendo sado e duas aspirinas comeando a fazer efeito, e ainda com a ajuda de Joan, Jake foi capaz de atualizar uma quantidade considervel de trabalho
atrasado, acalmando-se um pouco durante o processo. Quando o relgio suo de movimento perptuo que ficava em sua mesa marcou meio-dia, ele achou que era o suficiente.
Rodando a poltrona executiva, de tal forma que pudesse contemplar o horizonte de Minneapolis, tentou imaginar algo que o faria feliz ou pelo menos lhe oferecesse
um pouco de consolo.
   Seu primeiro pensamento foi Erika. Ele no a via desde o dia em que fora libertado, quando a viu do lado de fora da sala do juiz. E ele queria v-la, nem que
fosse s pelos velhos tempos. Com um melanclico sorriso, lembrou do modo como ele costumava telefonar para ela e pedir para encontr-lo em algum lugar para almoar,
longe das crianas, das coisas da casa e de sua responsabilidade para com a empresa.
   Ser que ela estaria disposta a me encontrar hoje? perguntava a si mesmo. Estou limpo, sbrio e respeitavelmente vestido com um terno. Se fssemos a algum lugar
um pouco afastado, onde os freqentadores no pudessem estabelecer a diferena entre Adam e eu ou um suspeito de assassinato, talvez pudssemos ser capazes de conversar
em paz como pessoas comuns.
   Impulsivamente, pegou o telefone e discou o nmero que outrora tinha sido seu tambm. Ela atendeu no quarto toque e parecia estar ofegante.
   - Ol, Jake... que surpresa! - murmurou ela com suas palavras demonstrando serenidade, mas contendo um calor que conseguia ir longe e amenizar a dor emocional
que ele sentia. - O que posso fazer por voc?
   - Voc pode almoar comigo? - respondeu ele. - Do modo que fazia antigamente. Graas  minha recm-adquirida notoriedade, teremos que evitar nossos locais preferidos
e nos satisfazer com algum buraco na parede.
   Erika queria abraar a si mesma. Jake sentia sua falta. Ele se libertou de seu estupor de autopiedade e a procurou, reconheceu que ainda tinham coisas em comum.
   - Isto pode ser arranjado - disse ela, tentando no parecer ansiosa demais. - Eu conheo um lugar que no fica longe da escola que freqento. Vou precisar de
alguns minutos para tomar um banho. Eu estava l fora, repassando alguns assuntos com o novo jardineiro. Sabe, Jaime teve um ataque de corao.
   Jake no sabia. Parecia que sua antiga vida estava se desdobrando, tomando novas formas, sem ele.
   - Lamento saber disso - respondeu ele aps um momento. - Se voc o vir, diga que mandei lembranas. Devo ir busc-la em casa?
   Pronta para concordar, Erika lamentou ter que pedir que, ao invs disto, ele a encontrasse no restaurante. Ela tinha que assistir a uma aula depois do almoo.
Tinha ainda que devolver alguns livros para a biblioteca da escola.
   Apesar dele estar um pouco chateado com ela por haver decidido buscar um ttulo universitrio, exatamente quando ele estava comeando a experimentar sua crise
de meia-idade, ele no se importou.
   - Quarenta e cinco minutos? - perguntou ele, pegando uma caneta e um bloco de notas para que ela pudesse dar-lhe o endereo do restaurante.
   Realmente, acabou sendo um buraco na parede, um lugar apinhado, um tanto barulhento, do tipo pizzas e hambrgueres, em uma pequena rea comercial cheia de estudantes,
a maioria dos quais eram mais jovens do que Allie ou Rocky, seus filhos mais novos. Depois de orientar o motorista para vir busc-lo em mais ou menos uma hora, entrou.
Ele no localizou Erika imediatamente. Ento a viu, parecendo aproximadamente dez anos mais jovem do que a elegante mulher casada da sociedade que se apresentou
brevemente no Palcio da Justia.
   Ela estava usando um conjunto de blusa e pulver de cachemira cinza, sobre uma minissaia de xadrez, verde e cinza, com sapatos baixos, de camura cinza. Uma malha
de ginstica chamava ateno para suas fabulosas pernas. Seus cabelos soltos, louro prateado, caindo na frente, estavam presos por um barrete.
   - Voc parece uma das jovens - disse ele com aprovao enquanto deslizava no banco de uma das mesas, do lado oposto a ela.
   Ela sorriu.
   - Isto soa como um elogio. Diga-me o que est acontecendo.
   Uma garonete trouxe os cardpios e eles adiaram a inevitvel conversa sobre seu caso para pedir uma salada para ela e um Califrnia burgus para ele, com fritas
e guacamole. Logo porm estavam avanando a conversa para as ltimas revelaes, sendo a primeira e mais premente entre elas a entrevista de Brandon Malone para
a mdia, sobre as declaraes juramentadas relacionadas  sua me. Para Erika, Jake parecia menos preocupado com suas razes como motivo para o assassinato, do que
estava com o que poderiam revelar sobre seu parentesco.
   - Voc acha que existe alguma verdade quanto s alegaes daquelas testemunhas que o detetive de Mnica entrevistou? - perguntou ela. - Eu estava para lhe telefonar
na sexta-feira, para perguntar se voc j tinha feito o exame como possvel doador de medula ssea para a filha de Jessica Holmes, quando assisti quele segmento
do noticirio. Eu me dei conta de que, se as alegaes contidas nas declaraes estiverem corretas, no haveria muito sentido em fazer o exame. Qualquer coincidncia
entre vocs dois... ou entre Annabel Holmes e nossos filhos... seria acidental.
   A possibilidade, talvez at a probabilidade, de que ele no fosse filho de Ben Fortune no parecia incomodar muito a ela. Longe de faz-lo sentir que era o homem
com quem se preocupava, e no sua riqueza herdada ou sua rvore genealgica, algo que, por direito, deveria t-lo alegrado, sua atitude o levou a entrar em depresso
outra vez. Se sua ex-mulher achava que as informaes contidas nas declaraes obtidas por Mnica eram verdadeiras, ento provavelmente eram. Ela sempre teve um
raro senso de julgamento.
   De sua parte, Erika podia senti-lo escapando para longe enquanto a comida chegava e ele pegava o sanduche, deixando as fritas, que normalmente devorava at o
ltimo pedao, quase no tocando nelas. Lamentavelmente, ela estava ciente que, tendo descendido de um nvel onde um relacionamento significante que tinha o potencial
de os unir, sua conversa deteriorou-se para sua habitual ladainha de solicitar a ela para pedir s crianas para terem f nele e sua correspondente reconfirmao
de que eles no precisavam ser lembrados e que estavam cem por cento apoiando-o.
   Ele no deu nenhum sinal sobre um desejo de sua parte de reestruturar o casamento desfeito deles. Ou pediu a ela para ter f nele tambm. To esperanosa estava,
quando recebeu a ligao dele, de que as coisas poderiam estar mudando para melhor, apesar dos problemas que estavam enfrentando, que ficou cada vez mais desanimada.
Ao se separarem, ela concluiu com o corao pesado que provavelmente estava tudo terminado entre eles, exceto as gritarias.
   Foi apenas depois que ela havia partido, dirigindo seu novo Acura, e Jake ter sentado em sua limusine, voltando em direo ao confinamento seguro da propriedade
da famlia Fortune, que ele realmente se concentrou em sentir sua falta. Desde que se separaram, suas noites tm sido longas e solitrias. Ele no podia evitar imaginar
como seria bom t-la na cama com ele outra vez. Logo, porm, seus pensamentos estavam emaranhados de volta nas complicaes do seu caso.
   Enquanto isso, em sua gigantesca casa, decorada com bom gosto, em dos subrbios mais elegantes de Minneapolis, Nate estava descarregando sobre sua paciente e
amvel segunda mulher, Brbara, por causa da teimosa determinao de Jake de acabar com a companhia.
   - Estou dizendo que no consigo chegar at ele! -exclamou Nate, andando como um tigre na jaula, sobre o requintado tapete Aubusson que decorava sua sala de estar.
- Se ele continuar no cargo... insistir em continuar no comando enquanto est sendo julgado pelo assassinato de Mnica Malone... vamos perder a companhia. No 
justo para comigo, Lindsay ou Rebecca, ou a gerao da famlia Fortune que vir depois de ns. Deus, como eu desejaria que nossa me ainda estivesse viva. Ela saberia
como lidar com ele.
   No fim de semana seguinte, Jess convidou a famlia Todd e Stephan para jantar. Tanto ela como Lindsay ficaram felizes pelo modo como as crianas de Lindsay, especialmente
Chelsea, de sete anos, se entrosaram com Annie. Desde que veio para a Amrica, era a primeira vez que sua filha, desesperadamente doente, se sentia bem o suficiente
para se socializar e tambm a primeira vez que teve amigos de idade semelhante com quem faz-lo.
   - Eu espero que Chelsea e Annie possam passar mais tempo juntas - disse Jess quando desejava boa noite a Lindsay e Frank. - O Carter tambm,  claro, apesar dele
no estar to fascinado com a casa de bonecas de Annie como sua irm mais velha.

   Tendo permanecido aps seus vizinhos terem sado, Stephen ajudou Jess a lavar os pratos e sentou na cama de Annie para ler vrias histrias, antes que Jess assumisse
para dar-lhe um beijo e coloc-la para dormir. Ele estava esperando por Jess quando ela voltou para a sala de estar.
   Mais de uma semana havia transcorrido, desde que fizeram amor em frente  lareira e mais tarde tinham aproveitado para uma reprise na cama de Jess. Desde ento,
desejavam um ao outro sem cessar, e portanto no demorou at que estivessem se beijando profundamente, nos braos um do outro.
   Finalmente, com o desejo se sobrepondo a seu bom senso, Stephen implorou a Jess para deix-lo ficar tempo suficiente para fazer amor com ela.
   - Annie no precisar saber - argumentou ele.
   - Pelo contrrio, desde que adoeceu ela tem tido um sono um tanto agitado - respondeu Jess, gentilmente se I desembaraando de seus braos. - A verdade  que
ela pode entrar aqui a qualquer momento. E eu no quero que fique escandalizada.
   Forado a concordar, apesar de ser o anncio do fim de suas esperanas, Stephen se desculpou por sua falta de bom senso. Mesmo assim, no poderia negar que sua
necessidade dela no podia ser abrandada.
   Alguns minutos depois, despediram-se na varanda da frente do chal.
   - Tem que haver um modo de podermos ficar juntos, querida - insistiu ele, ciente de que amor era a emoo que ele sentia enquanto a apertava contra si, sob a
fraca luz vindo da janela da sala de estar.
   Mesmo ao mencion-lo, duvidava que Jess estaria disposta a deixar sua fofa e frgil filha com uma bab. A nica outra opo para eles seria o casamento. E ele
estava com muito medo do que aconteceria se no pudessem achar um doador para Annie, ou seu transplante no corresse bem, para dar esse passo.

   Na casa grande, escondida atrs do denso arvoredo, Jake estava se servindo de outro usque enquanto se preocupava com as aes que havia vendido a Mnica, para
silenci-la sobre sua relao de parentesco. Graas quela venda, que aconteceu atravs de uma srie de transferncias, ao longo de vrios meses, ele havia perdido
muito de sua influncia como acionista. Se Nate armasse uma sria tentativa de remov-lo da presidncia, e uma quantidade suficiente de acionistas desgostosos dessem
a ele procurao com poder de voto, ele poderia ser bem-sucedido.
   O fato era que ele precisava daquelas aes.
   Como consegui-las? Brandon Malone, o filho da falecida estrela de cinema, no tinha nenhum motivo para entregar a ele o que queria, no importava o preo astronmico
que oferecesse por elas.
   Mais alguns goles de sua bebida e j estava pensando de modo diferente. De acordo com Gabriel Deveraux, o detetive que Stering Foster tinha colocado no caso,
o inventrio de Mnica ainda no estaria concludo, por algum tempo. Tais assuntos normalmente levavam anos para seguir seu caminho no Judicirio. Alm disso, com
exceo de sua casa decadente em Minneapolis e uma semelhante na Califrnia, onde Brandon atualmente ficava, somando as aes da Fortune e, o que Jake estimava,
seriam poucas centenas de milhares em dinheiro, depois que fossem pagas as dvidas que ela acumulou durante vrias dcadas de uma vida de luxo, pelos padres de
Hollywood, no sobraria muito da herana.
   Era de conhecimento comum em Minneapolis que Brandon desejava ser reconhecido como ator. Desde a morte de sua me adotiva, com seus 37 anos de idade, vinha negociando
para comprar a crdito uma produtora, na esperana de poder exibir seu prprio modesto talento. Dinheiro na mo poderia tent-lo.
   Quanto mais Jake pensava sobre isso, mais a idia adquiria um apelo louco. Homens fortes tomam medidas drsticas quando passam por momentos difceis, disse a
si mesmo. E claro que as aes ainda no pertenciam a Brandon, uma vez que o inventrio no havia terminado ainda. Mas ele poderia dar a Jake uma opo de compra
e entregar as aes quando as herdasse.
   Com a opo em mos, Jake poderia usar seus votos como se as aes nunca tivessem deixado sua posse. Apesar de estar atualmente sendo negociadas na Bolsa pelo
valor histrico mais baixo, suas antigas aes da Fortune ainda valiam milhes, o suficiente para que o aspirante a ator pudesse financiar um filme de oramento
reduzido ou colocar uma empresa de produo em andamento.
   Num impulso, Jake telefonou para Gabe Deveraux para obter o nmero de telefone de Brandon Malone. Relutantemente, fornecido por ele, ignorou o aviso do detetive
de ficar longe do herdeiro de Mnica e discou para a Califrnia com uma nova bebida a seu alcance.
   Atendeu uma mulher, com sotaque filipino. A pedido de Jake, chamou Brandon ao telefone.
   - Sim?
   - Aqui  Jake Fortune, de Minneapolis - disse Jake, repentinamente incapaz de evitar pronunciar palavras de forma ininteligvel. - Eu tenho uma oferta pra voc,
que no pode recusar.
   De acordo com o advogado do condado de Hennepin, Jake Fortune tinha assassinado a me de Brandon. Brandon tendia a acreditar. Em sua opinio, tinha havido motivo
suficiente para que o presidente da Fortune o fizesse.
   - Isto  uma piada, certo? - perguntou ele com amargura.
   - No - Jake assegurou a ele. - Estou sendo direto e objetivo. Sua me me fez vender atravs de chantagem, a maior parte das minhas aes das Indstrias Fortune.
Eu quero compr-las de volta. Eu ti dou 20 por cento a mais do que o preo de venda na Bolsa de Wall Street. Voc pode usar o dinheiro para comea aquela empresa
de produo que voc quer, sem precisa espera o fim do inventrio. Voc pode me dar uma opo...
   Finalmente acreditando que a ligao era sria, e que ele era realmente quem dizia ser, Brandon pensou por um momento. Estaria o executivo das Indstrias Fortune
oferecendo a ele uma oportunidade de se vingar da morte de sua me? Refletindo por um momento, pediu a Jake para repetir a oferta.
   - Ento, o que me diz. - Perguntou Jake depois de haver repetido. - Estamos de acordo?
   Sabedor que as condies da fiana de Jake no permitia que ele deixasse o condado de Hennepin, Brandon sugeriu que ele viesse at a Costa Oeste para fechar o
negcio imediatamente.
   - Voc esta certo em achar que eu preciso do dinheiro - reconheceu ele, astutamente. - O problema  que eu preciso dele agora e no daqui a trs dias, ou na semana
que vem. Se voc puder vir imediatamente, como hoje  noite, eu vendo. .De outro modo, pode esquecer.
   Flutuando como estava em um mar de usque, com suas faculdades crticas adormecidas, Jake achou a disposio de Brandon para vender como a resposta para suas
preces. De seu ponto de vista, havia tomado as rdeas da situao, no processo de completar o circuito em torno de seu irmo.
   - Estou a caminho. - disse ele. - Vejo-o quando chegar a..
   Interrompeu a chamada e ligou para sua linha area preferida, reservando um bilhete de primeira classe para aquela noite, usando seu carto de crdito. Era muito
tarde para acordar seu motorista, a quem, de qualquer forma, havia dispensado horas antes. Decidiu dirigir at o aeroporto. Pegando um casaco esporte e seu talo
de cheques do cofre na biblioteca, saiu em busca de seu Porsche. Voc pegou Nate com as calas arriadas, parabenizou a si mesmo, roncando o motor na garagem e descendo
a ladeira at o porto eletrnico. No importa o pai de quem ele era, o velho Ben Fortune teria orgulho de voc.
   Do modo como bamboleava e costurava no trfego, foi um milagre no ter sido parado por dirigir embriagado. Conseguindo pagar pelo bilhete e encontrar o porto
de embarque, apesar de alguns atropelos, consumiu mais usque na primeira classe e ento roncou o resto da viagem, alegremente ignorante de que Brandon havia alertado
as autoridades, ligando para informar que ele estava no processo de transgredir as condies da fiana.
   Na hora em que o piloto ligou os avisos de apertar os cintos, em preparao para a aterrissagem no Aeroporto Internacional de Los Angeles, enquanto dormia, passou
um pouco o efeito do lcool e ele comeou a se preocupar com as condies da fiana. Se ele fosse pego no ato, ficaria atrs das grades at depois do julgamento.
Seu estmago revirando e seus nervos tensos como se tivessem ns, ele reconheceu que tinha feito uma grande bobagem. Agora tinha vindo longe demais para recuar.
Comprarei as aes do pirralho Malone, o mais rpido que puder, e pego outro bilhete para casa em um vo regular, sob um nome falso.
   Ele estava mais que um pouco nervoso, enquanto o avio se dirigia para o porto de desembarque. Ainda assim, no incio, quando entrou na fila de sada do Boeing
757, atrs de uma famlia com vrias crianas, ele pensou ter escapado de sua transgresso. Foi apenas depois que passou pelo porto e comeou a andar no amplo salo,
que dava para o resto do aeroporto, que seu corao afundou, quando algum colocou uma mo firme em seu ombro.
   - Jacob Fortune - uma voz baixa falou em seu ouvido - voc est preso por transgredir os termos de sua fiana. Voc tem o direito de permanecer calado...
   Totalmente sbrio, enquanto os demais passageiros e centenas de outros viajantes, que passavam pelo movimentado aeroporto, abriam caminho para ele, Jake logo
se viu no caminho de volta para Minneapolis, algemado a um detetive do departamento de polcia de Los Angeles, por ordem de um juiz daquela cidade.


   Captulo 9

   Conforme era esperado, a fiana de Jake foi formalmente revogada na manh seguinte, pelo mesmo juiz que a havia concedido e que presidiria seu julgamento, alguns
meses adiante. Alm daquele golpe atordoante, ele recebeu uma severa e vergonhosa preleo, que foi apropriadamente gravada para consumo pblico por uma tropa de
reprteres da tev e da imprensa.
   - Aparentemente, voc precisa ser lembrado..., todos os cidados deste grande pas so iguais perante a lei, quer tenham subido com dificuldades ou desfrutem
uma posio privilegiada na sociedade, como voc - o repreendeu o juiz. - Quando as condies da fiana so estabelecidas, para qualquer um, rico ou pobre, socialmente
proeminente ou no, so feitas para serem obedecidas, e no zombadas. Uma vez que voc preferiu a zombaria, ir aguardar julgamento na cadeia do condado, no importa
quanto tempo isto leve. No pense, em nenhum momento, que possa prevalecer-se desta corte para, atravs de novos pedidos de indulgncia, obter abrandamento.
   Totalmente humilhado, Jake estava no ponto mais baixo de sua decadncia, enquanto era levado para sua cela.
   Tanto Sterling quanto seu famoso advogado de defesa estavam furiosos com ele. Alm disso, ele havia alertado o juiz que estabeleceria vrias regras durante o
curso de seu julgamento e das moes anteriores ao julgamento. Quanto a Brandon Malone, ele provavelmente estava, insensatamente, dando gargalhadas. O diabinho me
armou uma armadilha e eu ca direitinho, reconheceu Jake em desespero enquanto a porta da cela batia e sua tranca retinia, isolando-o de sua famlia, da empresa
que ele estava convencido que seu irmo tentava tirar de seu controle e do resto do mundo sem criminosos.
   Sim, Brandon Malone tinha feito dele um bobo espetacular. Um momento depois, sob sbria e dolorosa reflexo, reconheceu que praticamente convidou o filho de
Mnica a derrot-lo. O merecido sermo que recebeu do juiz, de Aaron Silberman e, especialmente, de Sterling, quando o advogado da famlia ficou sabendo de sua transgresso,
ecoava em seus ouvidos, como uma ladainha de acusaes.
   Quando ficou sabendo da confuso que Jake tinha armado, Erika quase no acreditou. Pode ser este o homem com o qual casei, pai de meus filhos?, pensava ela. Ou
ter algum impostor tomado o seu lugar? O Jake que eu conhecia era muito mais esperto para permitir ser torpedeado dessa forma. Porm, mesmo com esses pensamentos
passando por sua cabea, ela lembrou como, durante seu almoo, no pequeno restaurante de hambrgueres, perto da escola, ele havia se transformado, de uma aparncia
de seu antigo eu, para de um homem infeliz, que havia acabado com seu casamento como se fosse um castelo de cartas e saiu para se auto destruir.
   Seria to fcil culpar o abuso do lcool para o que tinha acontecido. Seus problemas na empresa. Ou o ataque no provocado de Mnica Malone na sua relao de
parentesco. Mas ela reconhecia que essas eram essencialmente coisas superficiais, no caso da bebida, apenas um sintoma. Em algum lugar fundamental em seu ntimo,
ela pressentia que ele sentia uma falta agonizante. Seja qual for o motivo, provocou que ele ficasse insatisfeito com o modo pelo qual sua vida resultou e o homem
em que ele se transformou, agora que atingiu os 50 anos de idade. Ele no iria querer v-la, imaginou ela, no das profundezas de sua humilhao e provvel raiva
de si mesmo. Ainda assim, algo nela no descansaria, at que fizesse contato com ele. Pronta para se vestir para uma visita no anunciada em sua habitual indumentria,
cara e feita sob medida, ela lembrou de um clipe na tev que mostrava Jake em seu uniforme de priso e caiu em si, o quanto tal traje levantaria uma barreira que
os separaria.
   Com o seu cabelo preso em um rabo-de-cavalo, e sua face com apenas o mnimo toque de maquiagem, ela estava usando um pulver cinza de algodo, uma cala de malha
combinando e o par de tnis que usava quando trabalhava no jardim, quando chegou  cadeia e juntou-se s demais pessoas, parentes e amantes que estavam se alinhando
para visitar a atual safra de presos, durante o horrio de visitas.
   Enquanto aguardava que um carcereiro trouxesse Jake at uma das janelas de visitantes, ela pensou que seu esforo podia dar em nada. Porm, quando ela chegou
na cabea da fila, ele logo saiu para encontr-la conforme solicitado, sem fazer a barba e carregando uma expresso de desnimo.
   - Erika... eu gostaria que voc no tivesse vindo -Protestou ele, fitando-a com arrependimento. - Isto no  lugar para voc.
   - Ainda somos famlia, Jake - respondeu ela. - Ns temos filhos juntos. A verdade ... - Quase dizendo que ainda o amava, conteve-se. Ela no desejaria aumentar
mais ainda a carga de suas emoes. - Eu estava pensando se havia alguma coisa que pudesse fazer - Ela concluiu, sem convencer. - Voc sabe... Qualquer coisa relacionada
aos negcios que eu poderia buscar e trazer para voc. Ou coisas que voc necessitasse.
   Ele sacudiu a cabea. Independente das tentativas de Nate de tir-lo do poder, a empresa teria que esperar.
   - Simplesmente diga s crianas para terem f em mim, est bem? - pediu ele. - Que sou inocente. E que me afastei do lcool para sempre. Juro por Deus que no
vou envergonh-los mais desse modo, outra vez.
   Era a ladainha habitual, calculada para mant-la longe. Por mais que gostasse de seus filhos, Erika sentiu cimes. Jake no mais se importava com ela. Para ele,
ela no era mais importante.
   Era tudo que ela podia fazer, para administrar mais alguns minutos de conversa banal com ele e assegur-lo de que faria como estava pedindo. Dando-lhe um melanclico
adeus, dirigiu para casa e trocou de roupa, para um de seus tpicos trajes, um blazer de camura cereja e um pulver de cachemira combinando, com uma saia de tweed
Donegal, para ir assistir a uma aula de cincias humanas. Profundamente imersa em pensamentos sobre Jake e o que o futuro poderia reservar para ele, estava indo
para a biblioteca, depois da aula, com alguns livros que precisava devolver, quando um dos professores, um instrutor de histria, que havia flertado com ela desde
o incio do semestre, acompanhou seus passos.
   - Fazendo algo especial esta noite? - perguntou ele.
   Normalmente acostumada a lidar com abordagem dos homens, o que rotineiramente aconteceu durante o tempo que durou seu casamento, mesmo durante o incio da gravidez,
Erika se surpreendeu.
   Verdade se diga, ela se recuperou rapidamente.
   - Pensei que poderia comear a estudar para o exame de francs - respondeu ela com um sorriso.
   O professor de histria sorriu, tambm.
   - Tem uma nova e tima cantora no Dakota Bar and Grill, em St. Paul - disse ele. - Ela vem das ilhas de Cabo Verde e canta em portugus. Alguma chance de voc
querer ir?
   Seu ego massageado pelo interesse do homem, o que ajudou a amenizar a falta Jake, quando ela o visitou, Erika ponderou sobre o convite por alguns segundos. Mas
ela nunca o considerou seriamente. Existe uma coisa chamada lealdade, disse a si mesma, escolhendo se manter distante de seus sentimentos ao descrever em tais termos.
Jake est no ponto mais baixo de sua decadncia. Independente do fato de que nosso casamento est por um triz, se eu sasse com algum, no poderia viver comigo
mesma.
   - Lamento, no posso... Por motivos pessoais que no tm nada a ver com voc - respondeu ela. - Mas obrigada pelo convite.
   Ele no parecia estar zangado.
   - Sem problema - respondeu ele, com um sorriso. -Talvez em outra ocasio.
   Enquanto ele dizia at logo, e dirigia-se ao estacionamento, sua amizade e admirao bvia aqueceu o corao de Erika. Eles lhe deram esperanas de que, quando
os problemas de Jake fossem resolvidos, e ele se encontrar consigo mesmo, ele poderia ach-la desejvel outra vez.
   Com sua teimosia caracterstica, ela se recusava a pensar que ele pudesse ser condenado pelo assassinato de Mnica, e portanto se afastarem para sempre.
   Perturbada com a ltima crise a eclodir na vida de Jake, Lindsay passou pelo chal de hspedes, na propriedade da famlia Fortune, na manh do sbado, para que
Chelsea e Annie pudessem brincar juntas e ela pudesse tomar uma xcara de ch com Jess. J grandes amigas, as duas meninas se acomodaram para brincar com a casa
de bonecas que Stephen tinha dado a Annie, como presente de boas-vindas. Apesar dela ter dado um breve sorriso no incio, do que provavelmente seria o comeo de
uma estreita amizade entre as meninas, independente da diferena de idade de trs anos, a testa de Lindsay, que normalmente apresentava-se lisa, estava ligeiramente
vincada quando se sentou em uma cadeira  mesa da cozinha.
   - Eu lamentei tanto saber o que aconteceu com seu irmo - disse Jess, enquanto arrumava as folhas de ch Earl Gray em um pote de porcelana azul e branco e colocava
dois bolinhos no forno.
   -  incrvel, no ? - Lindsay concordou. - Eu mal posso acreditar que ele  o mesmo irmo mais velho para quem eu olhava como um tipo de pai substituto, quando
eu tinha a idade de Chelsea. E difcil imaginar o que ele estava pensando.
   Em parte devido aos seus problemas, Jake foi um dos poucos adultos da famlia Fortune que no havia se submetido a exame de compatibilidade com a medula ssea
de Annie. Dada sua situao atual, imaginou Jess, seria melhor no mencionar isso. Porm, ela ansiava por no deixar nenhuma pedra sem ser virada, ao procurar ajuda
para sua preciosa filha.
   Meio temerosa de perguntar, por medo de que as notcias no seriam boas, ela mencionou o assunto, depois de alguns minutos de conversa sobre os efeitos dos problemas
de Jake na famlia Fortune em geral, enquanto servia o ch e colocava os bolinhos com manteiga na mesa.
   - Eu detesto soar como uma pessoa de um nico assunto, mas eu estava pensando se voc j recebeu notcias sobre os exames de sangue de Kyle e de Jane - murmurou
ela quando Lindsay tomou um gole de sua fumegante bebida.
   Como se fosse possvel, a face da pediatra de cabelos castanhos adquiriu uma aparncia de maior desgosto ainda.
   - Jess, sinto muito... eu devia ter-lhe dito no momento em que entrei - disse ela. - Nem Kyle e nem Jane tm mais que dois antgenos que combinem. Como voc sabe,
isto no  o suficiente. Nate tinha um e Michael, zero.
   - Falei com Kristina ontem  noite e ela vai fazer o exame - acrescentou Lindsay segurando sua mo por sobre a mesa.
   - Estando as possibilidades reduzidas, acho que  hora de enfrentar isso e submeter s crianas ao exame...
   Jess tinha grande esperana que Lindsay viesse a considerar esse passo. Sendo me ela prpria, podia imaginar que sua amiga gostaria muito pouco da perspectiva
de ' Chelsea ou Carter se submeterem ao processo de doao.
   - Acho que voc pode imaginar o quanto estou agradecida, Lin - disse ela. - Naturalmente que reconheo ser uma difcil deciso para voc. Estou certa de que se
nossas posies estivessem invertidas e Chelsea estivesse no lugar de Annie, eu ficaria apreensiva em Annie faz-lo.
   Lindsay apreciava a generosidade da declarao de Jess.
   - Voc tem razo... Eu estou um pouco preocupada quanto  dor que estaria envolvida, apesar de geralmente ser mnima - concordou ela. - Sem mencionar a possibilidade
de que poderia dar medo. Ainda assim, Frank e eu queremos que eles cresam como membros responsveis de sua famlia e da comunidade. Eu imagino que no me perdoariam
por no deix-los ajudar, se ficarem sabendo que poderiam ter feito diferena quando crianas.
   Um acolhedor silncio envolveu as duas mulheres, ao olhar uma para a outra como irms.
   - Voc sabe que eu nunca deixaria Annie morrer, se eu pudesse fazer alguma coisa para impedir - adicionou Lindsay. - Felizmente Chelsea e Carter no so as nicas
possibilidades. Alm de Kristina, tem o filho de Jane, Cody, com oito anos, e a filha de Kyle, Caithlyn, com dez anos. Suponho que poderamos examinar os netos de
Jake tambm, apesar de parecer existir uma forte possibilidade de no serem verdadeiros descendentes de seu av.
   Jess balanou a cabea. Usando informao colhida em fragmentos, atravs de comentrios feitos por membros da famlia, ela tambm tinha feito uma lista de candidatos
em potencial. O nico que Lindsay deixou de mencionar, alm do prprio Jake, foi o novo beb de Michael que, de qualquer forma, era novo demais para doar.
   - Deixando de lado a doena de Annie, ter voc com prima e confidente preencheu uma grande necessidade minha - confidenciou ela, com seus olhos brilhando co as
lgrimas no vertidas, enquanto a mistura de emoes que ela geralmente mantinha escondida a fez engasgar e f sua garganta. - Vindo de uma famlia grande, com muitas
interaes, como a sua, voc no pode ter idia de com tem sido para ns. Do lado de minha av, ns temos to poucos parentes... e quando fiquei sabendo que os membros
da famlia Simpson no eram parentes consangneos, senti-me como se estivesse sozinha no mundo. Ser aceita e ajudada por voc e pelo resto da famlia Fortune tem
sido to maravilhoso...
   A esta altura Lindsay confiava totalmente que Jess no tinha motivos ocultos no que se referia a ela e sua famlia. Assim, havia algo sobre o qual ela vinha pensando.
   - Eu sei que voc me disse que os membros da famlia do seu finado marido submeteram-se ao exame e no puderam fornecer a medula ssea que Annie necessita - disse
ela. - Mas e sobre apoio moral? Certamente que aps a morte dele eles no a abandonaram simplesmente.
   O olhar de Jess indicou que ela havia tocado em um ponto sensvel.
   - Na verdade o pai de Annie e eu estvamos no processo de obteno de divrcio quando ele morreu num acidente de carro com sua secretria, confessou Jess. -Ele
vinha tendo um caso com ela, sabe. No era a primeira. A infeliz moa foi s a ltima de uma srie de amantes que vinha desde os tempos de nosso dia de casamento.
Os parentes dele no tinham idia do comportamento dele,  claro. Quando o assunto surgiu no inqurito, eles se recusaram a lhe dar qualquer crdito, na verdade
puseram a culpa em mim, por estar inventando tudo e manchando sua memria.
   Como mulher muito amada, de um marido adorvel e que nunca tinha dado o menor motivo para duvidar da fidelidade dele, Lindsay estava estarrecida. Nada em sua
experincia, nem mesmo o pesar pela morte de seus pais, podia se comparar  angstia de ser tratada daquela forma.
   - Que horror, Jess! - exclamou ela, segurando as mos dela. - Primeiro uma srie de tragdias como essa. E depois a doena de Annie!
   O apoio de uma parente e amiga que realmente se preocupava amenizou um pouco mais da dor de Jess. O crescente lao com Stephen tinha comeado a fazer o mesmo
efeito. Mesmo assim, h momentos em que a incerteza supera a felicidade.
   Enquanto estava sentada ali na cozinha com Lindsay, ela reconheceu que ainda havia pontes incontveis para serem cruzadas entre aquela fria e ensolarada manh
de setembro e o momento sonhado em que Annie estaria livre da doena e pronta para retornar  Inglaterra ou comear nova vida na Amrica. Quando a hora chegasse
para decidir quanto a um futuro lar, ela iria querer ficar ou partir? Como Annie se sentiria? Estariam elas fincando razes que causariam um doloroso sofrimento
se fossem arrancadas do solo de uma nova famlia ou de um novo pas?
   Mais importante, ser que o homem que Jess comeou a amar e confiar, aps duvidar que experimentaria tais emoes outra vez, revelar-se-ia um guia estvel em
suas vidas? Ou ele as abandonaria? Tendo experimentado sua cota de tristeza e desiluso, ela sentia que tais emoes haviam marcado o passado dele tambm, com origem
em algum trauma que ia mais fundo do que a dor de um divrcio e poderia tornar difcil a ele se comprometer com ela. Apesar dela detestar especular em tais linhas,
no podia deixar de imaginar se ele se sentiria seguro em seu relacionamento, uma vez que estava subentendida uma data limite de corte.
   Somente o tempo responderia a tais perguntas. Nesse meio-tempo, estavam efetivamente impedidos de fazer amor, devido  presena de Annie. A tenso, originada
de sua abstinncia, estava comeando a crescer.
   Annie e Chelsea escolheram aquele momento para entrar correndo na cozinha, com as bonecas da casinha na
   mo, pedindo para comer. Jess sentou-as  mesa e serviu canecas de leite, bananas e biscoitos de aveia e passas, feitos em casa, enquanto Lindsay enchia outra
vez as canecas delas.
   - A temperatura de Annie parece normal esta manh -observou Lindsay, verificando a testa de sua pequena paciente. - Creio que sem tosse ou espirros?
   Jess sacudiu a cabea.
   - At agora, viagem tranqila.
   - Stephen me diz que vocs dois no tm tido tempo para si, desde que Annie chegou do hospital. Voc acha que se sentiria confortvel em deixar Annie com uma
bab, alguma noite, se eu puder recomendar uma de confiana?
   Jess sentiu um ardor por dentro. Desesperado para estar a ss com ela, Stephen havia abordado Lindsay para pedir ajuda.
   - Eu queria muito, mas tenho receio de que algo acontea...
   - Annie pode se cuidar por algumas horas sem voc. A Sra. Larsen, que usamos como bab de Chelsea e Carter durante a semana, est freqentemente disponvel 
noite e nos finais de semana. Ela est com 65 anos de idade.  av de trs. E  absolutamente agradvel. Alm do mais, Frank e eu estamos a curta distncia em caso
de emergncia. Se Stephen a convidar para sair outra vez, eu acho que voc devia aceitar.
   Stephen no perdeu tempo. Avisado por Lyndsay que ela no rejeitara a idia de usar a bab, ele telefonou para a Sra. Larsen para confirmar se estava disponvel
e convidou Jess para jantar na casa dele naquela mesma noite.
   Ele foi busc-la por volta das 19h, depois que Annie havia jantado e se acomodado no sof da sala para que a Sra. Larsen pudesse ler uma pilha de livros de histrias
para ela. O ar que pairava entre eles estava carregado de promessas enquanto ela lhe dava um leve beijo, sem excessos, e se afastava para deixar que Annie tivesse
um momento de sua ateno, antes de sarem apressados pela porta.
   Programada para estar de volta  meia-noite, eles teriam cinco horas juntos. Jess queria aproveit-las ao mximo. Ela podia sentir a correspondente urgncia de
Stephan pelo modo possessivo com que seus dedos apertaram sua cintura por cima do casaco de l, risca-de-giz, enquanto a ajudava a entrar na Mercedes.
   - Espero que voc goste de um simples fil americano grelhado e batatas cozidas - disse ele em voz baixa enquanto ligava o motor. - Apesar de estar um frio gostoso
hoje  noite, por algum tempo ainda no estar muito frio demais para grelhar no deck da varanda.
   Jess tinha ouvido falar que em Minneapolis a neve chegava cedo. Apesar dele no ter feito nenhuma promessa, ela confiava que ainda estariam juntos quando aquele
momento chegasse.
   - Fil me parece timo - respondeu ela, se aconchegando a ele.
   Sua casa estava a apenas cinco minutos de distncia pela estrada que acompanhava a sinuosidade da margem do lago. Sua casa, construda em ngulo e em estilo moderno,
estava brilhando com luzes, quando chegaram na entrada da garagem.
   Sorrindo, Stephan abriu o porto da garagem com seu controle eletrnico. Um momento depois, estavam estacionando, com ele logo a levando para cima atravs dos
degraus de pedra, que levavam  cozinha. Ela notou o exaustor de cobre, os armrios em cerejeira e bancadas de concreto - uma mesa finlandesa e cadeiras arrumadas
diante de uma lareira de tijolos vermelhos com acesso dos dois lados. Uma garrafa de vinho Bardolino e duas taas estavam prontas, e aguardando. Alm de uma cafeteira,
um jogo de potes de ao, uma torradeira e um microondas, as bancadas estavam lisas. Aparentemente, sua ex-mulher levou a maior parte dos apetrechos de cozinha, inclusive
os livros de receitas.
   - Voc gostaria de vinho? Ou prefere conhecer primeiro a casa?
   - Estou curiosa para conhecer a casa, depois o vinho, se voc concordar.
   Na opinio dela, faltava  sala um toque de maciez e aconchego que uma tapearia afeg e algumas almofadas soltas poderiam trazer. No parece que algum dia uma
criana tenha vivido nesta casa, pensou ela. Ou, mesmo, tenha passado algum tempo aqui como visitante.
   Sua surpresa foi maior ainda quando, num dos quartos, viu uma moblia infantil de carvalho, uma extensa coleo de brinquedos, livros e equipamento de esporte
mirim masculino. Nenhum deles pareceu ser novo. O quarto estava impecavelmente arrumado, como se nenhuma criana houvesse brincado ou dormido ali por anos.
   - De quem  este quarto? - perguntou ela, lanando-lhe um olhar inquisitivo. - Eu pensei que voc no tivesse filhos. Ainda assim, aqui tem um quarto absolutamente
perfeito para um menino.
   - Eu no tenho - disse a ela. - Isto , no tenho filhos.
   - Ento... no entendo.
   - Meu, ah, sobrinho vem para c de tempos em tempos. - Falar com ela sobre David injetaria a dor de sua perda no relacionamento deles. E, por enquanto, ele no
queria isto. Alm do mais, seria cruel conversar com ela sobre um filho falecido quando sua filha estava to doente.
   Stephen no tinha mencionado ter um sobrinho. Ou qualquer tipo de famlia.
   Ele pareceu relaxar um pouco quando lhe mostrou o quarto principal, que continha uma cadeira estofada em couro, uma almofada combinando e uma estreita e moderna
luminria para leitura, bem como vrios tapetes orientais menores e uma sute mobiliada com mveis dinamarqueses.
   Seja l o que foi que o tenha ferido no passado, ele vai me contar, ela assegurou a si mesmo.
   Alm do fil, ele serviu batata cozida na brasa e uma salada fresca feita com tomates, cebola, pedaos de queijo feia grego e azeitonas pretas. O po francs
veio da padaria local. A medida que comiam e bebiam o vinho,  luz da lareira, eles falaram sobre Annie, da famlia Todd, das confuses de Jacob Fortune.
   Depois de Jess haver recusado sobremesa e se oferecido para ajudar a lavar a loua, Stephen respondeu com voz rouca.
   - Eu lavo pela manh - e levantou-a.
   - O que faremos ento? - perguntou ela, sem flego, aprisionada em seu abrao.
   Seus olhos azuis, herana de seus ancestrais noruegueses e ingleses do qual ele tinha falado, adquiriram uma aparncia fumegante.
   - Que tal fazermos algo que temos evitado fazer desde que Annie chegou em casa?
   Ela havia vindo para ver sua casa e, mais que tudo, fazer amor com ele.
   - Jess... Jess... voc est afinal realmente aqui comigo? - disse Stephen, maravilhando-se enquanto passava suas mos de cima a baixo em suas costas e agarrava
suas ndegas, para melhor posicion-la contra si. - Voc no pode ter idia do quanto tenho lhe desejado...
   - Ah, no posso?
   - Diga-me - pediu ele.
   - Nem uma noite se passou que eu no tivesse sonhado que voc entraria pela janela de meu quarto para me possuir - sussurrou ela.
   - Eu gostaria de saber o que voc andava pensando -respondeu ele amavelmente, acariciando os bicos dos seios dela, enquanto procurava se achegar mais. - Eu teria
pulado uma cerca eletrificada para busc-la, querida, se necessrio fosse.
   No transcurso das duas semanas seguintes, seus encontros para jantar continuaram, sem abrandar, enriquecendo tanto a eles como  benevolente Sra. Larsen, que
cuidava de Annie como se fosse sua prpria neta.
   Ao sabor de uma nvoa romntica, Stephen estava encerrando o dia de trabalho, uma tarde, no prdio profissional adjacente ao hospital, quando sua secretria lhe
passou um bilhete. Sua ex-mulher, Brenda, queria lhe falar.
   O que ser que ela tem em mente, pensou ele apreensivo.
   - Pea a ela para aguardar, se puder - instruiu ele. -Estarei com ela em um momento.
   Incrivelmente, pela segunda vez seguida, a notcia de Brenda era boa.
   - S liguei para agradecer o conselho que voc me deu na noite em que Tom e eu tomamos uma bebida com voc no restaurante Gustino.
   Incapaz de lembrar que havia feito algo desse tipo, Stephen ficou calado.
   - Tpico de voc esquecer! - riu ela. - Ficarei feliz de refrescar sua memria. Quando lhe disse que Tom tinha me pedido para casar com ele e confessei como estava
com medo de permitir-me amar outra vez e ainda mais, ter um beb, voc me disse para ir em frente. Bem, vamos casar na prxima semana. E vou dividir um pequeno segredo
com voc... Eu j estou grvida!
   A notcia levou-o a considerar as possveis conseqncias para sua prpria vida e Stephen lhe deu parabns, de corao. Um pouco depois, quando deixava seu escritrio,
ele teve que admitir que Brenda parecia verdadeiramente feliz, pela primeira vez desde o diagnstico de David. Nesse meio-tempo, a felicidade o vem perseguindo tambm.
   Poderia ele dar-se ao luxo de no assumir um comprometimento semelhante?
   Ao invs de se dirigir para casa para mudar de roupa, vestindo algo mais informal para jantar com Jess e Annie no chal de hspedes da propriedade da famlia
Fortune, ele dirigiu a Mercedes com destino a uma joalheria onde tinha comprado um relgio para si, alguns meses antes. Por pura sorte, foi capaz de achar uma vaga
para estacionar bem prximo e entrar na loja, antes de fechar.
   O proprietrio, um homem que pouco conhecia, estava atendendo pessoalmente.
   - Procurando algo especial, Dr. Hunter? - perguntou ele com um sorriso.
   Um ataque de arrependimento no impediu Stephen de pedir para ver anis de noivado de brilhante.
   - Algo simples com uma pedra de bom tamanho, como aquele solitrio em forma de pra que voc tem na vitrine numa almofada de veludo - especificou ele, pensando
se havia perdido a cabea ao considerar a compra de um.
   De acordo com o joalheiro, o brilhante de dois e meio quilates, montado em platina que ele indicou, era uma das pedra de melhor qualidade que sua pequena mas
exclusiva loja tinha para oferecer. Apesar de ser tambm uma das mais caras, Stephen poderia compr-la com facilidade, graas  sua receita como um dos melhores
mdicos especialistas de Minneapolis e St. Paul. A questo era se ele j havia se curado suficientemente da morte de David para arriscar compr-lo para Jess e assumir
o risco do compromisso que a acompanhava. Amar Jess significava amar Annie tambm, algo que ele j fazia, a um ponto que lhe tocava o corao. O que aconteceria
se ele no pudesse salv-la? Alm do profundo sentimento de pesar e senso de haver falhado que sentiria, ser que assistiria seu relacionamento com Jess se extinguir?
   - Sem dvida, voc imagina que estou pensando em casamento - reconheceu ele, com algum constrangimento. - Infelizmente, ainda no lhe pedi. Se eu comprasse este
anel e ela no gostasse, ou o noivado no chegasse a acontecer, poderia eu, ah, traz-lo de volta para reembolso?
   - O anel  totalmente reembolsvel. Todavia acho que devo avis-lo, Dr. Hunter - disse ele com um piscar de olhos - , anis desta qualidade raramente voltam para
a loja depois que so comprados.
   O anel ainda estava de posse de Stephen no domingo  tarde, quando ele, Jess e Annie se apresentaram na residncia de frente para o lago, da famlia Todd, para
uma refeio ao ar livre.
   Como o viking que Jess insistia que ele era, Stephen tinha levado ela e Annie em seu gracioso barco  vela, modelo Butterfly. Com sua cabea de penugem loira
protegida do vento por uma touca que lhe cobria at as orelhas, e um salva-vidas de tamanho infantil abotoado firme a seu corpo magro, Annie olhava-o manobrar o
pequeno barco com evidente fascnio.
   - Voc me ensina, por favor, a navegar  vela quando eu ficar boa, Dr. Steve?
   - Eu terei prazer era faz-lo. Alis, se mame concordar, voc pode ajudar a tomar o rumo at o terreno nos fundos da casa de Chelsea.
   Com a permisso de Jess, Annie mudou de lugar para sentar-se nos braos de Stephen e colocar suas pequenas mos perto das dele, no leme. Que beleza que eles so,
ali juntos, pensou Jess, notando seus cabelos loiros esvoaando ao vento e refletindo sobre a semelhana de sua cor. Ela poderia ser filha dele, ao invs do Ronald.
Imagino se nesta poca do prximo ano, ns trs estaremos com sade, felizes e ainda juntos.
   Jess caoou de Stephen quanto a manobrar o barco at o ancoradouro,  medida que chegavam  doca no terreno da famlia Todd. To inocente que soava aos ouvidos
mais inocentes a brincadeira de dupla interpretao o divertiu. Que rosa inglesa delicada que ela , pensou ele. E que obscena e satisfatria amante ela pode ser!
Eu no quero perd-la, ou  preciosa menina que est preenchendo, a passos to rpidos, o vazio que David deixou no meu corao.
   Frank Todd e seu filho, Carter, estavam esperando na doca para dar as boas-vindas.
   - Esto aqui! - Frank gritou para Lindsay e Chelsea, que podiam ser vistas acenando da janela da cozinha.
   Frank informou a eles que iriam comer em aproximadamente uma hora. Pelo menos era o planejado. Com os dois anfitries em alerta de planto do hospital, no funcionou
bem assim. Apenas haviam acabado de sentar nas cadeiras do jardim, viradas para o lago, quando o celular de Lindsay tocou. Sua presena estava sendo necessria na
sala de emergncia do hospital.
   - Aqui vou, na esperana de que no leve muito tempo - Ela disse, levantando-se. - Se eu no voltar em uma hora, comecem a grelhar sem mim. O acompanhamento est
na geladeira.
   Para surpresa de todos, Lindsay estava de volta em 45 minutos.
   - Alarme falso.
   - Enquanto eu estava no hospital, encontrei um dos tcnicos da hematologia - disse Lindsay. - O mais recente lote dos exames de sangue ficou disponvel. Encontramos
um par compatvel para Annie.  Chelsea.


   Captulo 10

   - Ah,Lin...
   Seu corao repleto de alegria e alvio, Jess podia imaginar muito bem como Lindsay se sentia. Por mais que a pediatra de cabelos castanhos quisesse salvar Annie,
ela no podia deixar de sentir alguma relutncia com a perspectiva de causar o menor desconforto  sua prpria e doce filha.
   Frank provavelmente se sentia da mesma forma.
   Ningum falou por um momento enquanto ele e Lindsay se entreolharam e depois para Annie, Chelsea e Carter, que brincavam contentes e ignorantes dos temores dos
adultos e da existncia de doenas de sangue fatais. Refletindo com moderao, apesar de suas emoes estarem profundamente afetadas tambm, Stephen massageou levemente
o ombro de Jess.
   Ns devemos ir para casa e deix-los conversar, reconheceu ela, com uma ponta de receio se inserindo em sua conscincia de que o casal Todd talvez no deixasse
Chelsea doar. Conhecendo Lindsay como conhecia, ela sups que sua amiga no aceitaria que eles se fossem.
   - Eu acho que voc e Frank deveriam tirar alguns minutos para ficarem a ss e conversar sobre o que aconteceu. - Disse ela, finalmente. - Stephen e eu podemos
olhar as crianas.
   - Boa idia - concordou Stephen.
   Trocando um rpido olhar e agradecendo a eles pela compreenso, o casal Todd foi caminhar pela beira do lago e tiveram uma conversa sria por aproximadamente
meia hora.
   Finalmente, Lindsay e Frank comearam a voltar. Para Jess, o destino do mundo jazia na resposta deles. Se Annie no recebesse um transplante de medula ssea sadia,
ela poderia no chegar a seu sexto aniversrio. Buscando a mo de Stephen, Jess apertou-a de leve.
   - Eu sei o quanto isto  difcil para voc, e ns no vamos mant-la em suspense, por nenhum momento mais que o necessrio - disse Lindsay quando chegaram. -
O que decidimos  o seguinte: apesar de querermos muito ajudar, a deciso no  somente nossa. Por mais jovem que seja, Chelsea deve ser consultada. Ns explicaremos
a leucemia de Annie para ela e deixaremos Chelsea saber a contribuio importante e nica que pode dar.  claro que no iremos minimizar a necessidade de ser valente
ou o fato de que certo desconforto estar envolvido.
   - Se Chelsea estiver disposta a prosseguir, uma vez que ela tenha entendido essas coisas - Frank concordou - ento estaremos dispostos tambm. Vamos falar com
ela sobre isso, esta noite, e pela manh informaremos a voc o que ela decidiu. Eu sei que voc sabe que, em nosso coraes, esperamos que a resposta seja sim.
   To logo terminou o almoo e os copos e pratos de papel foram recolhidos e colocados no lixo, Stephen sugeriu dar a reunio por encerrada. Jess concordou com
ele, apesar das reclamaes de Annie que queria ficar um pouco mais. Quanto mais cedo fossem embora, mais cedo Lindsay e Frank poderiam falar com Chelsea.
   Alguns minutos depois, quando chegaram, ela pediu a Stephen que desligasse a Mercedes e entrasse com elas.
   - Detesto pedir, porque sei que voc ter que estar no hospital amanh bem cedo.
   - Mas eu gostaria que voc ficasse esta noite. Stephen no escondeu sua surpresa.
   - Eu pensei que, com Annie aqui... - comeou ele.
   - Ns podemos dormir vestidos, bem aqui na sala de estar. Se ela acordar, no ficar escandalizada.

   Pela primeira vez, desde que Mnica Malone telefonara, h tantos meses, e exigiu que ele fosse at sua casa para discutir um assunto de interesse mtuo houve
uma boa notcia para Jake. De acordo com Aaron Silberman, ao examinar a cena do crime com seus equipamentos de ltima gerao, a unidade de investigao de evidncias
fsicas do Departamento de Polcia de Minneapolis havia encontrado marcas de sapato no identificadas na garagem para cinco carros da casa da Mnica. Encontraram
pegadas semelhantes na terra fofa do jardim de flores perto da janela, juntamente com vrias manchas do mesmo padro e que era caracterstica de uma marca especfica
de tnis de corrida.
   - Voc possui um par de tnis como esse? - perguntou o advogado de defesa.
   - Eu uso tnis Nike. Duvido que tenha comprado outra marca nos ltimos 20 anos.
   - Que tipo de calado voc estava usando quando foi  casa de Mnica, na noite do crime?
   - Meu par de mocassim eu acho.
   Com indisfarvel satisfao, o advogado informou-o que uma pegada semelhante  do mocassim que ele havia usado foi documentada como tendo sido encontrada perto
do local, onde ele havia informado  polcia que estacionou seu carro naquela noite. As pegadas anmalas no tinham combinado com quaisquer dos calados que os investigadores
encontraram em sua posse, ou quaisquer calados de Brandon Malone ou quaisquer dos empregados.
   Ele rapidamente corrigiu Jake quando ele lamentou o fato de que as pegadas no pudessem ser usadas para incriminar o filho de Mnica.
   - Voc no entende? - perguntou ele. - Brandon Malone tem testemunhas que iro jurar que estava na Califrnia naquela noite. Considerando que as pegadas no levem
at o seu armrio, pegadas que no deveriam estar na garagem da casa de Mnica no jardim de flores ou na sala de estar... em outras palavras, que no pertenam a
ningum, com direito estabelecido de estar ali... fortalecem nosso argumento de que um assassino desconhecido esperou voc sair da casa e depois entrou escondido
para realizar a sua ou seu trabalho sujo.
   "Existe ainda uma pegada parcial, no identificada, que pode ter tido origem aproximadamente no mesmo horrio e que foi feito por uma mulher. De modo semelhante
 pegada do tnis de corrida, no parece pertencer a ningum que se saiba ter conexo com Mnica... ou o caso do assassinato."
   Desta vez Jake no estava lamentando s resultados de uma infeliz fatalidade enquanto ouvia o advogado de defesa. Ao invs disto, estava vendo uma luz no final
do tnel.
   - Como voc descobriu tudo isso? - perguntou ele. Aaron Silberman deu um largo sorriso.
   - A Promotoria  obrigada a nos informar de antemo de todas as evidncias que planejam usar contra voc. Isso  claro,  uma estrada de mo dupla. Ns temos
que inform-los se descobrirmos primeiro o verdadeiro assassino de Mnica.
   Quando estava pronto para sair, o advogado mencionou que havia pedido a Gabe Devereaux para redobrar seus esforos para encontrar algum na vizinhana de Mnica
que possa ter visto algum mais sair da casa dela, por volta do horrio do assassinato.
   Jess, aps uma noite de sono em um dos sofs estofado com tecido quadriculado, em uma posio incmoda, semi-ereta, com sua cabea no ombro de Stephen, j estava
andando pela sala de estar. Se apenas ele no tivesse que ir para o hospital to cedo, pensou ela.
   Lindsay telefonaria logo.
   Com este pensamento em mente, o telefone tocou e Jess o agarrou.
   - Al? - disse ela, trmula.
   - Jess,  Lindsay. Fico feliz em informar que vamos em frente com o transplante.
   Jess sentiu como se estivesse subitamente flutuando, vrios centmetros acima do cho. Simmm! Annie vai ficar boa! O fato de que, por sua natureza, transplantes
de medula ssea poderiam ser razoavelmente arriscados, ainda no tinha cruzado seus pensamentos.
   - Querida Lin... nunca poderei lhe agradecer o suficiente - chorou ela com voz trmula, absolutamente frustrada pela ineficcia da linguagem no ser capaz de
expressar o que sentia. - Graas a voc, Frank e Chelsea - interrompeu a voz. - No perderei Annie.
   - Devo mencionar que queremos esperar at depois do aniversrio de Chelsea, na prxima semana, para a realizao do transplante.
   - Lin, voc sabe que est timo!
   - Estou saindo do trabalho mais cedo hoje, enquanto Frank ter que trabalhar at mais tarde. Rebecca e eu decidimos aproveitar a oportunidade... para nos encontrar,
comer e discutir o que poderamos fazer para ajudar Jake. Uma vez que voc  da famlia, gostaramos que se juntasse a ns. J me entendi com a Sra. Larsen... voc
pode deixar Annie em nossa casa, a caminho de nos encontrar.
   Por sugesto de Rebecca, encontraram-se no Lord Fletcher's, um estabelecimento localizado de frente para o lago Minnetonka e que era remanescente de uma antiga
taverna inglesa. Encantada pela decorao britnica, a extensa vista do lago e o estalido do fogo que afastava o frio do anoitecer, enquanto iluminava uma grande
lareira de tijolos, Jess teve a sensao de ter sido levada a se sentir em sua terra natal.
   No lhe incomodou que a comida fosse na maior parte fil, frango e frutos do mar, tpicos dos cardpios de restaurantes dos Estados Unidos. Graas a Lindsay e
Stephen, estou me tornando bem americanizada, pensou ela, e depois franziu um pouco a testa. Pensou na reserva de Stephen quando, no meio da manh, retornou sua
ligao. Sem dvida, contente como ficou pela deciso da famlia Todd, ele a avisou que ainda no estavam livres de problemas.
   - Para Annie, com carinhosos desejos de uma rpida recuperao... e para Chelsea, por ajudar a salvar sua vida. - disse Rebecca, sorrindo para Jess e Lindsay.
- E para nosso irmo Jake... no meu livro, tio de Jess, seja l quem tenha sido seu pai. Aqui vai, na esperana que possamos achar um plano para ajud-lo em sua
atual situao.
   Infelizmente, por mais que tentassem, enquanto comia espetos de fil e camaro, o mximo que conseguiram foi repassar o que sabiam das evidncias, at o momento.
   - J sei - exclamou Rebecca, que era bem conhecida na famlia por usar a parte direita de seu crebro. - Por que no fazemos uma sesso esprita e tentamos entrar
em contato com ela? Por coincidncia, eu tenho uma mdium disponvel! Seu nome  Irina Ivanova e ela mora em St. Paul. Eu a entrevistei para um de meus livros, para
saber como as sesses funcionam, e ela se ofereceu para me deixar participar de uma. Eu ainda no tive tempo de aproveitar a oferta. Ns podemos pedir que ela faa
uma para nosso grupo... entrar em contato com a Me para ns!
   Quando Lindsay, com seu pragmatismo de mdica, descartou a idia, Rebecca saiu em seu encalo.
   - Acontea o que acontecer, vai ser divertido - disse ela. - Jess... voc deve vir tambm. Podemos faz-la na antiga casa de papai e mame, no lago, pela atmosfera
do lugar. Jake no est l agora, portanto, deve estar disponvel. Tenho certeza de que posso convencer Sterling.
   - Eu ficaria feliz em participar - respondeu ela. Abordado por Rebecca sobre a sesso esprita, Sterling
   foi se aconselhar com Kate. Ele mencionou o assunto durante um almoo em um restaurante um pouco distante na extica cidade vitoriana de Stillwater, s margens
do rio St. Croix, aps ter feito um relatrio das ltimas evidncias que surgiram no caso de Jake.
   - Suponho que no vai fazer mal satisfaz-la nesta bobagem - murmurou ele, servindo-se do sufl de queijo e presunto. - Mesmo assim, realmente no gosto disso.
Se vazasse que a irm de Jake estaria tentando fazer contato com voc, atravs de uma mdium, a imprensa teria um prato cheio. Seu julgamento ainda nem comeou e
j  tido como preo para o julgamento do caso Simpson.
   Kate estava profundamente sensibilizada. Que espirituoso, Becky sentia falta dela e ansiava por seu conselho. E tambm a doce e cabea fria da Lindsay, ou ela
no teria concordado em ir e participar desse esquema. Como ela desejava abra-las e contar-lhes como escapou por um triz, confessar que esteve escondida o tempo
todo em Minneapolis, bem embaixo de seus narizes.
   Se fosse acreditar em Sterling, aparecer de repente entre os vivos poderia resultar desastroso. Seja quem for que a queria morta, poderia tentar outra vez, se
reconhecesse que sua primeira tentativa falhara. Ela poderia estar se colocando em perigo mortal.
   Mesmo assim, havia um modo de se comunicar com elas.
   De acordo com Sterling, o advogado de defesa de Jake achava que algumas pegadas que a polcia havia encontrado poderiam vir a ser as do verdadeiro assassino,
ou assassinos. Ele havia encarregado Gabe Devereaux de entrevistar outra vez os ex-vizinhos de Mnica, supondo que um deles tivesse visto a pessoa ou pessoas em
questo, perto da casa de Mnica, na noite do assassinato.
   Mas ele no tinha pensado em tudo. Nem ele, nem ningum, pareceria ter prestado ateno na testemunha que alegou ter visto Lindsay na rea.
   De certo modo, Kate podia entender isso. Lindsay foi capaz de oferecer um libi indiscutvel. Porm, se no me engano, pensou Kate, aquela mulher que alegou ser
irm gmea de Lindsay, de sexo errado, mas que somente ela e o FBI sabiam, tinha uma incrvel, apesar de superficial, semelhana com sua linda e inteligente filha.
Com seus olhos no dinheiro da famlia Fortune, e sua determinao de forar seu caminho famlia adentro, a qualquer custo, aquela Tracey Ducet, ou seja, qual fosse
seu nome, poderia ter estado com inteno de fazer chantagem com Jake tambm.  de todo possvel que tenha ido  casa de Mnica naquela noite para roubar as declaraes
relacionadas a seu parentesco, com a finalidade de us-las contra ele.
   Ela poderia compartilhar sua especulao com Sterling e deixar que ele informasse a Aaron Silberman, reconheceu Kate, se ela pudesse fazer com que ele a levasse
a srio. Porm, com uma sesso esprita sendo preparada, seria muito mais divertido recompensar a iniciativa de Becky, como diria, fazendo contato com ela pessoalmente.
Os pensamentos de Kate voaram para os vinte e poucos novos amigos que fez, agindo sob disfarce, como a benevolente e excntrica patrona das artes Kate Anderson.
Vrios deles trabalhavam como tcnicos de som e iluminao em uma companhia de teatro.
   Do outro lado da mesa, seu velho amigo e advogado tinha parado de comer para olhar para ela.
   - Diga alguma coisa - exigiu ele com sua voz grave. -Sua expresso est me deixando nervoso.
   Seu lento sorriso aumentou mais ainda seu nervosismo.
   - Contrrio a voc no gostar da situao, querido velho, eu aprovo de todo corao o plano da Becky -informou a ele. - Alis, decidi recompensar sua ingenuidade
fazendo uma apario hologrfica. Algumas pessoas que conheo do teatro St. Paul Laser tm o conhecimento tcnico e equipamentos necessrios para fazer isto acontecer.
Tenho certeza de poder contar com a ajuda e discrio deles.
   Tanto quanto Kate, Sterling sabia que holografia  uma tcnica de produzir imagens tridimensionais em movimento, atravs da reconstruo de feixes de luz. Essencialmente,
um processo de usar lasers para registro em um disco fotogrfico de um padro de deflao, do qual tais imagens podem ser projetadas a distncia. Nem por um momento
ele duvidou de que seu esquema pudesse funcionar tecnicamente, dando enorme vida a todos os que estivessem presentes  sesso esprita proposta.
   Era a possibilidade dela ser flagrada no ato que o perturbava tanto.
   - Isto  um pensamento temerrio, Kate - repreendeu ele. - Mesmo que seus amigos sejam bem-sucedidos neste seu projeto, do ponto de vista tcnico, h grandes
chances de voc ser flagrada. Apesar de seu sonho de escritora e atividades do lado direito do crebro, Rebecca no  boba. E Lindsay  muito esperta. A jovem Jessica
Holmes vai estar l tambm. Seria melhor voc colocar um anncio no jornal, informando de seu retorno.
   - Voc est errado... Eu no vou ser pega - contestou ela. - Essas pessoas so profissionais. Elas podem projetar uma imagem minha falando e se movimentando e
faz-la desaparecer. Eu estarei em uma sala totalmente separada. Para facilitar as coisas, conheo a casa como a palma da minha mo... cada sada, cada esconderijo.
   Evidenciando questionamento tpico de advogados, Sterling fez objeo que, uma vez que soubessem o que estava acontecendo, o pessoal de efeitos especiais poderia
exigir um belo preo por seu silncio.
   - Errado outra vez - disse ela, em um tom que revelava que sua tentativa de dissuadi-la seria intil. - So seres humanos decentes e honestos. Eu aposto minha
vida nisso. Alm disso, no me conhecem como Kate Fortune. S pensaro que tenho alguma conexo com a mdium... e quem, por acaso, est prestes a atingir seu maior
sucesso de todos os tempos em sua carreira graas  minha ajuda.

   Trabalhando em conjunto, Lindsay e Jess organizaram para que Annie passasse a noite na casa de Chelsea, com Frank Todd agindo como bab das crianas, enquanto
a sesso esprita se desenrolasse. Na noite em questo, enquanto suas mes iam para a manso da famlia Fortune, usando o carro MG de Jess e Frank cuidava da limpeza
dos pratos, com a ajuda de Carter, as duas meninas estavam calmamente brincando com a coleo de bonecas de Chelsea.
   - Sabe de uma coisa? - Annie perguntou a Chelsea enquanto arrumavam as bonecas para tomar ch.
   Chelsea sacudiu a cabea.
   - Mame e Dr. Steve tm se beijado. Eles no sabem que eu vi.
   Chelsea pensou sobre a revelao por um momento.
   - Voc acha que eles vo se casar?
   Annie confessou que no tinha idia. Mas disse:
   - Eu gostaria que eles casassem. Ele a faz feliz e eu gosto muito dele.
   Em resposta, Chelsea contou  sua amiga sobre o casamento do seu primo Michael, durante o qual ela foi uma das damas.
   - Talvez, se eles casarem, voc possa ser daminha tambm.
   Annie pensou em voz alta se Stephen e sua me iriam querer viver na Inglaterra ou ficar em Minnesota, depois que seu tratamento terminasse.
   - Voc vai ficar aqui - Chelsea respondeu. - Deste modo podemos ser as melhores amigas para sempre e continuar brincando juntas.
   Chegando  manso da famlia Fortune meia hora antes, Jess e Lindsay entregaram bolsas e casacos  empregada.
   - Vamos - sugeriu Lindsay quando estavam de p no espaoso corredor de entrada. - Ns temos alguns minutos sobrando. Eu a levo para ver a casa.
   Curiosa sobre seu vistoso av americano, Jess achou a semelhana do quadro dele que ficava na sala de sinuca como a mais intrigante de todas. Trajando roupas
de domador de cavalos ou tocador de gado no rancho que ela sabia que a famlia tinha em Clear Springs, Wyoming, ele estava de p, bronzeado e aparentemente meio
divertido com o pensamento de ter seu retrato pintado.
   Vrias notcias que Jess tinha lido sobre o caso do assassinato de Mnica Malone sugeriam que a estrela de cinema de idade avanada poderia ter recebido as primeiras
indicaes de que Jake Fortune no era filho de Ben durante um caso que havia tido com Ben, quando ambos estavam no auge de seu vigor.
   Parece que minha av no foi o nico caso dele, pensou Jess. Ele deve ter tido dzias delas. Ela sentiu no gostar do genial mas arrogante homem que olhava do
quadro. Mesmo assim, no podia negar que ele era fascinante.
   Tinham acabado a visita  casa, que tinha includo a biblioteca e a sala ntima da famlia, quando Rebecca chegou com Gabe Devereaux a reboque. Ela sussurrou
que tinha sido incapaz de desencoraj-lo a vir. Stephen, que tambm fora convidado para participar, encontrou-se com eles alguns minutos depois. Colocando seus braos
ao redor de Jess, ele deu uma olhada no interior da manso, com curiosidade no disfarada, enquanto aguardavam a chegada da mdium de Rebecca.
   A mulher, rechonchuda, com cabelos embranquecendo, com maneirismos e uma clara preferncia por tons de roxo que no combinavam entre si em sua roupa, foi deixada,
na hora marcada, pelo seu motorista nos degraus da manso. Ela parece tia-av de algum, excntrica e um tanto afetada, pensou Jess, enquanto Rebecca a apresentava
a todos. Mas ela no  nem um pouco extica, a menos que se leve em considerao seu sotaque russo.
   Depois de uma rpida consulta a Madame Ivanova para conhecer suas preferncias, Rebecca anunciou que fariam a sesso esprita na sala de jantar. Ela enviou a
empregada, Sra. Laughlin, em busca de velas enquanto se acomodavam em torno da mesa.
   Eles desligaram as luzes eltricas da sala, por instruo da mdium, quando a Sra. Laughlin trouxe um par de pesados candelabros com velas, que tinham sido acesas
com os fsforos da cozinha. Com as cortinas fechadas e as chamas das velas refletidas e danando nos espelhos emoldurados de dourado e suas superfcies de madeira
envernizada, a grande sala ornamentada assumiu um ar sinistro, de aparente expectativa.
   Madame Ivanova olhou a seu redor com satisfao.
   - Voc providenciou alguma coisa que foi tocada ou pertenceu  falecida? - perguntou a Rebecca.
   Rebecca passou-lhe um relgio com pulseira de ouro e brilhantes que Ben tinha dado  sua me.
   Segurando-o na palma da mo por um momento e depois pressionando-o sobre sua testa para absorver as vibraes dele, a mdium colocou o relgio na mesa  sua frente.
   - Tem alguma pergunta especfica que gostaria de fazer?
   - Minha irm e eu temos esperana de que nossa me possa ajudar nosso irmo Jake.
   - Muito bem. Por favor, dem-se as mos, fechem os olhos e concentrem-se enquanto tentamos invocar a presena de Kate Fortune.
   Gabe Devereax, de m vontade, acompanhou os movimentos. Todavia, depois de vrios minutos de concentrao, sem nenhum resultado, ele comeou a contorcer-se em
sua cadeira.
   - O que vocs dizem se desistirmos? - props ele. - E admitir que esta sesso esprita  um logro.
   Rebecca estava silenciando-o, com raiva, quando apareceu uma luz ondulando e, aos poucos, condensando-se numa forma aproximada de Kate. Escondida no andar superior,
num quarto raramente usado, com seus cmplices do teatro, podiam ouvi-los ofegar, pelo sistema temporrio de udio que haviam instalado, escondendo minimicrofones
e caixas de som em um armrio de louas antigas.
   - Estou aqui para vocs, meninas - ela entoou no momento exato, em sua inconfundvel e disfarada voz, oscilando lentamente, em um vestido longo de noite, com
gola alta que ela tinha certeza que suas filhas reconheceriam.
   Quando a mdium desmaiou, afundando em sua cadeira na cabeceira da mesa, nenhum dos participantes notou. Somente Gabe pareceu ser capaz de superar sua sobressaltada
fascinao o suficiente para expressar descrena.
   - Eu no sei como ela faz isto, mas eu sei uma coisa:  um logro.
   Furiosa, Rebecca enterrou suas unhas nos braos dele.
   - Fique quieto. Lindsay tremia.
   - Me...  realmente voc?
   O holograma de Kate flutuou e fortaleceu-se.
   -  sim. O que voc quer de mim? Rebecca respondeu.
   - Jake est em apuros. O que podemos fazer por ele?
   - Sei dos problemas dele. Meu conselho... no esqueam a mulher que parecia com Lindsay.
   Diminuindo outra vez at que desapareceu completamente, sua imagem no voltou a aparecer. Gabe, liberto do aperto da mo de Rebecca, acendeu as luzes, provocando
em todos um sbito piscar de olhos e apressadamente foi para o cmodo ao lado, procurar evidncias do logro. No achou nada. Ele voltou  sala de jantar quando Rebecca
gritou de aflio, em tempo de ver Stephen baixando-se sobre Madame Ivanova, que recobrava a conscincia.
   - Vou vasculhar a casa.
   - Procure tanto quanto quiser - Rebecca replicou - desde que voc primeiro ajude Stephen colocar Madame Ivanova no carro dela.


   Captulo 11

   Enquanto Stephen e Gabe ajudavam Irina Ivanova a entrar no carro e Jess tentava confortar suas amigas, Kate e seus cmplices rapidamente embalaram seu equipamento
e fizeram uma fuga clandestina no barco a remo que haviam atracado perto do cais da propriedade.
   Kate sentou-se quieta em um dos assentos de tbua, enquanto Patrick 0'Malley e Jeff Soderquist, os dois tcnicos do teatro St. Paul Magic Laser, que lhe ajudaram
a fazer sua apario do mundo dos espritos, colocavam os remos na gua. Ela conseguiu pelo menos transmitir sua mensagem sobre a falsa gmea de Lindsay.
   Nesse meio-tempo, os preparativos de Lindsay para a festa de Chelsea estavam prontos.
   Nesse ano, o aniversrio de Chelsea caa em um sbado.
   Uma fila contnua de convidados comeou a chegar, por volta de 13h. Jess teve ampla oportunidade de conhecer muitos parentes da famlia Fortune e a quem ela ainda
no tinha sido apresentada.
   Kristina Fortune aproximou-se de Jess e olhou, por um momento, as crianas brincando alegremente.
   - Aquela  a Annie, no ?
   Jess balanou a cabea. Kristina ficou olhando.
   - As pessoas ficam muito doentes com radiao e quimioterapia, no ficam? Uma criana to pequena como esta... deve ser difcil.
   Kristina tinha acabado de sair e se dirigira para a casa, vagamente murmurando alguma coisa como retocar a maquiagem, quando Lindsay apresentou Jess ao seu meio
irmo Grant McClure.
   Bastante bronzeado, olhos azuis, o rancheiro alto sorriu.
   - Ol, Jessica - disse ele. - Eu fiquei muito feliz de saber que Chelsea ser capaz de fornecer uma medula compatvel para sua filha. Eu teria me submetido a
exame tambm, se achasse que adiantaria alguma coisa. No sou realmente um parente...
   Enquanto conversavam, um captulo separado, mas relacionado, no drama da famlia Fortune estava se desdobrando na pequena propriedade de frente para o lago, que
fazia fronteira com o terreno da famlia Todd, do lado oposto  casa de Stephen. Vazia por vrios meses, a casa tem sido o lar, por bastante tempo, de um amigo e
cliente de Sterling que estava atualmente residindo na Europa. Sabendo que o proprietrio tinha lhe dado as chaves, para o caso de uma emergncia, Kate pediu que
as emprestasse a ela.
   - Voc no tem estado em confuso suficiente ultimamente? Agora quer provocar uma confuso na festa de aniversrio, tambm?
   - Vai acontecer ao relento e toda a minha famlia vai estar l. E eu sinto muita falta deles. Ficarei escondida e me contentarei com o que puder ver atravs de
binculos. Ou um telescpio.
   Kate estava observando com um binculo sentada em uma das grandes janelas.
   Achou profundamente prazeroso espionar a multido de novos membros da famlia, que a abundante safra de romances produziu, e notar o crescimento dos mais novos.
Mas ela sentia mais falta dos seus prprios filhos: Jake, Nate, Lindsay e Rebecca.
   Quando Sterling apareceu para recolher a chave e lev-la em casa, ela no estava pronta para ir.
   - Voc tinha razo... minha ausncia permitiu que eles assumissem inteiramente o crdito pelas mudanas que fizeram em suas vidas.
   Apesar das queixas, Sterling gostava profundamente de Kate.
   - E quanto a Jake? - perguntou ele. - Ser que superar a confuso em que se encontra, sem sua ajuda, ir fortalecer seu carter tambm?
   - Ele ter que nadar ou afundar sozinho. Estou apostando que ele vai nadar.
   Sterling a respeitava com admirao.
   - Voc  uma velha forte, sabia disto, Kate? - perguntou ele.
   - J me disseram - respondeu ela com um sorriso.
   - O que voc precisa  de um homem para lhe acalmar... e lhe dar uma sacudida de vez em quando. Um dia desses, eu mesmo poderei assumir essa tarefa.
   - Quem sabe? Um dia desses, poderia deix-lo... se voc tiver certeza que ainda tem o tipo de fogo necessrio para agradar uma mulher - replicou de volta, antes
de retornar seus olhos para a lente do binculo.
   Voltando  festa, Lindsay franziu o cenho ligeiramente. Um ligeiro piscar da luz do sol refletiu de uma das janelas da sala de estar, na casa vazia ao lado. 
como se algum estivesse l dentro, mirando um par de binculos em nossa direo... Porm, eu sei que de fato Bernice McDermott e seu marido ainda esto na Europa.
Na semana passada, ns recebemos um carto-postal dela.
   Pedindo licena, saiu pelo gramado afora, surgindo na ladeira da garagem da casa de Bernice McDermott. Para seu espanto, o Lincoln de Sterling estava estacionado.
   Mais alguns passos e chegou  porta de entrada, onde apertou demoradamente a campainha.
   Aps uma breve demora, o advogado da famlia apareceu.
   - O que est acontecendo, Sterling? Voc veio na casa errada, por engano? A festa  na casa ao lado!
   O advogado explicou que seu vizinho era seu cliente e estava considerando a venda da propriedade. Ele havia concordado em mostr-la a um comprador em potencial
e extremamente reservado.
   Kate ficou escondida na sala de estar.
   Ainda assim, Lindsay estava convencida de que algo estranho estava em andamento.
   Logo teria que voltar para a festa. Entretanto, continuou a ficar de olho na casa. Quando Kate saiu, protegida por vus, algo familiar sobre o modo de andar chamou
a ateno da pediatra.
   Na noite anterior ao dia em que Annie estava programada para retornar ao hospital, para sua radiao e quimioterapia, Jess e Stephen decidiram lev-la para ver
um filme popular infantil, sobre as aventuras de um co. Uma ponta de tenso os rondava. Cuidadosamente, explicaram a Annie como seria o tratamento. O resto de seu
cabelo cairia e ela ficaria talvez at mais doente do que ficara no tratamento anterior. Depois disso, melhoraria.
   Quando ficasse boa, provavelmente no teria que voltar ao hospital para ficar internada.
   - Chelsea e eu vamos ficar no mesmo quarto?
   - Devido ao perigo de infeco, voc ter que ficar em uma proteo de lmina plstica, em um dos quartos esterilizados, como fez da ltima vez. Apesar de que
Chelsea vai ficar no mesmo andar, voc e ela no podero se ver.
   - Estou bem, mame. Diga a ele. Eu no preciso tomar mais daquele remdio horrvel!
   Quando amanheceu, foi como temiam. Com lgrimas rolando, Annie recusou-se a ir. Quando Jess tentava abotoar o cinto dela na Mercedes de Stephen, para a viagem
at o hospital, ela tentou se livrar e correr de volta para o chal.
   Finalmente, Jess ajudava a filha a vestir a camisola do hospital para ser levada, na cadeira de rodas, para o andar de baixo at a radiologia, para seu primeiro
tratamento de irradiao de corpo inteiro.
   Sua angstia s aumentou quando mais tarde a enfermeira do endovenoso chegou, ao quarto da Annie, para inserir o cateter em um dos vasos de seu peito. O cateter
funciona.ia como uma estrada de acesso para a quimioterapia, que mataria as clulas doentes, iniciando o tratamento com antibiticos e a insero de sangue e seus
produtos derivados, bem como da infuso da medula ssea que seria doada. Devido ao fato de que seu sistema imunolgico ter que estar limpo, para que a nova medula
se incorporasse e lhe desse um saudvel e novo incio de vida, nenhuma clula doente poderia restar para reinfect-la. Desta vez, sua dose de quimioterapia seria
pesada. Um monitoramento eletrnico de seus batimentos cardacos fora colocado porque, s vezes, a quimioterapia enfraquecia o msculo do corao.
   Se eu pudesse passar por isto no lugar dela, pensou Jess, enquanto tateava, na mesa-de-cabeceira, em busca da bacia de metal pois o vmito de Annie comeava.
Eu trocaria de lugar com ela a qualquer minuto.
   A amedrontadora nusea de Annie diminuiu bastante no terceiro dia, aps a quimioterapia, quando Lindsay passou para v-la e dar um recado de Rebecca.
   Parecia que o detetive Harbing estava cheio de dvidas sobre o esprito de Kate ter dado pistas para eles. Todavia, seu departamento comeou a investigar as pistas
que ela dera. Era bem possvel que em breve Tracey Ducet e seu namorado tivessem que responder a perguntas dos investigadores.
   Vrios fios de cabelo encontrados na cena do crime e analisados no laboratrio de criminologia no combinavam com o padro de DNA de Jake ou de Mnica. Pelo menos
um deles, com uma cor natural louro avermelhado, tinha sido pintado para ficar castanho, de um tom semelhante ao de Lindsay, e aos cachos de cabelos de Ducet.
   - Jake est muito animado com a notcia - disse Lindsay. - Mas, sabe a coisa mais incrvel foi o modo como telefonou da cadeia para Nate, a fim de se desculpar
pelos conflitos do passado. Ele at admitiu a sabedoria de Nate, em tomar seu lugar na liderana das Indstrias Fortune por enquanto! Ele prometeu fazer o que pudesse
para cooperar.
   - Isto  timo, Lin - respondeu Jess. - Eu sei o quanto a amizade deles significa para voc.
   Stephen mencionou durante o almoo que provavelmente seria apropriado colher a medula ssea de Chelsea, depois de amanh.
   - Eu sei que voc tem receios muito maiores do que eu, Jess. Mas no posso negar que estou um pouco apreensiva com o que minha filhinha ter que passar.


   Captulo 12

   Os pais de Chelsea arrumaram uma folga em suas ocupadas carreiras e levaram-na ao hospital. Devidamente sedada para que o processo de doao fosse realizado,
ela estava preparada e na mesa quando Stephen entrou, trajando um uniforme cirrgico, azul-claro, e luvas esterilizadas.
   No era freqente que um doador de medula ssea para um paciente com leucemia fosse uma criana de to pouca idade. Devido  coragem e generosidade de Chelsea,
Annie teria a chance de crescer e se casar algum dia.Todavia, a quimioterapia a impediria de ter seus prprios filhos.
   Voc  uma menina valente, Chelsea, disse ele silenciosamente para a menina desacordada.
   Experiente, Stephen foi capaz de colher o meio litro necessrio de medula ssea em menos de 45 minutos.
   Um minuto depois, estava tranqilizando Frank e Lindsay na sala de espera de familiares.
   Aliviada em saber que o esforo de Chelsea em salvar Annie tivesse terminado, Lindsay ainda estava ligeiramente trmula.
   Antes que o transplante de Annie pudesse ser realizado, sua medula ssea tinha que ser repetidamente filtrada para remover fragmentos de sangue e ossos. Estava
totalmente purificada quando a enfermeira a trouxe em urna bolsa plstica esterilizada e a pendurou no suporte de soro, encaixando-a no cateter, sob o olhar de Stephen.
   Jess no podia conter o fluxo de lgrimas de preocupao e jbilo, enquanto observava. Finalmente estava acontecendo! A bolsa plstica contendo o precioso presente
de Chelsea parecia s mais uma dentre tantas penduradas no suporte para soro.  claro que Jess sabia que ainda no estavam livres de problemas. Independentemente
de todas as precaues que Stephen tomara, uma infeco poderia surgir e atacar seu corpo, antes que seu novo sistema imunolgico estivesse pronto para lidar com
aquilo. Alm disso, o nico antgeno na medula de Chelsea que no combinara com o de Annie poderia ocasionar complicaes. Se isso acontecesse, Stephen havia avisado,
a vida de Annie correria srio risco.
   Chelsea fora liberada pela manh e pde acenar para Annie pelo vidro. O final da primeira semana de Annie no hospital indicava que o transplante seria um sucesso.
Nenhuma febre ou calafrios fora observado.
   Nove dias depois da infuso da nova medula ssea em Annie, Jess deixou-se cair em sono relativamente profundo naquela noite, em seu sof perto da cama de Annie.
Um ligeiro som, logo aps as 3h da manh, despertou-a. Duas enfermeiras debruavam-se sobre sua filha.
   - Sua temperatura subiu - Sussurrou a mais velha das duas. - E est com uma erupo na pele.  melhor chamarmos o Dr. Hunter.
   Foi como se tivessem jogado um salva-vidas quando ficou sabendo que Stephen viria ao hospital pessoalmente, ao invs de receitar por telefone. Porm, seu alvio
cedeu quando viu a expresso em seu rosto, quando entrava no quarto de sua filha.
   - Stephen... - chorou ela.
   - Me d um momento para examin-la, Jess.
   Recuando com dificuldade, at que ele terminasse de examinar Annie e estudar os registros mantidos pelas enfermeiras, ela suprimiu a pergunta que pesava em seu
peito, at que ele deu instrues para o tratamento de Annie. Naquele momento, chamou-a at o corredor.
   -  isto a tal coisa, enxerto contra hospedeiro? - perguntou ela.
   - Receio que ela tenha todos os sintomas. H trs locais em que o sistema imunolgico do doador geralmente escolhe para atacar... a pele, o fgado e a rea gastrintestinal.
Ela j est apresentando problemas na pele. Suspeito que o sistema digestivo tambm estar envolvido, por estar irritado devido  quimioterapia. Apesar de no haver
sinais de amarelado, pedi um exame da funo do fgado.
   - Voc disse que algumas pessoas morrem desse tipo de coisa, se a reao for muito severa.
   - Alguns morrem. Annie tem a vantagem de ser jovem e ter os cinco antgenos a seu favor.
   - Stephen! Eu no quero perd-la...
   - Aproximadamente, a metade dos pacientes que se submetem a transplantes halognios tem a reao enxerto contra hospedeiro, e a maioria deles no morre. Estamos
dando a ela uma srie de drogas para prevenir isso, e pedi para aumentar a dosagem. Jess, por que voc no vai at a sala de espera dos familiares e deita um pouco?
   - Quero estar com Annie!
   Jess, com relutncia, seguiu a sugesto dele. Aparecendo meia hora mais tarde, perguntou  enfermeira-chefe onde o Dr. Hunter teria ido.
   - Eu imagino que tenha voltado para casa. Tente fazer o mesmo, se puder, Sra. Holmes. Ns vamos cuidar bem de sua filha.
   Stephen, o homem que amo, o homem que pensei me amasse, me deixou sozinha quando eu mais precisava dele, pensou ela.
   Nem ela, e nem a enfermeira-chefe do andar da hematologia tinham idia que Stephen ainda estava no prdio, deitado na sala de espera dos mdicos, com o beep ao
seu alcance.

   Ciente do comportamento mais razovel de Jake, para com Nate. Erika foi fazer nova visita na cadeia. Em um momento de descontrada ternura, ela disse a seu marido
que sempre o estaria apoiando, reatassem ou no seu casamento.
   - Depois de cinco filhos e quase 33 anos juntos, devemos, pelo menos, continuar sendo bons amigos - disse ela.
   - Talvez at mais que isso, hein? - afirmou Jake. Depois dela ter ido, ele sentou quieto, repensando sua vida e seu futuro. Se eu puder provar minha inocncia
e sair dessa confuso, vou fazer algumas mudanas, prometeu a si mesmo. Vou dar mais ateno  minha famlia. E fazer o que puder para realizar os sonhos que tinha
quando jovem, pelo menos os factveis para um homem da minha idade.
   Apreensiva com o estado de Annie, Jess desabafou com Lindsay.
   - Stephen age como se preferisse esquecer que j fomos ntimos - disse arrasada. - Quando tento falar com ele sobre Annie, suas respostas so altamente tcnicas.
Eu me sinto mais estranha falando com ele do que com um mdico que eu mal conhecesse. O que ser que eu fiz para ele me tratar desse modo?
   - Me parece que o modo de Stephen se comportar  apenas natural - respondeu ela - devido ao fato de que ele perdeu seu filho de oito anos, David, para um tumor
cerebral inopervel, h dois anos, depois sofreu com um divrcio devido a conflitos que surgiram como resultado da morte de David. Deixar voc e Annie ultrapassarem
a muralha protetora que, naquela poca, construiu em torno de seu corao deve ter sido um grande risco para ele. Mas ele se arriscou por voc. O fato de Annie estar
to doente e ele ser o responsvel por cur-la... Bem, voc entende o que quero dizer.
   Abismada, Jess no conseguia esconder o fato de que nada sabia sobre a perda do Stephen.
   - Ele nunca mencionou uma palavra sobre isto, para mim - confessou ela. - E eu nunca adivinhei. Meu Deus, Lindsay. Imagine o quanto isto deve ser difcil para
ele...  como perder seu filho outra vez! Eu tenho que encontr-lo... deix-lo saber que entendo.
   Vasculhando os corredores  procura de Stephen, Jess no o encontrou. Ela havia decidido, ao invs disto, procurar o capelo do hospital para se aconselhar, quando
o viu em um dos bancos curvos da capela do hospital. Sua cabea estava baixa, como se estivesse rezando. A coragem lhe ajudou a andar suavemente at ele e colocar
gentilmente uma das mos no seu ombro.
   Sua dor era evidente, quando olhou para ele.
   - Eu fiz tudo que podia, Jess - disse ele.
   - Lindsay me contou tudo... sobre David, o modo como morreu e os motivos que Brenda deu para se divorciar de voc. Ajudou-me a entender muitas coisas. Seja l
o que vier a acontecer, quero que saiba que reconheo que voc fez por Annie tudo o que foi possvel. E que sempre vou amar voc da mesma forma.
   Sucumbindo ao instinto, colocou seus braos a seu redor e a abraou forte.
   - Eu lhe quero, Jess - confessou ele. - Quero construir uma vida com voc e Annie. S no tenho certeza de que posso ser um bom marido e o tipo de pai que Annie
precisa. Duvido que minha ex-mulher pensaria que posso. No existe garantia de eu no me... afastar de voc quando as coisas estiverem difceis. Ou que voc seja
capaz de suportar as demandas da minha profisso.
   - Por enquanto, eu s preciso do seu abrao - disse Jess. Stephen a abraou forte, agradecido.
   Um pouco depois, pegaram o elevador para o andar da hematologia para Stephen realizar o exame de sua filha. Quando terminou, virou-se para ela:
   - A mudana em seu estado  leve. Mas eu acho que vejo alguma melhora.
   Pela manh, aquela melhora estava bem mais evidente.
   - Pela primeira vez seu prognstico est semelhante ao de outra criana qualquer.
   Ainda assim, Jess se recusava a sair do lado da cama de Annie, mesmo para dormir.

   Kate estava andando a esmo em seu apartamento de cobertura naquela noite, depois que sua empregada tinha ido dormir, quando Sterling lhe fez uma visita inesperada.
   - Ligue a tev. Acabamos de ter mais um acontecimento favorvel, no caso do assassinato de Mnica Malone, um que definitivamente voc vai querer saber.
   O noticirio local comeou. Para seu espanto, a primeira notcia tinha a ver com o frasco contendo a frmula do Segredo da Juventude que tinha sido furtado da
Cosmticos Fortune, em um, de uma srie, de misteriosos arrombamentos no laboratrio, muitos meses atrs.
   O frasco que fora furtado e que ainda estava com a etiqueta da Cosmticos Fortune, contendo diversos garranchos de anotaes, com a caligrafia pouco legvel do
qumico-chefe da empresa e diretor de pesquisas Nick Valkov, e que era o marido de sua neta Caroline, foi encontrado pela polcia na residncia de Mnica Malone.
   - O frasco que foi declarado furtado no ano passado estava jogado em uma caixa de sapatos, com vrios outros frascos de diversas marcas de perfumes e loes -
O ncora da televiso estava dizendo. - Tinha sido guardado sob uma pia de banheiro. A polcia no revelou que ligao a sua recuperao pudesse ter, se  que havia
alguma, com o julgamento de Jacob Fortune, presidente executivo das Indstrias Fortune, que  a empresa controladora da subsidiria da Cosmticos, no caso do assassinato
de Mnica Malone.
   - Impressionante! - exclamou Kate. - Mnica estava por trs daqueles arrombamentos! Talvez ela estivesse por trs de meu acidente com o avio tambm.
   - O que isto vai significar para Jake? Isto lhe d outro motivo para matar Mnica? - perguntou ela. - Ou aponta em outra direo?
   - Planejo dar entrada em um processo civil para recuperar o frasco, que a polcia certamente vai querer reter como evidncia.

   Dia aps dia Annie melhorava. Ela saiu do soro, passou a ingerir sopa e gelatina e depois entrou em dieta normal que, para alegria dela, incluiu um cheeseburger.
Ela comeou a demonstrar interesse pelos livros de colorir, brinquedos de plstico que Stephen tinha lhe dado, seus desenhos animados preferidos na televiso e pedir
a Jess para voltar para o chal, que tinha se tornado uma segunda casa para ela.
   Depois de causar-lhe tanto risco e desconforto, seu novo sistema imunolgico se estabilizou, permitindo a formao de um enxerto slido. Suas chances eram timas.
   Desde a entrada de Annie no hospital Stephen e Jess no tinham feito amor, ou passado muito tempo juntos. Em parte porque ela decidiu dar a ele o tempo que precisava.
A recuperao de Annie da leucemia havia recuperado um lugar de calma que geralmente existia em sua alma. Se o amor e a confiana de Stephen pudessem crescer organicamente,
em lugar semelhante, as coisas poderiam dar certo para eles, do jeito que ela queria.
   Jess resolveu alugar alguma coisa por si prpria. Um acolhedor apartamento de dois quartos tinha acabado de ficar disponvel, perto do hospital, onde pelo menos
pelos prximos seis meses Annie teria que ir regularmente, para fazer seus exames. Fez um depsito de um ms de aluguel e informou ao proprietrio que estariam mudando
no dia 8 de novembro.
   Feliz da vida porque sua filhinha estaria vindo com ela para casa naquela manh, Jess havia planejado celebrar com um jantar calmo depois que Annie se acomodasse'
e dormisse bastante. Somente a famlia Todd, Stephen e Rebecca foram convidados. Chelsea e Carter teriam bastante tempo para ir atrs de balas, antes do jantar.
   Antes de ir para o hospital buscar Annie, Jess enfeitou a sala de estar do chal com tiras de papel crepom, bolas coloridas e uma grande faixa escrita, "Bem-vinda
de volta!", que ela havia mandado imprimir em uma loja local. Tudo estava decorado em laranja e preto, de acordo com o feriado americano.
   Lgrimas lhe vieram aos olhos quando Stephen veio ao quarto de Annie para fazer a ltima avaliao da paciente.
   - Voc est nova em folha, querida - disse finalmente  menina de cinco anos, sorrindo enquanto baixava seu estetoscpio.
   Cientes de que sua partida era iminente, um grupo de enfermeiras que haviam cuidado da pequena menina corajosa e passado a gostar dela se aglomerou no quarto
para a ocasio.
   - No nos esquea! E venha nos visitar a qualquer momento! - foram duas das frases que Jess ouviu, enquanto a enfermeira-chefe presenteava sua filha com um enorme
cachorro de pelcia.
   - Este cozinho pode ficar no lugar daquele que voc deixou na Inglaterra, at que voc o veja outra vez - explicou a mulher, enquanto Annie dava-lhe um abrao
e Jess registrava o momento com sua cmera.
   Annie, cansada, no fez objeo de ser colocada embaixo das cobertas. Jess teve bastante tempo para fazer uma sopa de carne e bolo de chocolate para a festinha
e arrumar algumas caixas com as coisas delas, que estava recolhendo para a mudana.
   Eram 18h, quando a famlia Todd chegou com as crianas vestidas para Halloween, uma princesa ndia e um pirata.
   Rebecca chegou alguns minutos depois trazendo para Annie livros para pintar e um po feito em casa. Mas ainda no havia sinal de Stephen, que havia telefonado
avisando que estava um pouco atrasado.
   Stephen finalmente conseguiu deixar o hospital, ao mesmo tempo em que Jess, Annie e seus convidados estavam sentando-se para jantar, na cozinha do chal.
   Eles haviam quase acabado de comer quando ele chegou, depois de haver passado em sua casa para apanhar o anel de brilhante que havia comprado para Jess h cerca
de um ms. Ela o recebeu com um leve abrao.
   Stephen tentou conter suas emoes at que o momento apropriado chegasse para revel-las. Ele deu um beijo na testa de Annie e cumprimentou a famlia Todd e Rebecca.
Depois de ir ao banheiro, no caminho para a cozinha, Stephen viu as caixas que Jess preparou para a mudana, da qual ele nada sabia.
   Ela decidiu voltar para a Inglaterra, sem falar nada para ele!
   No momento em que voltou para a cozinha, Jess pde perceber que havia alguma coisa errada. Stephen estava faminto quando chegara, mas recusou sua sopa.
   At Annie notou.
   - Voc est bem, Dr. Steve - perguntou ela com sua habitual vitalidade. - Ou voc quer que mame veja sua temperatura?
   Rebecca e o restante da famlia Todd se retiraram mais cedo independente das objees de Chelsea e Carter. Mas, Stephen no estava pronto ainda para abordar Jess
sobre sua descoberta. Primeiro ela precisara ajudar Annie a escovar os dentes, mudar de roupas e voltar para a cama com alguns livros que Rebecca tinha trazido para
ela.
   - Muito bem, vamos l - exigiu ela, voltando para a sala de estar. - O que aconteceu?!
   Ele ansiava por agarr-la em seus braos e lhe dizer exatamente como seria com eles, daqui para frente. Eles casariam assim que pudessem obter uma licena. Ela
e Annie viriam morar com ele. Herkie seria embarcado de Londres por via expressa.
   - Voc poderia dizer que estou com um pouco de raiva pela perspectiva de voc e Annie voltarem para a Inglaterra. Vi aquelas caixas no seu quarto.
   - Eu aluguei um apartamento perto do hospital. Apesar de Lindsay e Rebecca me pedirem para ficar, no me pareceu correto ficar aqui indefinidamente, depois de
assegurar  famlia Fortune que tudo que eu queria era a medula ssea para minha filha.
   Enquanto falava, Jess estava consciente de que no estava dizendo a ele toda a histria. Com alguns de seus problemas resolvidos, ela tinha esperana de que ele
a pedisse em casamento.
    agora ou nunca, reconheceu Stephen. Se eu hesitar, vou perd-la. Ele amava Jess e Annie de todo o corao. Apesar de que nunca ficaria totalmente curado da
morte de seu filho, restringir sua vida a trabalhar e dormir dificilmente seria honrar a memria de David.
   Annie precisa de um pai, pensou ele. Jess precisa de um marido. E, ah, como eu preciso delas! Confrontando a possibilidade de poder perd-las, veio-lhe a imagem
de um deserto em sua mente.
   - Eu espero que voc no tenha feito um depsito muito grande.
   - Por qu? - perguntou.
   - Porque voc vai se casar comigo. Voc e Annie vo viver comigo, em nossa casa. Eu tenho um anel para voc no meu bolso e um corao cheio de amor para voc
e para sua preciosa filha...
   Jess se jogou em seus braos.
   -  tudo o que eu quero! Voc tem certeza?
   - Vamos tirar uma folga amanh - props ele, com sua cabea cheia de um desfile de imagens: os trs brincando na neve, ele e Jess fazendo amor perto do fogo,
acordando na mesma cama com a mulher que amava, quente e macia, perto dele, sob as cobertas. Ele queria dar a ela tudo que tinha. Tudo que era. Um filho, breve.
Ele ou ela seria a irm ou irmo de David e Annie.
   - Eu gostaria que voc tivesse conhecido meu filho. Eu quero lhe dar um beb.
   - Eu adoraria ter seu filho. Mas... - Eu gostaria de adiar a cerimnia at que Annie pudesse entrar na igreja conosco - disse ela. - Mas eu no quero esperar
tanto para fazer amor com voc.


   Eplogo

   Nate foi at a cadeia para que Jake pudesse assinar alguns papis. Para surpresa do irmo, eles estavam se entendendo. Quando Nate forneceu os documentos necessrios,
entregando-os ao carcereiro para serem verificados e passados para Jake, ele assinou nas linhas marcadas, sem questionar.
   - Voc tem sido um espinho a meu lado - Ele admitiu. -Mesmo assim, adoro esse seu mau humor. Sentado em minha cela, tenho tido bastante tempo para pensar sobre
as coisas. E decidi que voc deve ter um papel maior na direo dos assuntos executivos das Indstrias Fortune, do jeito que voc sempre quis. Se eu conseguir sair
dessa confuso, planejo passar mais do meu tempo fazendo algo relacionado  carreira mdica, que eu queria e desisti h muito tempo. Eu decidi fundar uma misso
mdica para crianas, em pases do Terceiro Mundo.
   Impressionado com os planos humanitrios de Jake e aliviado que ele poderia participar mais sobre dos negcios, Nate deu-lhe parabns.
   - Voc realmente cresceu nessa situao. Eu espero que eu possa fazer justia  sua confiana em mim.
   Quando voltou para casa, Nate telefonou para Sterling e relatou sua conversa.
   - Eu nunca pensei que estaria dizendo isso - Ele admitiu. - Mas acho que as coisas vo fluir mais suavemente entre ns.

   Como sempre, Sterling relatou suas palavras a Kate, que o havia convidado para um jantar na cobertura.
   - Acho que Jake ir se livrar e que o mistrio sobre o meu agressor ser solucionado - prognosticou Kate. -  uma questo de tempo. Muitas pistas que apontam
em outra direo esto se acumulando.
   - Eu espero que voc esteja certa, gatinha - disse ele, encostando sua cabea na dela. - Nada me faria mais feliz do que v-la feliz e abrigada no seio de sua
famlia outra vez.
   Ainda linda como uma menina, para ele, na camisola sutilmente indecente que usou para a conversa com ele, Kate enviou-lhe um de seus maliciosos olhares.
   - Voc tem certeza disto, querido velho? - perguntou ela. Sua necessidade de continuar escondida e ao mesmo tempo ter um agente na esfera da famlia para mant-la
informada tinha-os deixado cada vez mais prximos, mais do que ele esperava. Todavia, ele reconhecia que, por enquanto, nada mais excitante aconteceria. Talvez quando
Jake fosse libertado e eles tivessem encontrado o verdadeiro assassino...
   - Voc me conhece... Eu nunca tenho certeza de nada -respondeu ele, dando-lhe um pequeno aperto. - Quanto aos desejos egostas, no precisamos falar sobre eles
ainda.

   FIM
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